Artigo

O efeito dunning-kruger nas eleições

Como ninguém consegue saber tudo, nem mesmo os especialistas, o grande teste para o eleitor não é ter respostas prontas, mas sim a humildade de reconhecer o que não sabe

Rafael Maroli — publicitário, gestor de tecnologia da informação e comunicação 

Enquanto aguardava em uma sala de espera, ouvia duas mulheres ao meu lado conversando sobre política, o assunto que mais gerou discussões no país este ano. É interessante como uma delas falava com enorme propriedade sobre absolutamente quaisquer assuntos que o leitor possa imaginar, indo das propostas dos presidenciáveis a crises de política externa, chegando até ao funcionamento interno do Exército Brasileiro. Eu olhava para ela e reparava na certeza com que tratava de temas que a maioria das pessoas passa a vida sem estudar. E, pelo visto, ela também não tinha estudado!

Quase tudo o que ela dizia começava com um “eu acho”. Só que não havia nada de tímido ali; o tom de voz dela transformava qualquer palpite em certeza, por mais infundado que fosse. Na hora, lembrei-me de uma entrevista do saudoso Dr. Enéas Carneiro na TV Band. Ele contava que passou quatro anos inteiros, entre 1989 e 1994, estudando o funcionamento do Brasil para ter bagagem suficiente para se candidatar à Presidência da República. Ele realmente sabia o quanto é difícil conhecer o país de verdade antes de querer governá-lo.

Esse episódio deixou-me pensando no efeito Dunning-Kruger, um fenômeno estudado pela psicologia que aponta que pessoas com pouco conhecimento sobre determinado assunto podem ter dificuldade em reconhecer as próprias limitações, superestimando sua capacidade de compreensão justamente por não disporem do conhecimento necessário para avaliar o que ainda não sabem. Assim, podem defender ideias com enorme confiança, sem perceber o quanto lhes falta compreender.

É o que acontece quando um candidato aparece na TV prometendo acabar com a fome ou com a violência por decreto, como se bastasse dizer “eu vou fazer” para resolver o problema. Muita gente acredita porque a solução parece fácil. Quem olha a realidade superficialmente acha que resolver problemas históricos é só uma questão de boa vontade. Mas quem para para estudar o país descobre que mexer em uma peça do complexo mosaico da economia pode acabar prejudicando a saúde, o ensino ou a segurança lá na frente. Está tudo amarrado, e o estrago de uma decisão errada pode durar anos, tornando-se quase irrecuperável por décadas.

Inclusive, a falta de compreensão, por parte dos eleitores, da natureza dos problemas do país ajuda a transformar os debates e os programas de propaganda eleitoral em uma verdadeira guerra de absurdos, pois propostas toscas nascem do populismo, que, por sua vez, só ganha força em um ambiente de desinformação. 

O problema, portanto, não é o cidadão comum discutir política. Pelo contrário, a democracia só funciona quando todos efetivamente participam. Ninguém precisa de diploma de economia para reclamar do preço do mercado, nem ser advogado para achar uma lei injusta. O erro começa quando o direito de opinar vira a pretensão de ser dono da verdade. É aí que o palpite pessoal passa a valer mais do que os fatos e a realidade.

Nesse cenário, o discurso puramente carismático ganha força. O candidato que promete resolver problemas complexos de um dia para o outro passa uma imagem de herói decidido. Já aquele que tenta ser realista, explicando os obstáculos e ponderando que as mudanças levam tempo, acaba sendo visto como inseguro ou fraco. No fim, fica difícil para o eleitor separar quem realmente entende do assunto de quem só fala com firmeza e segurança.

As redes sociais complicaram ainda mais a situação. Depois de assistir a alguns vídeos, qualquer um pode decorar três ou quatro argumentos e se sentir pronto para defender uma tese. Pior ainda: pode acreditar que já domina o assunto ou se considerar quase um acadêmico. O acesso à informação aumentou, mas repetir um ponto de vista que o algoritmo lançou para você na internet não significa que você entendeu de onde ele veio ou quais são as consequências reais de defendê-lo.

Como ninguém consegue saber tudo, nem mesmo os especialistas, o grande teste para o eleitor não é ter respostas prontas, mas sim a humildade de reconhecer o que não sabe. Votar conscientemente não exige que a gente vire especialista, mas que saiba separar o gogó do marqueteiro das possibilidades reais. É olhar para a promessa e se perguntar, diante da realidade: “Isso é mesmo possível fazer?”.

Convido o leitor a refletir sobre isso ao assistir à propaganda eleitoral, que entrou em sua última semana. Muitas têm sido as propostas, que vão do reforço das Forças Armadas à tarifa zero no transporte público aos fins de semana e à oferta de um SUS nos padrões do Hospital Albert Einstein. A intenção de isentar a tarifa do transporte público em todo o Brasil é muito bonita, mas estima-se que o custo de sua implementação completa seria de aproximadamente R$ 16 bilhões. Será que essa promessa pode ser facilmente cumprida? Ou será que, em um Sistema Único de Saúde com longas filas e no qual já houve falta até de dipirona, é fácil acreditar na adoção de um padrão Einstein?

Volto a me lembrar daquela mulher. Não sei o que ela realmente sabia, e seria injusto julgá-la por alguns minutos que ouvi de seus pensamentos, mas o papo dela deixou uma dúvida: se é tão fácil cair na conversa de quem fala com segurança no dia a dia, mesmo sobre coisas muito mais corriqueiras, quantas vezes não cometemos o mesmo erro na hora de votar?

A maturidade política começa quando paramos de ver a dúvida como fraqueza e passamos a aceitá-la como parte do conhecimento, algo raro em um ambiente tão polarizado. O paradoxo socrático “só sei que nada sei” não é uma piada nem um trocadilho para dizer que realmente não se sabe de nada, mas um reconhecimento da própria ignorância, fundamental para abrir a mente ao raciocínio e ao aprendizado constante, sem os quais é impossível chegar verdadeiramente ao conhecimento. Para escolher quem vai comandar o país, não basta olhar quem fala com mais certeza, tampouco permanecer fechado nas próprias convicções. É preciso descobrir quem compreende o tamanho dos problemas que está prometendo resolver.




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