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A Doutrina Donroe nas eleições brasileiras

O governo dos Estados Unidos, em especial, tem reativado formas de promover seus interesses na América Latina, valendo-se de táticas utilizadas em esquemas de guerra híbrida

. -  (crédito: Caio Gomez)
. - (crédito: Caio Gomez)

Natalia Fingermann — professora de relações internacionais da ESPM; Rafael Ioris — professor de história da University of Denver

Após o primeiro turno de 2026, muitas críticas foram lançadas sobre a campanha de Lula, em especial sobre sua atuação nas redes sociais. Embora sejam relevantes essas análises, elas ignoram a atuação dos atores externos no processo eleitoral em curso. O governo dos Estados Unidos, em especial, tem reativado formas de promover seus interesses na América Latina, valendo-se de táticas utilizadas em esquemas de guerra híbrida. 

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A primeira tática é sempre mais visível e utiliza de diferentes formas de coerção, inclusive para desviar atenção do que está de fato ocorrendo. A segunda é de menor visibilidade e se vale de meios intermediários de desinformação. Já a terceira tática é quase invisível ao direcionar a desinformação àqueles suscetíveis a uma mudança de comportamento no pleito eleitoral, hoje em grande parte realizado por meios digitais.

A primeira tática teve sua mais clara demonstração na imposição de novas tarifas alfandegárias em julho de 2025, justificada como uma forma de retaliação à condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Porém, a eficiente resposta do governo Lula em defender os interesses nacionais forçou uma reversão de curso por parte dos EUA. Assim, em seguida, o governo Trump lançou uma nova linha de ataque ao designar organizações criminosas, como o PCC e o Comando Vermelho, como grupos terroristas contra os quais as forças militares norte-americanas se arvoravam o direito de agir. 

Ainda nessa mesma linha, os EUA ameaçaram retomar medidas retaliatórias com o intuito tributar o Pix e, mais recentemente, o Departamento de Estado norte-americano reforçou a ideia de uma ameaça terrorista desenfreada no Brasil ao decidir fechar sua embaixada e consulados nas vésperas do primeiro turno, indicando que os EUA estão hoje dispostos a se valer de diferentes medidas para garantir a eleição de aliado automático aos interesses estadunidenses.  

A segunda frente de ação apresenta um menor grau de visibilidade, já que acontece por canais indiretos a partir do financiamento de organizações associadas a formar novos movimentos políticos, em especial  liderados por jovens de extrema-direita. Tais ações foram chave para o sucesso da Operação Lava-Jato. E, agora, vazamentos recentes publicados na Folha de S.Paulo e no The Guardian mostram o direcionamento de recursos financeiros para organizações locais, com o propósito de desestabilizar aquelas instituições governamentais que tendem a ser um "empecilho" às trapaças. 

O primeiro caso refere-se à vinda da ONG do vice-presidente JD Vance, Rockbridge Network, enquanto o segundo trata do financiamento a uma instituição não identificada com o intuito de desgastar politicamente o Supremo Tribunal Federal (STF). Sem ainda termos conhecimento mais preciso, sabemos que o escândalo do Banco Master se voltou contra o STF,  afrouxando a fiscalização da Corte na lentidão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A terceira frente se dá no ambiente digital, em especial  no direcionamento de notícias falsas produzidas para perfis mapeados pelos algoritmos com o objetivo de reverter votos ou até mesmo desestimular o comparecimento no dia da eleição. Com o cancelamento injustificado de contas de influencers de esquerda, o bloqueio temporário da página de Lula, a derrubada de postagens verídicas e o uso de técnicas shadowban, que reduzem a visibilidade de uma conta ou publicação sem informar claramente seu responsável, a plataforma Meta foi denunciada pela campanha de Lula à Organização dos Estados Americanos (OE) após o primeiro turno. Além disso, jornalistas da Agência Pública indicam que a campanha de Flávio Bolsonaro se beneficiou também pelo maior impulsionamento e o oferecimento de criptomoedas àqueles que compartilhavam conteúdo a favor do candidato.

Essas três frentes de atuação revelam que a disputa eleitoral não se limita às fronteiras nacionais, mas se insere em uma dinâmica mais ampla de projeção de poder dos Estados Unidos que reaparece na América Latina sob uma nova roupagem da  Doutrina Monroe, a chamada Doutrina Donroe. É nesse cenário que o segundo turno ganha uma dimensão maior do que a disputa entre dois candidatos. Hoje, estão em jogo: a soberania brasileira, os limites da ingerência externa e o direito dos brasileiros decidirem, por si mesmos, o futuro do próprio país.

 

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Por Opinião
postado em 21/10/2026 05:00
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