Ricardo Martins — PhD em sociologia, especialista em relações internacionais e geopolítica pela Universidade de Utrecht
Os direitos humanos deveriam ser universais, mas potências os usam como ferramentas geopolíticas: condenam rivais, justificam sanções e promovem isolamento, mas silenciam sobre violações cometidas por si ou aliados.
Os Estados Unidos possuem, há décadas, um histórico controverso — apoiando golpes e regimes autoritários na América Latina, além de práticas de tortura, detenções por tempo indeterminado e execuções seletivas após os atentados de 11 de Setembro. Não são os únicos: outras grandes potências também recorrem ao mesmo expediente, aplicando princípios gerais de modo seletivo como instrumentos políticos.
É aí que ocorre o dano real. Os direitos humanos perdem toda autoridade moral e política quando sua aplicação depende da identidade do infrator, e não da natureza da violação. Um governo não pode exigir responsabilização de seus rivais ao mesmo tempo em que trata ações semelhantes, praticadas por si ou por aliados, como exceção, exigência de segurança ou interesse estratégico. Quando Estados poderosos escolhem quais direitos importam, os direitos humanos deixam de ser universais e se tornam mais um instrumento de poder.
Os EUA também enfrentam problemas internos de direitos humanos. Tanto a Anistia Internacional quanto a Human Rights Watch documentaram sérias anomalias no tratamento de requerentes de asilo, abusos na aplicação das leis imigratórias, mortes sob custódia em centros de imigração, disparidades raciais no policiamento e encarceramento, uso continuado da pena de morte, restrições ao direito de protesto e a prática de detenções indefinidas em Guantánamo.
Em 2026, a Human Rights Watch registrou 52 mortes sob custódia do ICE nos primeiros 500 dias do governo Trump. Essas constatações não são apenas alegações de organizações estrangeiras. Baseiam-se em registros oficiais, decisões judiciais, grupos de fiscalização e organizações da sociedade civil.
Israel é um caso emblemático de preocupações com direitos humanos. Em Gaza, a ONU e diversas organizações de direitos humanos documentaram mais de 50 mil mortes civis, além de militantes do Hamas — em sua maioria crianças e mulheres —, deslocamentos forçados, destruição de casas e infraestrutura, restrições a organizações humanitárias e denúncias de tortura e maus-tratos a detidos.
Em setembro de 2025, a Comissão Independente de Inquérito da ONU afirmou que autoridades e forças de segurança israelenses cometeram genocídio contra os palestinos em Gaza. Israel rejeitou a conclusão. Paralelamente, a Corte Internacional de Justiça emitiu medidas provisórias sob a Convenção do Genocídio e as reafirmou.
A Cisjordânia também preocupa. Relatório do ACNUDH de janeiro de 2026 alertou que a administração discriminatória de Israel nos territórios ocupados, incluindo Jerusalém Oriental, viola obrigações internacionais relativas à segregação racial e ao apartheid. A Human Rights Watch, em 2026, também documentou sistemas legais desiguais, demolições, violência extrema de colonos — muitas vezes apoiada pelo exército — e deslocamentos forçados.
A dimensão institucional é fundamental: a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA) é peça-chave no apoio aos refugiados palestinos. Em 2025, Israel proibiu as atividades da agência, medida condenada pela ONU.
Os EUA vêm impondo sanções ao Tribunal Penal Internacional e pressionando para esvaziar a Corte Internacional de Justiça (CIJ), além de reduzir apoio a órgãos da ONU. Paralelamente, a China passou a expor publicamente os EUA usando relatórios oficiais sobre violações de direitos humanos — destacando problemas como violência armada, racismo, pobreza, imigração, brutalidade policial e Guantánamo.
Direitos humanos perdem legitimidade quando servem para punir inimigos e proteger aliados. A relação dos EUA com Israel e Arábia Saudita exemplifica esse duplo padrão. O caminho é fortalecer instituições que investiguem todos por igual.
A credibilidade do sistema de direitos humanos depende de aplicar o mesmo padrão a todos, além de reforçar e garantir autonomia a órgãos como ACNUDH, missões investigativas da ONU, UNRWA e Tribunal Penal Internacional.
