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Carta à Nação: sentimento de desolação toma conta do bolsonarismo

Depois da carta à Nação em que o presidente recua nos ataques que vinha fazendo ao Supremo Tribunal, e até elogia o ministro Alexandre de Moraes, apoiadores se dividem entre a raiva e a tentativa de justificar o gesto como sendo uma estratégia

Israel Medeiros
postado em 11/09/2021 06:00
Deputada Carla Zambelli nas manifestações em São Paulo. Para a militância, ela disse que mensagem de Bolsonaro foi manobra de um
Deputada Carla Zambelli nas manifestações em São Paulo. Para a militância, ela disse que mensagem de Bolsonaro foi manobra de um"estadista" - (crédito: Clauber Cleber Caetano/PR)

A mensagem à Nação do presidente Jair Bolsonaro, em que recua nos ataques que fez, no 7 de Setembro, contra o Supremo Tribunal Federal, deixou seus apoiadores radicais desolados. Em grupos bolsonaristas e nas redes sociais de lideranças ligadas a caminhoneiros e motociclistas, predomina um sentimento de abandono e de desconfiança.

Um dos mais indignados com o recuo presidencial era o pastor Jackson Vilar, organizador de uma “motociata”, em São Paulo, em junho. Ontem, divulgou um vídeo em que chama o presidente de “calça frouxa” e anuncia rompimento com Bolsonaro.

“Em Brasília, nós temos um calça frouxa, um traidor da pátria chamado Jair Messias Bolsonaro. Nós estamos vendo pessoas sendo presas no Brasil, patriotas dando a vida. Mas agora eu te digo: eu não acredito em Bolsonaro mais. Pode me chamar de traidor, do que você quiser. Todos foram enganados por esse traidor”, bradou.

Nos grupos bolsonaristas, os apoiadores buscam explicar, por meio de textos apócrifos e vídeos caseiros, o que seria a “estratégia de Bolsonaro” com o recuo. Há quem acredite que o passo para trás tenha sido para “tomar impulso” e voltar a atacar o STF com mais força em breve.

A falta de direção se deve, principalmente, porque os filhos do presidente estão calados desde a mensagem à Nação. O vereador Carlos Bolsonaro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) continuam ativos nas redes sociais, mas não tocam no assunto.

Senso político

Já o senador Flávio (Patriota-RJ) compartilhou, em um canal de apoiadores, uma imagem em que pedia para “confiarem no capitão”, pois ele “sabe o que está fazendo”. O chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, foi outro que tentou manter a tropa unida: publicou um vídeo em que disse que o presidente tem um “formidável senso político”.

“Alguns fatos deixaram muitos de nós desanimados, isso não pode acontecer. A esquerda, apesar de sua passagem desastrosa pelo poder, segue unida e querendo voltar. Ela sofreu também um duro revés, que descobriu que o presidente Jair Bolsonaro não tinha qualquer intenção de dar o golpe. Nosso presidente possui um formidável senso político”, defendeu o general da reserva.

A deputada Carla Zambelli (PSL-SP) também saiu em defesa do presidente tentando justificar o recuo. “Algumas pessoas se desapontam com ele pelo tema e pela postura de paz que existe na nota, pelo tom de paz e harmonia entre os Poderes. Mas ele prova mais uma vez o grande estadista que ele é ao mostrar que ele nunca quis ruptura”, justificou.

O deputado bolsonarista Carlos Jordy (PSL-RJ) foi na mesma direção. “O desânimo é normal, faz parte do impacto com a notícia. Contudo, recordo de dois momentos em que muitos juravam que tudo tinha acabado: a saudação a Carlos Alberto Brilhante Ustra no impeachment de Dilma, quando ainda deputado, e na saída de Moro. Ao final, ele estava certo”, garantiu.

Para o cientista político André Rosa, Bolsonaro teve de escolher entre agradar a militância e lidar com os problemas jurídicos que poderiam ser causados por uma ação mais agressiva no dia 7. “Muitas figuras importantes entenderam que aquilo era crime de responsabilidade. A militância não vai ajudá-lo agora, só no ano que vem. Mostrar força por meio de manifestações agora não vai resolver nada”, salientou.

Agora, é a vez dos atos contrários

Agora, é a vez dos atos contrários

A Esplanada dos Ministérios terá policiamento reforçado novamente amanhã para receber manifestações pró e contra o governo. Os dois grupos se cadastraram na Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP/DF) para realizar os atos. No entanto, ganha cada vez mais força o movimento contra o presidente Jair Bolsonaro.

Pelo menos 15 capitais confirmaram a realização de protestos neste fim de semana. Os organizadores apostam em maior adesão às manifestações marcadas na Avenida Paulista, em São Paulo, e na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

Na capital, os manifestantes se encontrarão entre o Museu da República e a Avenida José Sarney, paralela à Avenida das Bandeiras. Porém, em horários distintos. A concentração pró-Bolsonaro está prevista para as 9h com dispersão às 14h. Às 15h, o Movimento Brasil Livre (MBL) iniciará um protesto antigoverno, com previsão de término às 19h. Os atos serão acompanhados pela Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF).

Por questões de segurança, conforme foi adotado no feriado de 7 de Setembro, o acesso à Praça dos Três Poderes estará restrito. No dia da manifestação, as vias N1 e S1, na Esplanada dos Ministérios, também serão interditadas para o trânsito de veículos a partir das 6h, até o último grupo de manifestantes se dispersar.

O Movimento Brasil Livre (MBL), o Vem Pra Rua e o Juventude Livre organizam o superprotesto contra o presidente. As manifestações devem reunir partidos de oposição e centrais sindicais. A intenção é pressionar pelo impeachment de Bolsonaro.

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