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As eleições no Brasil e a "Doutrina Donroe": o que está em jogo?

O problema não é o que Trump quer, mas, sim, isso encontrar eco por aqui. É aí que sua estratégia se cruza com as eleições presidenciais brasileiras

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump -  (crédito: Casa Branca/Daniel Torok)
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump - (crédito: Casa Branca/Daniel Torok)

Por Roberto Goulart Menezes, professor titular do Instituto de Relações Internacionais da UnB e pesquisador do Ineu

Poucos dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais, Donald Trump declarou que estava "acompanhando muito de perto" o pleito brasileiro. Sabemos que o Brasil é um país importante na região, mas é preciso indagar qual a razão de todo esse interesse do presidente dos Estados Unidos nas nossas eleições de 2026. Para isso, é importante lembrarmos que, desde as primeiras tarifas de Trump contra o Brasil, aplicadas em abril de 2025 e, depois, ampliadas em julho do mesmo ano para 50%, ele já buscava, com essas medidas, ir além do campo estritamente comercial. O tarifaço era o primeiro ato do seu governo a fim de intervir — e não apenas acompanhar — as eleições em nosso país.

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Assim, como podemos ler na Estratégia de Segurança Nacional (NSS) dos EUA — divulgadas em novembro de 2025 —, Trump elegeu como um dos objetivos da sua política externa e de defesa restaurar a influência dos Estados Unidos no hemisfério. Para isso, colocou a América Latina em uma posição central e prioritária na NSS do seu segundo governo, sendo ela tratada como a região de maior interesse para a segurança dos Estados Unidos e como objeto de uma releitura intervencionista da Doutrina Monroe, denominada Corolário Trump ou Doutrina Donroe.

Essa "doutrina" busca reafirmar a América Latina como esfera prioritária de influência dos Estados Unidos e justifica a adoção de "medidas mais assertivas" — inclusive militares — para impedir a influência de potências rivais e proteger interesses econômicos e de segurança de Washington. Isso inclui a preeminência regional dos EUA, o direito de intervir para bloquear "incursões hostis" — com especial atenção à China — e o uso da diplomacia comercial, de sanções e da presença militar para moldar o comportamento de governos e elites locais.

Sabemos que os interesses dos EUA no Brasil vão mais além. Trump quer colocar sob o controle dos Estados Unidos (e das grandes corporações deles) os minerais críticos, dominar os recursos naturais e fazer do nosso país um dos seus quintais. O problema não é ele querer, mas, sim, encontrar eco por aqui. É aí que a estratégia de Trump se cruza com as eleições presidenciais brasileiras. O candidato Flávio Bolsonaro sinalizou que pode incluir o Brasil no Escudo das Américas, que é uma iniciativa político-militar e de segurança liderada pelos Estados Unidos, criada em março de 2026, e o instrumento operacional da chamada Doutrina Donroe. 

Sob o pretexto de combater os cartéis de drogas, o crime organizado transnacional e o narcotráfico, os EUA querem assegurar mecanismos que legitimem possíveis intervenções nos diferentes países da América Latina. Assim, o Escudo das Américas implica a relativização da soberania dos países, uma vez que se abandona a cooperação entre as nações no combate ao crime para assegurar a ingerência de Washington nas políticas de segurança e defesa dos países que se curvam a esse objetivo da política externa de Trump. México, Uruguai e Brasil se mantêm fora dessa iniciativa que pode debilitar a soberania nacional. Na esteira do Escudo das Américas, vem a pressão dos EUA para a instalação de bases militares.

Trump e seus assessores mais próximos estão acompanhando tão de perto as nossas eleições que o jornal inglês The Guardian publicou que os Estados Unidos destinaram US$ 1 milhão para financiar campanha contra o Supremo Tribunal Federal (STF). A Polícia Federal está investigando se de fato isso ocorreu e se também há alguma outra forma de ingerência que possa influenciar diretamente no pleito presidencial.

Podemos afirmar que o interesse de Trump pelo Brasil — e suas riquezas —, assim como de Marco Rubio, seu Secretário de Estado, aumentou desde que a América Latina voltou a ocupar lugar de destaque na estratégia dos EUA de refazerem a sua hegemonia. A invasão da Venezuela em janeiro de 2026 foi o primeiro ato da nova doutrina. E, desde então, a agressividade da política externa dos EUA só cresceu, e a forma como Trump trata os países da região demonstra que pouco importa a diplomacia. Por isso que, quando o presidente Lula reafirmou em seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro último, que o Brasil não cabe no quintal de ninguém, ele também estava reafirmando a soberania brasileira sobre seus recursos naturais, suas riquezas, sua política externa e também sobre as nossas eleições.

 Para Trump, o Brasil é a peça-chave para que sua estratégia avance. Cabe aos brasileiros e às brasileiras que acreditam no potencial do nosso país dizer a Trump que "nem tudo que é bom para os EUA" é bom para o Brasil.

 

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Por Opinião
postado em 11/10/2026 05:00 / atualizado em 11/10/2026 11:37
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