Visão do Correio

O risco de Kaliningrado

Nenhum território, por mais estratégico que seja, vale o custo de um confronto entre a Rússia e a Otan

Vladimir Putin voltou a transformar Kaliningrado em recado -  (crédito: Gavriil Grigorov/Pool/AFP)
Vladimir Putin voltou a transformar Kaliningrado em recado - (crédito: Gavriil Grigorov/Pool/AFP)

Pequenino no mapa, Kaliningrado é um território russo separado do restante da Rússia por território da Lituânia ao norte e leste, e da Polônia ao sul. Para acessá-lo por terra vindo da Rússia, é preciso atravessar um ou ambos esses países, que são membros da Otan. O território fica às margens do Mar Báltico e abriga a sede da Frota do Báltico da Marinha russa, além de sistemas de mísseis e infraestrutura militar de alto valor estratégico. É, em outras palavras, um bastião militar russo cercado por países da aliança ocidental, e essa geografia é, por si só, uma fonte permanente de fricção.

Ontem, Vladimir Putin voltou a transformar Kaliningrado em recado. No Fórum Valdai, em Moscou, o presidente russo afirmou que considera usar "todos os tipos de armas" de seu arsenal em caso de ameaça ao território e acrescentou que não é possível ter certeza de que armas de destruição em massa jamais serão utilizadas. A frase não foi acidental. Dias antes, a Rússia havia enviado à Otan um documento classificado como "non-paper" — espécie de comunicação informal, mas de conteúdo explícito — afirmando que estaria "pronta para utilizar todo o arsenal, incluindo armas nucleares", caso a aliança tentasse isolar Kaliningrado do restante do país. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, respondeu que a aliança é defensiva e não ameaça o território. O tom de Moscou sugere que essa resposta não foi considerada suficiente.

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Para entender por que Kaliningrado provoca esse nível de tensão, é necessário recuar no tempo. O território foi, durante séculos, parte do Ducado da Prússia e depois do Reino da Prússia, uma região de maioria alemã, com capital em Königsberg, cidade que deu ao mundo o filósofo Immanuel Kant e que foi palco de intensas batalhas ao longo da Segunda Guerra Mundial. Em 1945, após a derrota da Alemanha nazista, a Conferência de Potsdam redesenhou o mapa europeu: Königsberg e a região ao redor foram cedidas à União Soviética, sua população alemã foi expulsa e o território foi repovoado por soviéticos. O nome foi mudado para Kaliningrado. Com o colapso da URSS em 1991, o território tornou-se um exclave russo — geograficamente separado da Rússia pelo surgimento de estados independentes no Báltico. A fronteira que antes era interna, dentro de um mesmo país, tornou-se uma fronteira entre a Rússia e países que, pouco depois, adeririam à Otan. Kaliningrado sempre esteve em disputa. Mudaram apenas os disputantes.

Hoje, a região é mais do que um problema geográfico. É o ponto onde a expansão da Otan em direção ao leste encontra a mais sensível das instalações militares russas. Quando a Lituânia restringiu temporariamente o trânsito de mercadorias para Kaliningrado em 2022, Moscou respondeu com avisos severos. A situação foi parcialmente revertida, mas o episódio mostrou o quanto o território pode ser usado como gatilho. As recentes declarações de Putin e o documento enviado à Otan sugerem que esse gatilho está sendo posicionado com crescente deliberação, num momento em que a guerra na Ucrânia continua sem solução, as relações entre Moscou e o Ocidente estão no pior patamar desde a Guerra Fria, e qualquer incidente em solo báltico pode acionar a cláusula de defesa coletiva do Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte.

Kaliningrado não é o único ponto de combustão no mapa europeu. Mas é o que reúne, num único território, a presença militar russa, a geografia da Otan, a memória de disputas centenárias e, agora, a ameaça explícita do uso de armas de destruição em massa. O mundo já viu o que acontece quando pontos assim são subestimados. O apelo que se faz — com a consciência de que pedidos do tipo têm pouco peso diante de arsenais — é pela razoabilidade. Pelo diálogo que ainda é possível antes que deixe de ser. E pelo reconhecimento de que nenhum território, por mais estratégico que seja, vale o custo de um confronto entre a Rússia e a Otan. Esse custo, ao contrário dos outros, não tem como ser calculado antecipadamente.

 

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Por Opinião
postado em 02/10/2026 05:00
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