Carlos André Machado, diretor da Opinião — Inteligência Política e pesquisador de opinião
A urna foi a porta-voz do eleitor. As urnas falaram, e precisamos ouvir o claro recado que emana delas. E o recado, desta vez, veio em letras grandes: o Brasil girou à direita — e fez isso respondendo a algo mais profundo do que a simples disputa entre dois nomes para o Planalto.
Comecemos pela surpresa que abre os jornais de hoje. Lula liderou quase todas as pesquisas da campanha, mês após mês, com folga que chegou a oito pontos em setembro. Na urna, ficou em segundo: cerca de 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro, uma diferença de mais de 2 milhões de votos. Ninguém passou de 50%, então o país vai a segundo turno — e Flávio chega favorito. Pesquisa não erra à toa: o que houve foi um movimento de última hora do eleitor indeciso e do voto útil dos candidatos menores, que as médias de outubro já vinham captando e que a urna confirmou com força.
Mas é no Senado que o recado fica inequívoco, e é dele que quero falar. Foram 54 cadeiras em disputa neste domingo, dois terços de uma Casa cujo mandato dura oito anos e atravessa governos. E o campo de centro e centro-direita — PL, MDB, PP, Republicanos, União, PSD, Podemos e Novo — está levando cerca de três em cada quatro vagas. Não é maioria simples. É hegemonia.
Os detalhes contam a história melhor do que a média nacional. No Distrito Federal, as duas vagas foram para o PL: Michelle Bolsonaro e Bia Kicis superaram com folga Leila do Vôlei e Erika Kokay. No Rio de Janeiro e em Santa Catarina, o mesmo roteiro se repetiu — dobradinha do PL, com Carlos Bolsonaro eleito senador catarinense. Em São Paulo, a ministra Marina Silva terminou em terceiro lugar. No Paraná, Gleisi Hoffmann, ex-presidente nacional do PT, amargou a quarta colocação. No Amapá, Randolfe Rodrigues, peça-chave do governo no Senado, perdeu a reeleição. Não é um resultado disperso: é um padrão que se repete de Norte a Sul — e que se soma aos 27 senadores eleitos em 2022, que seguem no cargo e, somados aos novos, devem consolidar uma Casa com maioria nitidamente mais à direita do que a atual.
E por que justamente o Senado carrega esse peso simbólico? Porque esta não foi uma eleição comum entre governo e oposição. Foi uma eleição disputada sob a sombra de um Supremo Tribunal Federal (STF) em crise aberta — com ministros sob suspeita no escândalo do Banco Master, com decisões monocráticas que legislam no lugar do Congresso, e com sabatinas que, na prática, viraram cerimônia protocolar de aprovação certa. Dias antes do pleito, o TSE ainda alterou às pressas as regras do último debate presidencial, dando a impressão de que ajudava um dos lados desta disputa. Nada disso passou em branco. O eleitor mais atento sabia, além de tudo, que o próximo presidente poderá indicar até quatro novos ministros à Corte — e votou pensando nisso.
É o Senado quem sabatina indicações e, se necessário, processa e julga ministros do Supremo. Entregar a ele uma maioria de centro-direita tão larga não é acidente de percurso: é blindagem deliberada. É o eleitor dizendo, com todas as letras da urna, que quer um Congresso disposto a colocar freio onde o freio desapareceu.
Por isso, o título "Um Supremo recado". Supremo no sentido coloquial, de mensagem forte e definitiva. E Supremo porque mira direto no tribunal que dá nome à crise. As urnas não apenas elegeram um Congresso mais à direita: elas cobraram satisfação de uma Corte que, para uma parcela relevante do eleitorado, deixou de arbitrar o jogo institucional para jogá-lo ela mesma. Os 54 senadores que tomam posse em fevereiro carregam esse recado nas costas. Resta saber se terão a coragem de escutá-lo.
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