
Evelyn Apolinaria — doutoranda do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Ipol/UnB)
A vitória de Celina Leão (PP) fará dela a governante com a posição mais confortável desde a redemocratização no relacionamento com a Câmara Legislativa. Ela chegou ao segundo turno com 49,93% dos votos válidos no primeiro, contra 34,47% de Leandro Grass (PT). Ao longo de 2023-2026, o Executivo local conviveu com uma maioria ampla e estável: em 2024, a base de Ibaneis Rocha somava cerca de 18 dos 24 distritais, contando os independentes, e a oposição, com seis, não tinha capacidade de obstrução. O resultado foi um padrão de governabilidade assentado em uma maioria com baixo tensionamento legislativo e uma tramitação rápida de projetos do Buriti.
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Esse padrão veio se desgastando antes da eleição. A crise BRB-Master, a saída de Ibaneis em março de 2026 e o rompimento do PL com o então governador, acompanhado de pedido de CPI, mostraram que a maioria numérica da direita na CLDF, naquele momento, não se traduziria automaticamente em coesão governista. A nova composição de 2026, no entanto, demonstra que as alianças já foram costuradas desde a campanha.
O PL elegeu a maior bancada, com cinco cadeiras, mas nenhum partido passa disso: PT, Republicanos, MDB e PP têm três cada, PSol e PSB, duas, e União, Podemos e PSD, uma. Somadas, as legendas de centro-direita e direita ocupam 17 das 24 vagas, enquanto PT, PSol e PSB reúnem sete. Porém, a governabilidade de Celina dependerá da capacidade da governadora de administrar uma maioria fragmentada em 10 partidos, na qual cada sigla terá incentivo para negociar caro seu apoio.
O que esperar de 2027, portanto, é uma governabilidade hegemônica, sim, mas mais transacional do que a do ciclo anterior. A governadora terá a vantagem de uma vitória robusta e de uma base ampla, mas deverá partilhar espaço com um PL fortalecido, que ajudou a eleger e que tem agenda e interesses próprios, e conviver com restrições fiscais herdadas do episódio do BRB, que reduzem a margem para distribuir recursos e cargos. A oposição, embora minoritária, tende a ganhar visibilidade com nomes de forte votação, como Max Maciel, o mais votado do pleito. O teste inicial estará no orçamento de 2027 e na definição da presidência da Casa, momentos em que se verá se a maioria numérica se converte em uma coalizão eficiente ou se a fragmentação cobra o seu preço.