SAÚDE

Brasil segue atrasado na corrida pela vacinação, apontam especialistas

Especialistas consideram normal a ausência de data para início da aplicação das doses, porque não há vacina aprovada ainda, mas reprovam lentidão do governo na procura do produto

Sarah Teófilo
Bruna Lima
Maria Eduarda Cardim
postado em 17/12/2020 06:00
 (crédito: Nathan Howard/Getty Images/AFP)
(crédito: Nathan Howard/Getty Images/AFP)

Sem vacina e sem data para imunizar a população, o Brasil continua atrasado em relação a outros países que iniciaram a vacinação contra a covid-19, como os Estados Unidos e o Reino Unido. Para especialistas, a falta de uma data é normal, já que não há nenhum imunizante com a aprovação programada, mas a situação denota o atraso na busca por um produto.

“Se não tem vacina, não há como detalhar o plano, mas isso é fruto do atraso do processo, resultado de um discurso de desconhecimento da relevância da pandemia”, disse Eliseu Waldman, professor do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), que fez parte do grupo de colaboradores consultados pelo governo para elaboração do plano de vacinação apresentado ontem.

O coordenador do Infogripe, Marcelo Gomes, considerou a nova versão do plano um avanço, já que se aproxima mais das sugestões feitas pela equipe de professores e pesquisadores envolvidos, incluindo ele próprio. “Obviamente, ainda não é um plano perfeito, ideal, mas contém uma série de avanços muito importantes e dá um passo importante para que, à medida que haja novas informações e em que acordos sejam firmados, o plano também possa avançar e estar cada vez mais próximo do que ideal para a população.”

Vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o médico sanitarista Reinaldo Guimarães também ressaltou que o problema maior não é a falta de data em si, mas a ausência de acordo com quem tem vacina para fornecer: o Instituto Butantan. “Temos um plano, mas não temos vacina. Como não tem vacina, não tem como dar data de início”, destacou. O governo já firmou contrato para compra da vacina de Oxford e AstraZeneca em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mas houve um atraso na fase 3 dos testes, e o país continua sem imunizante.

Para Guimarães, o Butantan, que vai produzir a CoronaVac, da chinesa Sinovac, deveria ter um “tapete vermelho” estendido pelo Ministério da Saúde, assim como para a Astrazeneca (produzida em parceria com a Fiocruz). Ele destacou o fato de ambas terem envolvimento de instituições nacionais, que estão absorvendo a tecnologia, e que o Butantan poderia fornecer a vacina, caso o governo firmasse acordo de compra. Apesar dos problemas, ele comemorou o plano e a inclusão da CoronaVac em documento oficial do governo.

Para o coordenador do Infogripe, um dos destaques no novo plano é a definição de grupos prioritários (veja quadro), levando em consideração as reais questões epidemiológicas, além das programações exercidas com base nas previsões de doses disponíveis. O detalhamento de todos os possíveis acordos, bem como a previsão de quantitativos para aquelas negociações mais avançadas é outro ponto positivo, incluindo o Butantan. “É fundamental estar na mesa o Butantan, que é, sem dúvida nenhuma, um instituto central em qualquer discussão de campanha vacinal no Brasil. Assim como a Fiocruz e Bio Manguinhos, o Butantan é também o grande parceiro do PNI (Plano Nacional de Imunizações). Nada melhor do que, finalmente, termos um avanço nessa direção. Isso vai nos colocar em uma situação muito mais confortável em termos de disponibilidade de doses e fluxo, para que possamos ter um quantitativo maior em um prazo mais curto”, disse Gomes.

O plano de vacinação

Veja o que prevê o Ministério da Saúde sobre a aplicação de vacinas

Grupos prioritários
» Trabalhadores da área da saúde
» População idosa (60 anos ou mais)
» Indígena em aldeias em terras demarcadas
» Pessoas com comorbidades**
» Membros das forças de segurança e salvamento
» Funcionários do sistema de privação de liberdade
» Comunidades tradicionais ribeirinhas e quilombolas**
» População em situação de rua**
» Trabalhadores da educação (professores e funcionários de escolas públicas e privadas)**
» Pessoas com deficiência permanente severa**
» Trabalhadores do transporte coletivo**
» Transportadores rodoviários de carga**
» População privada de liberdade**
*Diabetes mellitus, hipertensão arterial grave, doença pulmonar obstrutiva crônica, doença renal, doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, indivíduos transplantados de órgão sólido, anemia falciforme, câncer e obesidade grau III
**Grupos prioritários incluídos no novo plano

Doses

Encomenda tecnológica
» Fiocruz/AstraZeneca — 100,4 milhões de doses, até julho/2021, + 110 milhões de doses, entre agosto a dezembro/2021
» Covax Facility — 42,5 milhões de doses

Memorando com intenção de acordo
» Pfizer/BioNTech — 70 milhões de doses (8,5 milhões de doses, até junho/2021; 32 milhões, no 3º trimestre; e 29,5 milhões, no 4º trimestre)
» Janssen — 38 milhões de doses (3 milhões de doses, no 2º trimestre de 2021; 8 milhões, no 3º trimestre; 27 milhões, no 4º trimestre
» CoronaVac — solicitadas informações de preços, estimativa e cronograma de disponibilização
de doses.

Contraindicações
» Menores de 18 anos
» Gestantes
» Pessoas que já apresentaram reação anafilática confirmada a uma dose anterior de uma vacina covid-19
» Pessoas que apresentaram uma reação anafilática confirmada a qualquer componente da(s) vacina(s)

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