Visão do Correio

Selvageria política chega à educação básica

O bullying político começa a fazer parte da realidade das instituições de educação básica brasileiras, já desafiadas por outras práticas de violência

. -  (crédito: Foto: Caio Gomez/CB/D.A. Press)
. - (crédito: Foto: Caio Gomez/CB/D.A. Press)

Concluído o segundo turno da disputa presidencial, uma página de "fofocas" criada por estudantes de uma escola particular na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, passou a atacar alunos que declararam apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O grupo postava imagens das vítimas em passeatas ou em outras manifestações políticas com comentários ofensivos e até ameaças. Segundo o colégio, o perfil foi retirado do ar, e "um trabalho sobre convivência, respeito às diferenças e responsabilidade nas relações" foi intensificado entre os alunos do fundamental 2 — geralmente, meninos e meninas com 11 a 14 anos de idade.

Logo após o primeiro turno, um estudante de 16 anos de uma escola pública no Gama, no Distrito Federal, precisou trocar de unidade de ensino depois de relatar, nas redes sociais, sofrer perseguição por parte de estudantes e professores assim que declarou apoio ao senador Flávio Bolsonaro. A Secretaria de Educação apura o caso ocorrido no centro educacional que atende alunos matriculados tanto nos anos iniciais do ensino fundamental quanto no ensino médio. 

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Ambas as denúncias também estão sob os cuidados de autoridades policiais e não são episódios isolados. Há no noticiário recente relatos semelhantes feitos por estudantes do Paraná, da Bahia, de São Paulo, Minas Gerais e Goiás, evidenciando que o bullying político começa a fazer parte da realidade das instituições de educação básica brasileiras, já desafiadas por outras práticas de violência. 

O fenômeno vem na esteira do acirramento preocupante da hostilidade política no país. O assédio eleitoral persiste após as eleições gerais ao ponto de o Ministério Público do Trabalho ter sido obrigado a criar um canal específico para esse tipo de ocorrência e recebido 4.305 denúncias nos três primeiros dias de funcionamento. Casos ainda mais extremos também desafiam profissionais da segurança pública, como o registro de 10 homicídios desde o último dia 26, sob investigação federal. Não é exagero, portanto, afirmar que os jovens estão reproduzindo em sala de aula comportamentos e discursos que vivenciam em outros ambientes.

Crianças e adolescentes, é bom lembrar, nem sempre compreendem a escola como um espaço seguro. Expressões mais consolidadas de bullying crescem nas instituições de ensino, turbinadas pelas redes sociais e outras facilidades tecnológicas, ainda que a prática tenha sido criminalizada em 2024. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram registradas 5.226 ocorrências de bullying e cyberbullying envolvendo vítimas de 0 a 17 anos em 2025, um aumento de 65% em relação ao ano anterior, quando estudo do IBGE mostrou que 40% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmavam ser vítimas desse crime dentro da escola.

Esperar que apenas quem trabalha nos espaços escolares atue para coibir o bullying é ingenuidade ou comodismo. Espera-se que os colégios promovam educação política entre os alunos, como oportunidade para que aprendam a lidar com as divergências. Mas solidariedade, empatia, ética e respeito às diferenças não é aprendizagem exclusiva dos currículos escolares — os adultos podem, inclusive, responder na Justiça caso se eximam dessa responsabilidade.

Em tempos de esforços pela cultura de paz entre os jovens — a exemplo da promulgação recente do ECA Digital —, preocupa que escolas sejam contaminadas pela selvageria política. Escapar dessa bestialidade passa obrigatoriamente por envolver as novas gerações em um projeto de país baseado na tolerância e no respeito à diversidade. E tamanha pretensão não cabe em uma programação escolar.

 

 

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Por Opinião
postado em 03/11/2026 05:00
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