Luisa Maria Diele-Viegas — presidente da Associação Brasileira de Ciência Ecológica e Conservação (Abeco) e do Capítulo Brasileiro, representante Regional Latam da Organização para Mulheres na Ciência para o Mundo em Desenvolvimento
Em um país com a diversidade biológica do Brasil e com profundas desigualdades sociais, as eleições também definem o futuro do nosso patrimônio natural. Neste segundo turno, a disputa envolve projetos distintos para o país e para o papel do Estado na proteção ambiental. Estão em jogo a continuidade das políticas de conservação, a capacidade das instituições públicas de fazer cumprir a legislação e o espaço da ciência e dos direitos socioambientais nas decisões de governo. Em um cenário de avanço de forças políticas que questionam as políticas ambientais e os mecanismos de proteção social, discutir a biodiversidade é também discutir os rumos da democracia brasileira.
A crise ambiental não está distante da nossa realidade. Ela se manifesta na escassez de água, na insegurança alimentar e nos eventos climáticos extremos. Quando uma floresta é destruída, as consequências vão além da perda de espécies. Os ecossistemas deixam de desempenhar funções essenciais à vida, e as mudanças ambientais podem favorecer a emergência de doenças. A perda de biodiversidade não se restringe a espécies ameaçadas ou a regiões distantes dos centros urbanos. Ela afeta nossas condições de vida e pode agravar as desigualdades existentes.
É nesse contexto que as escolhas políticas ganham importância. A legislação ambiental e as instituições responsáveis por sua aplicação resultam de décadas de construção. O enfraquecimento dos órgãos de fiscalização e os retrocessos na proteção ambiental reduzem a capacidade do Estado de responder à degradação dos ecossistemas. Essas mudanças podem avançar rapidamente, mas seus efeitos são difíceis de reverter. Uma floresta destruída pode levar décadas para se recuperar, enquanto a extinção de uma espécie representa uma perda definitiva. Por isso, a proteção ambiental precisa ser um compromisso público duradouro.
Essa discussão também diz respeito à soberania brasileira. Nosso patrimônio biológico e genético tem importância estratégica, assim como os recursos naturais, que despertam crescente interesse econômico — entre eles, as terras raras. O país precisa ter autonomia para decidir como essa riqueza será utilizada e a quem seus benefícios servirão. O desenvolvimento nacional não pode ser avaliado apenas pelo valor econômico dos recursos extraídos, sem considerar os custos ambientais e sociais de sua exploração. A geração de riqueza deve também respeitar os direitos das populações que vivem nos territórios afetados.
Os povos indígenas e as comunidades tradicionais ocupam um lugar central nessa discussão. Seus territórios abrigam uma parcela importante da biodiversidade brasileira, e seus conhecimentos contribuem para a conservação dos ambientes dos quais dependem. Defender seus direitos significa reconhecer sua participação nas decisões que afetam seus territórios e modos de vida.
Como pesquisadora em ecologia e conservação, vejo na ciência uma contribuição indispensável para esse debate. O conhecimento científico permite compreender as consequências das transformações ambientais e avaliar os riscos de decisões que comprometem o futuro. Mas produzir conhecimento não basta: é preciso que as evidências orientem as políticas públicas. Isso exige investimento em pesquisa e em instituições ambientais com condições de cumprir suas funções.
O segundo turno vai passar, mas as consequências das escolhas feitas neste momento permanecerão. O debate sobre o futuro do Brasil precisa considerar o que sustenta a vida de sua população. A biodiversidade não tem voz nas urnas, assim como as gerações futuras não podem participar das decisões que definirão as condições ambientais em que viverão. Cabe à sociedade considerar esses interesses ao discutir os rumos do país.
Defender a biodiversidade é defender a soberania brasileira e as condições de vida das gerações presentes e futuras. Proteger nosso patrimônio natural é parte essencial da decisão sobre que país queremos deixar.
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