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Educar e comunicar para prevenir a ludopatia

Compreender a ludopatia como fenômeno multidimensional permite superar respostas baseadas na culpabilização. Educação, comunicação, saúde e regulação precisam atuar de maneira complementar

Fernando Oliveira Paulino — professor da Universidade de Brasília (UnB) e um dos criadores do Capítulo Latino-Americano da Aliança Global de Educação Midiática e Informacional da Unesco

Nos últimos anos, a promessa de dinheiro fácil ganhou espaço nas telas de celulares e computadores. A publicidade de apostas esportivas e jogos digitais passou a integrar transmissões esportivas, mídias sociais e conteúdos de influenciadores.

Enquanto empresas apresentavam o jogo como entretenimento e oportunidade de ganhos, seus prejuízos atravessam vidas: endividamento, conflitos familiares, sofrimento psíquico e perda de autonomia. A ludopatia, ou transtorno do jogo, não pode ser reduzida à falta de caráter ou ao descontrole individual. Trata-se de um problema de saúde pública que exige prevenção, acolhimento e políticas de proteção social.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que os danos associados às apostas ultrapassam as pessoas diretamente envolvidas, comprometendo relações familiares e condições de vida. A expansão das plataformas digitais amplia esse desafio, especialmente quando recursos tecnológicos facilitam o acesso permanente aos jogos. Mesmo proibidos no Brasil, há ainda possibilidades de apostas em sites estrangeiros, tornando ainda mais necessário a compreensão dos mecanismos de funcionamento das plataformas, os estímulos à repetição e as estratégias de persuasão que transformam riscos financeiros em promessas de sucesso.

Nesse cenário, a educação midiática e informacional constitui um instrumento essencial de prevenção. Sua contribuição não se limita a ensinar usuários a identificar publicidade disfarçada ou verificar informações. Envolve compreender como interesses econômicos, algoritmos e estratégias de comunicação influenciam comportamentos e decisões.

Ao reconhecer essas dinâmicas, crianças, jovens, adultos e idosos podem desenvolver maior capacidade crítica diante de mensagens que associam apostas à realização pessoal, ao reconhecimento social e à superação de dificuldades financeiras.

A educação midiática é um direito vinculado à cidadania comunicacional. Essa perspectiva considera que a participação nos ambientes digitais depende não apenas do acesso às tecnologias, mas também da capacidade de compreender, produzir e avaliar criticamente conteúdos. Aplicada à prevenção da ludopatia, implica desenvolver ações educativas participativas, envolvendo escolas, universidades, famílias, serviços de saúde, veículos de comunicação e organizações sociais.

A Estratégia Brasileira de Educação Midiática oferece referências para essa articulação. Oficinas, jogos educativos, análise coletiva de anúncios e produção de conteúdos por estudantes podem contribuir para identificar mecanismos de manipulação e discutir os efeitos das apostas. A metodologia do aprender fazendo permite que os participantes deixem de ser apenas receptores de orientações e se tornem produtores de conhecimento, compartilhando experiências e construindo alternativas de prevenção.

Os veículos de comunicação também possuem responsabilidades. Reportagens podem investigar os mecanismos de atração das apostas, ouvir pessoas afetadas, explicar sinais de dependência e informar sobre redes de atendimento. Artigos de opinião podem questionar a naturalização do jogo como solução para dificuldades econômicas. O jornalismo precisa distinguir informação de propaganda, inclusive quando examina os próprios vínculos comerciais com empresas do setor.

Transparência, responsabilidade editorial e compromisso com o interesse público são condições para uma comunicação que contribua para a prevenção.

A atuação educativa, entretanto, não substitui a responsabilidade do Estado e das plataformas. São necessárias medidas de fiscalização da publicidade, proteção de crianças e adolescentes, transparência sobre práticas comerciais e ampliação do atendimento às pessoas afetadas.

Atribuir exclusivamente aos indivíduos a responsabilidade pelos prejuízos significa ignorar as condições econômicas, tecnológicas e comunicacionais que favorecem comportamentos prejudiciais.

Compreender a ludopatia como fenômeno multidimensional permite superar respostas baseadas na culpabilização. Educação, comunicação, saúde e regulação precisam atuar de maneira complementar. Prevenir os danos das apostas significa ampliar direitos, promover escolhas informadas e enfrentar interesses e práticas que transformam vulnerabilidades sociais em oportunidades de lucro.

 

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