
Não importa o resultado das urnas no próximo domingo: esta é a campanha mais simbólica desde as primeiras eleições pós-ditadura. Toda vez que o povo toma as ruas, algo de extraordinário acontece. Vi e vivi os movimentos Diretas Já!, caras-pintadas, as manifestações pelo passe livre. Foram períodos em que os brasileiros assumiram a dianteira para mandar recados importantes e exigir mudanças. Nenhum desses movimentos foi em vão.
Estamos às vésperas de uma eleição decisiva para o Brasil — na verdade, para o mundo. Somos uma resistência democrática na América Latina e, talvez, a esperança de que a região consiga preservar sua soberania diante de interesses externos sobre suas riquezas e seus recursos. A extrema direita tem conquistado espaços importantíssimos de forma global, e aqui no Brasil é vista por parte da população como uma perspectiva de mudança para uma população cansada da luta do dia a dia. É legítimo querer uma transformação do poder.
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Mas, quando o discurso de Flávio Bolsonaro aponta para mudanças na Constituição, o temor pela preservação dos direitos já conquistados eleva a campanha a outro patamar. Não por um candidato que seja seu oposto, e sim por uma ideia de Brasil livre, soberano e democrático. Para isso, esquerda e direita parecem dispostas a se unir. O vídeo do vice-presidente Alckmin com os herdeiros da social democracia — filho de Mário Covas, filha de Fernando Henrique e Cardoso filha do jurista José Gregori — é apenas um dos indícios dessa convocação por um Brasil que siga democrático, sem abrir da soberania diante das grandes potências.
Entre o primeiro e o segundo turno, uma parte significativa dos brasileiros virou um exército que mostrou força nas ruas e nas redes sociais. Foi a reação dos partidários de Lula e também daqueles que temem retrocessos democráticos. Pode significar uma virada histórica e, pela primeira vez, levar à presidência um candidato que saiu derrotado no primeiro turno.
Independentemente de Lula conseguir esse triunfo e sair vitorioso, existe um fato inquestionável: a mobilização do povo, capaz de lotar ruas, bairros inteiros e praças virtuais em favor de uma causa que vai além da política partidária. A bandeira e a hashtag; o áudio no WhatsApp e o microfone do alto de um palco ou trio; o abraço e o compartilhamento representam a campanha simultânea no corpo a corpo e no mundo virtual (mais real do que nunca), tão simbólica do nosso tempo.
Já sabíamos da força das redes, da cauda longa da desinformação, dos riscos de interferência externa nas eleições, de ameaças golpistas. Mas não esperávamos esse nível de participação popular numa eleição em que mais de 30 milhões de eleitores deixaram de comparecer às urnas no primeiro turno, um número que reflete também uma descomunal desesperança na política.
Parece contraditório, não deixa de ser. Foram tantos ausentes e, ao mesmo tempo, uma presença tão massiva e barulhenta, capaz de nos arrancar da inércia do dia a dia e nos levar a debater política com tanto fervor. A mobilização também ocorre em meio ao desgaste de instituições como o Judiciário e parte da imprensa, que terão de refletir sobre suas práticas e a confiança que inspiram. O escândalo do Banco Master e as suspeitas de corrupção que envolvem Daniel Vorcaro e diferentes agentes do poder expõem, por sua vez, a dimensão dos desafios de fiscalização e responsabilização no país.
Esta eleição já é simbólica porque, independentemente de quem vencer, está claro que o povo brasileiro não foge à luta, que permanecerá vigilante e acordará ao menor sinal de perda de direitos.