
*Guilherme Frizzera - doutor em relações internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e coordenador de Relações Internacionais na Uninter
Na sexta-feira, a dois dias do primeiro turno, os Estados Unidos suspenderam o atendimento na embaixada e em todos os consulados no Brasil por preocupações de segurança que não detalharam. A Austrália seguiu o gesto e mencionou terrorismo. A medida pode responder a uma ameaça concreta ou a simples prudência burocrática. A diferença perdeu importância. Num ambiente saturado de suspeita, um ato administrativo é lido como sinal. O debate que passou o último mês perguntando se haverá interferência estrangeira na eleição deixou escapar que ela já ocorre, e que seu instrumento principal é o medo de que ocorra.
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A Abin (Agência Brasileira de Inteligência) descreveu o mecanismo no relatório enviado no fim de agosto à Presidência, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça, que classifica o risco como crítico. A designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas e as sanções de julho contra brasileiros acusados de lavar dinheiro da facção têm o crime como alvo declarado. O efeito, segundo a agência, é induzir bancos e empresas a condutas preventivas por receio de sanções secundárias. A punição atinge poucos, mas a antecipação dela disciplina, muitos.
A diplomacia passou a operar sob a mesma lógica. Washington deixou Brasília sem embaixador por um ano e meio. Nesse intervalo, o consulado em São Paulo reuniu influenciadores de direita para discutir liberdade de expressão e, segundo relatos de jornalistas, abordou profissionais no congresso da Abraji com oferta de facilidades de visto. O interlocutor deixou de ser o Estado brasileiro e passou a ser a sua opinião pública. O efeito procurado é que atores domésticos fora do governo passem a medir o Planalto e o STF por uma régua certificada em Washington. São atores que poderiam, mesmo depois da apuração, aguardar um deus ex machina vindo do Norte para, no mínimo, espalhar confusão e desconfiança sobre o processo eleitoral. O governo respondeu na mesma chave. Negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado sob a suspeita de que viriam questionar as urnas e condicionou o agrément do novo embaixador ao fim da eleição. São decisões defensáveis. São também condutas preventivas, iguais às que a Abin atribui aos bancos, e mostram um Estado que já negocia com Washington a partir do receio.
O receio dispensa autor para se propagar. Em setembro, a Abin relatou a delegações da França e da Alemanha interferência americana e russa no pleito. Da parte russa, nenhum detalhe veio a público. A menção bastou para que Moscou entrasse no cálculo de campanhas e eleitores. Quando a suspeita se torna o meio em que a política acontece, toda potência vira suspeita por definição, e a acusação ganha valor próprio, independente da prova.
O eleitorado registra o efeito. Na Quaest de 28 de setembro, 51% não veem possibilidade de interferência externa e 41% veem. Perguntados se temem que os Estados Unidos passem a mandar no Brasil depois da eleição, 39% dizem ter muito medo. Diante da China, 42%. O eleitor foi convidado a escolher um tutor antes de escolher um presidente.
A América Latina conhece a versão anterior do método. Em 1962, o Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática ) irrigou com dinheiro de origem americana as candidaturas contrárias a João Goulart, num esquema que só uma CPI expôs. Enquanto a interferência da Guerra Fria dependia do segredo, a atual depende da publicidade. O tarifaço justificado pelo processo contra Jair Bolsonaro, a Lei Magnitsky aplicada a Alexandre de Moraes e a recepção de Flávio Bolsonaro na Casa Branca foram feitos à vista de todos. Uma sanção anunciada, um encontro fotografado e uma embaixada de portas fechadas funcionam porque são vistos.
O efeito mais grave aparecerá depois da apuração. A Quaest registra empate de 42% a 42% numa simulação de segundo turno. Se Flávio perder, ele terá à mão a régua de lawfare e censura que o governo americano, segundo o The Guardian, decidiu financiar com um milhão de dólares. Se Lula perder, o governo terá um relatório de inteligência que classifica a interferência como crítica e uma ação no TSE que pede a cassação da chapa adversária. A desconfiança foi distribuída de forma simétrica, e é essa simetria que a torna eficaz.
Interferir numa democracia do tamanho da brasileira nunca exigiu trocar votos. Exige tornar o resultado contestável antes que ele exista. A urna segue inviolável. Violada está a disposição de aceitar o que ela disser.