CPI da Covid

Governo Bolsonaro poderia ter evitado 120 mil mortes, diz diretora da Anistia

Se agisse de acordo com a ciência, governo federal teria diminuído a contaminação por coronavírus em 40%, aponta estudo apresentado por especialistas na CPI da Covid nesta quinta-feira (24/6)

Luiz Calcagno
postado em 24/06/2021 12:47 / atualizado em 24/06/2021 14:41
 (crédito: Jefferson Rudy/Agência Senado)
(crédito: Jefferson Rudy/Agência Senado)

A falta de testagem, a ausência de uma liderança federal e o estímulo à aglomeração e o desestímulo ao uso de máscara aumentou em 40% a contaminação do coronavírus no Brasil. É o que mostrou a apresentação da diretora-executiva da Anistia Internacional e Coordenadora do Movimento Alerta, Jurema Werneck, na Comissão Parlamentar de Inquérito da covid-19, nesta quinta-feira (24/6).

O levantamento apresentado pela professora aponta que, nas 52 semanas epidemiológicas de 2020, 305 mil pessoas morreram direta ou indiretamente por conta da pandemia. São casos da doença, mas também de pessoas com outros problemas de saúde que, por conta da covid-19, não conseguiram atendimento hospitalar a tempo.

Ao todo, 120 mil mortes poderiam ter sido evitadas no primeiro ano de pandemia, apontou, se o governo federal não optasse por uma postura negacionista diante da covid-19. Para a especialista, é preciso liderar o combate ao vírus de forma científica, enquanto há tempo, criar um memorial para os mais de 500 mil mortos e responsabilizar os gestores que atuaram a favor do coronavírus.

“A literatura e o conhecimento apontaram dois caminhos de ação para a redução da transmissão. Para qualquer doença infecciosa, qualquer surto. Com uma técnica básica de saúde pública, vigilância epidemiológica. Testagem, busca ativa. Se a gente testa, isola a pessoa, faz a primeira barreira. Se testa e recomenda o isolamento, contemos a transmissão”, explicou Jurema Werneck.

“As medidas não farmacológicas, o uso de máscara é uma alternativa importante, distanciamento físico, evitar aglomerações. Isso, os estudos mostram, teria feito a diferença. Preparação do sistema de saúde. A pandemia foi anunciada em 2019. Era preciso preparar os sistema da saúde com oferta de profissionais treinados em quantidade o suficiente, oferta de leitos de hospitais e leitos de UTI. Já víamos os efeitos da pandemia na Europa. Tínhamos uma vantagem temporal. Tínhamos que oferecer medicamentos e suporte, pois sabíamos que as pessoas seriam internadas e entubadas. E faltaram anestésicos e corticoides. Não estávamos preparados”, criticou a especialista.

Outro ponto revelado pelo levantamento de mortes no Brasil por conta da pandemia em 2020 é que o vírus matou mais entre pobres, população não branca e indígenas. Menos de 14% da população fez testes, e quem tem renda superior a quatro salários mínimos testou quatro vezes mais do que quem recebe meio salário mínimo. “Isso já mostra que não estávamos buscando medidas básicas para garantir o controle da transmissão. E já sabíamos, antes da pandemia, da desigualdade no país. Já sabíamos que as populações estariam vulneráveis”, destacou Juliana Werneck.

“A maioria das pessoas que morreram era negra, indígena e com baixa escolaridade. 66% das pessoas que morreram no Brasil estavam nas unidades públicas. E a maioria era população não branca. Quer dizer que o sistema público é ruim? Não. Quer dizer que estava terrivelmente sobrecarregado. E essa população que tem uma carga de vulnerabilidade maior, talvez não tenha conseguido atendimento a tempo. Se investíssemos no SUS, e se investirmos, podemos fazer a diferença”, destacou.

Luto

A especialista afirmou que 20.642 pessoas morreram em unidades de atendimento pré-hospitalar, o que mostra o descontrole da pandemia. “O que podemos fazer? A CPI está liderando os esforços para que medidas adequadas sejam tomadas. A criação de um memorial para as vidas perdidas. É mais de meio milhão de mortos. Precisamos viver coletivamente esses processos de luto. Não estamos tendo tempo para chorar esses mortos”, pontuou.

“Precisamos de um plano de reparação para os que deixaram de cumprir seu dever. A sociedade precisa encontrar formas de reparar o dano causado pela pandemia. É preciso criar uma frente de enfrentamento com alguém que lidere as ações que vão fazer a diferença”, acrescentou Werneck.

Todo mundo, segundo ela, “tem o dever e tem como contribuir para salvar as vidas no Brasil. Vimos nos estudos que isso pode reduzir até 40% a mortalidade. E agora temos também as vacinas. Mais vidas podem ser salvas. E é preciso garantir que o SUS refaça, angarie, tenha a dimensão adequada, abrangência adequada para o desafio atual, para cuidar dos que estão com sequelas e dos futuros desafios epidemiológicos. Outras epidemias virão”, lembrou a estudiosa.

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