
Rosana Richtmann — infectologista do Laboratório Exame, no Distrito Federal, e consultora em vacinas da Dasa
Uma criança pode estar com a vacinação em dia e, ainda assim, permanecer vulnerável a uma forma grave de meningite. A afirmação parece contraditória, mas expõe uma questão pouco discutida no Brasil: seguir integralmente o calendário público de vacinação não significa, necessariamente, ter recebido todas as vacinas disponíveis contra uma doença.
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A meningite bacteriana é um exemplo de como essa diferença pode ter consequências graves. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente uma em cada seis pessoas que desenvolvem a doença morre, enquanto uma em cada cinco apresenta complicações importantes, como perda auditiva e comprometimento neurológico. Na cidade de São Paulo, dados provisórios da Secretaria Municipal da Saúde apontam 108 casos de doença meningocócica e 23 mortes entre janeiro e agosto de 2026. Embora se refiram apenas a uma das causas de meningite, os números mostram que a doença permanece uma ameaça.
A doença meningocócica preocupa especialmente pela velocidade com que pode evoluir. Os primeiros sintomas, como febre, dor de cabeça e vômitos, podem ser confundidos com os de uma virose. A combinação de febre, dor de cabeça intensa e rigidez na nuca exige atenção imediata. Manchas avermelhadas ou arroxeadas na pele que não desaparecem à pressão podem indicar uma infecção grave. Em bebês, os sinais podem ser menos evidentes, incluindo irritabilidade, recusa alimentar, sonolência excessiva e abaulamento da moleira. Nem todos os sintomas aparecem juntos, e esperar pelos sinais mais característicos pode atrasar o tratamento.
O Brasil possui um dos maiores programas públicos de imunização do mundo, conquista que precisa ser valorizada. O calendário nacional de 2026 prevê a vacina meningocócica C aos três e cinco meses de vida, com reforço preferencialmente aos 12 meses utilizando a vacina ACWY. Esta última também é oferecida aos adolescentes de 11 a 14 anos.
Há, porém, uma lacuna. A vacina contra o meningococo B, recomendada pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) a partir dos três meses de vida, com reforço no segundo ano, está disponível apenas na rede privada. Como as vacinas protegem contra diferentes sorogrupos da bactéria, receber uma delas não substitui a proteção oferecida pela outra. E o tipo B não é um detalhe: desde 2021, responde por cerca de 60% dos casos de doença meningocócica no país, segundo a SBIm.
Em abril, o Ministério da Saúde decidiu não incorporar ao SUS a vacina contra o meningococo B para menores de um ano, seguindo recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Avaliações desse tipo são legítimas e consideram custo, impacto e prioridades do sistema. Mas a decisão não encerra o debate. Enquanto o tema não volta à pauta pública, a proteção contra o tipo mais frequente da doença depende da informação e das condições de cada família.
Quantos pais sabem dessa diferença? A falta de informação pode criar uma falsa sensação de segurança, mesmo entre famílias que seguem rigorosamente as orientações de vacinação.
A atenção não deve terminar na infância. Adolescentes e adultos jovens também merecem cuidados, pois o meningococo pode permanecer na nasofaringe de pessoas sem sintomas, favorecendo sua transmissão em ambientes de convivência próxima. Revisar a caderneta de vacinação e conversar com o médico sobre as recomendações para cada faixa etária são medidas que precisam acompanhar o crescimento.
Há ainda uma consequência pouco lembrada quando discutimos a meningite: sobreviver não significa necessariamente recuperar a saúde. Segundo o Ministério da Saúde, até um em cada dez sobreviventes de meningite bacteriana fica com perda auditiva, e de 10% a 20% sofrem danos neurológicos. As crianças são as mais afetadas, e a letalidade é maior entre os menores de cinco anos. As sequelas podem exigir anos de acompanhamento médico, reabilitação e adaptações na rotina familiar. Nunca se falou tanto em envelhecer bem, mas viver mais e melhor também começa no berço. Uma infecção que evolui rapidamente pode comprometer toda uma vida.
O Mês de Combate à Meningite é uma oportunidade para avançar na informação: as famílias precisam conhecer todas as possibilidades de prevenção e conversar com o pediatra sobre elas. Uma caderneta preenchida é uma conquista da saúde pública, mas não pode ser confundida com proteção completa.
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