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O alerta que vem do Hemisfério Norte

O próximo verão começa agora: nas decisões e investimentos de hoje e na capacidade de integrar conhecimento, gestão pública e participação social

Área sob aviso vermelho para onda de calor, vigente para os últimos dias de setembro, entre sábado (26) e quarta-feira (30) -  (crédito: INMET)
Área sob aviso vermelho para onda de calor, vigente para os últimos dias de setembro, entre sábado (26) e quarta-feira (30) - (crédito: INMET)

Inamara Melo | Diretora de Políticas paraa Adaptação e Resiliênciana Secretaria Nacionalde Mudança do Clima, noMinistério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA)

O verão excepcionalmente quente no Hemisfério Norte chegou ao fim deixando um alerta inequívoco. Europa, América do Norte, África e Ásia registraram temperaturas que superam marcas históricas e ampliam os impactos sobre a saúde, a infraestrutura urbana e as atividades econômicas, além de favorecer incêndios florestais de grandes proporções. Somado à influência do El Niño, que intensificou eventos extremos em cidades europeias, o aquecimento experimentado no Norte Global deu à outra metade do mundo a chance de agir antes que os impactos se agravem demasiadamente. 

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No Brasil, Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico e Defesa Civil apontam elevada probabilidade de permanência do El Niño até o início de 2027, com intensidade muito forte entre a primavera e o verão, o que deve elevar as temperaturas, alterar os regimes de chuva e ampliar o risco de ondas de calor e incêndios florestais.

Os riscos sobre a saúde são particularmente preocupantes. O estudo Saúde e Ondas de Calor: Mortalidade, Morbidade e Implicações para o SUS no Brasil revelou que o calor extremo esteve associado a pelo menos 120 mil mortes entre 2000 e 2019, sendo 80% delas entre idosos. Os impactos atingem de forma desproporcional pessoas com menor escolaridade, mulheres e populações vulneráveis. Já o relatório elaborado por pesquisadores das universidades de Chicago e Berkley aponta que o Brasil deve ser o quinto país do mundo mais atingido, com cerca de 13 mil mortes relacionadas ao aquecimento extremo das águas do Pacífico. As projeções estimam 44% mais dias de calor extremo do que seria esperado em um ano normal.

Diante dessa urgência, o Brasil lançou o Plano Clima, que envolveu 25 ministérios em diálogo com estados, municípios, setor empresarial e sociedade civil, estabelecendo objetivos de adaptação alinhados às metas globais e mais de 800 ações voltadas à redução dos riscos climáticos. Sua governança conta com o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima, com câmaras de articulação federativa e participação social, além do IndicaClima, que dá transparência às políticas públicas. Ainda assim, o planejamento federal só terá efeito com a rápida integração de estados e municípios.

Na área da saúde, essa mobilização está em curso. Com o AdaptaSUS, o país  prevê R$ 9,8 bilhões até 2035 para adaptar o SUS aos impactos climáticos, incluindo o Painel de Excesso de Calor, ferramenta que permite alertas antecipados de até cinco dias, novos protocolos para estados e municípios e a ampliação da Força Nacional do SUS para oito bases regionais, garantindo respostas mais rápidas a emergências climáticas. 

Mas enfrentar o calor extremo exige integrar a adaptação às políticas de habitação, mobilidade, arborização, uso e ocupação do solo, infraestrutura urbana e proteção social. O Programa Cidades Verdes Resilientes tem papel estratégico, com iniciativas como o AdaptaCidades já presentes em mais de 500 municípios, e o Beat the Heat, o Mutirão contra o Calor Extremo, lançado na COP30. 

As soluções já são conhecidas. Arborização, corredores verdes, recuperação de áreas naturais, sombreamento de espaços públicos, arquitetura bioclimática, ventilação natural e materiais mais eficientes reduzem significativamente as temperaturas urbanas. Em hospitais, escolas, creches e equipamentos públicos, o resfriamento adequado torna-se uma medida de proteção à vida, priorizando idosos, crianças, gestantes e pessoas em situação de rua, sem elevar o consumo de energia nem as emissões que alimentam o próprio aquecimento.

Com esse objetivo, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) lançaram o Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento, conectando adaptação e mitigação, proteção das pessoas e desenvolvimento sustentável. Essa agenda não avança sem o fortalecimento do federalismo climático, reconhecido na NDC brasileira, que associa o enfrentamento da mudança do clima à articulação entre União, estados e municípios.

Oficialmente, entramos na primavera, mas, para os gestores, o próximo verão começa agora: nas decisões e investimentos de hoje, baseados na melhor ciência, e na capacidade de integrar conhecimento, gestão pública e participação social. Preparar o Brasil para o calor extremo é reduzir desigualdades e afirmar que a adaptação climática não é uma escolha, mas responsabilidade federativa compartilhada e condição indispensável para o desenvolvimento do país.

 

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Por Opinião
postado em 12/10/2026 05:00 / atualizado em 12/10/2026 07:39
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