OPINIÃO

Análise: Leite tem semana decisiva pela frente e pode mudar cenário eleitoral

Caso Eduardo Leite permaneça no PSDB, é bom João Doria pôr suas barbas de molho. Dirigentes tucanos e aliados já estão dispostos a pedir que desista da candidatura

Luiz Carlos Azedo
postado em 27/03/2022 06:00
 (crédito: Maicon Hinrichsen / Palácio Piratini)
(crédito: Maicon Hinrichsen / Palácio Piratini)

Na semana em que se intensifica o troca-troca de partidos políticos, em razão da montagem de chapas majoritárias e proporcionais, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, deve definir o rumo que pretende tomar: primeiro, se permanece no cargo ou se desincompatibiliza; segundo, se troca o PSDB pelo PSD, ou não. São decisões difíceis e muito estratégicas, que envolvem alianças políticas locais e nacionais e o alcance de suas ambições políticas.

Dependendo do que decidir, será um fato político novo num cenário eleitoral polarizado, que está se cristalizando, entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera as pesquisas de opinião, e o presidente Jair Bolsonaro, que concorre à reeleição com a vantagem estratégica de permanecer no cargo.

Como todo cenário complexo, a melhor maneira de tratar o assunto é desagregar suas variáveis. Comecemos pelo Rio Grande do Sul. Desde sua campanha ao governo gaúcho, Leite anunciou que não disputaria a reeleição, como já havia feito na Prefeitura de Pelotas. Esse é um compromisso de campanha que corrobora a superstição de que existe uma maldição no Palácio Piratini, que impede a reeleição de qualquer governador.

Seu desempenho administrativo é considerado muito bom, mas a crise fiscal gaúcha é uma das mais graves do país, rivaliza com as do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Leite cancelou uma viagem que faria a Buenos Aires e marcou uma entrevista para amanhã, às 14h, na qual deve anunciar sua saída do governo.

A desincompatibilização pauta um problema na retaguarda de Leite: a escolha do candidato das forças que o apoiam ao governo do Rio Grande do Sul, que estava congelada. O deputado estadual Gabriel Souza (MDB) é o nome preferido de Leite, mas não unifica sua coalizão política.

A briga começa dentro do próprio MDB, no qual o atual secretário de Planejamento de Porto Alegre, Cezar Schirmer, resolveu se lançar candidato e pretende disputar a convenção do partido, neste domingo. Gabriel, porém, tem apoio do ex-governador José Ivo Sartori e conseguiu remover da disputa o deputado Alceu Moreira.

A briga dentro do MDB favoreceu uma candidatura própria do PSDB. O vice-governador Ranolfo Vieira Jr., que assumirá o cargo no lugar de Leite, pretende disputar a reeleição. Secretário de Segurança do estado, já trabalha com a expectativa de poder para ganhar a convenção tucana.

A prefeita de Pelotas, Paula Mascarenhas, que pleiteava a indicação, não conseguiu apoio suficiente na legenda. Eduardo Leite terá muitas dificuldades para demover Ranolfo e garantir apoio ao seu candidato do MDB, Gabriel Souza, ainda mais porque o MDB está dividido.

O cenário eleitoral gaúcho passa, também, pela disputa à Presidência da República. A indefinição de Leite dificulta a vida de seus aliados e facilita a dos adversários locais: Luís Carlos Heinze (PP) e Onyx Lorenzoni (PL) buscam o apoio do presidente Jair Bolsonaro, enquanto Beto Albuquerque (PSB) e Edegar Pretto (PT) querem ser o candidato do ex-presidente Lula. Caso a candidatura de Leite se confirme, porém, essa polarização pode ser quebrada, porque haverá um deslocamento natural de eleitores gaúchos para o tucano.

Ficar ou sair, eis a questão

Na sexta-feira, Eduardo Leite foi novamente assediado pelo presidente do PSD, o ex-prefeito Gilberto Kassab, para se filiar ao partido. Dessa vez, teve todas as garantias de que terá legenda e recursos para sua campanha. Resolvida a desincompatibilização, essa é a segunda decisão estratégica. Se optar pelo PSD de Kassab, cria um fato novo no cenário político, viabiliza mais sua candidatura sem depender da conspiração para remover João Doria, que o derrotou nas prévias do PSDB.

Nesse caso, sua prioridade, agora, seria atrair o União Brasil, o que lhe garantiria ainda mais capilaridade. O segundo movimento seria atrair o MDB, convencendo Simone Tebet (MS) a aceitar ser vice na chapa. Ela é a noiva dos sonhos de todos os candidatos da terceira via, mas já disse que não pretende renunciar à candidatura para ser vice de outro candidato.

Resta o cenário mais difícil e, ao mesmo tempo, mais instigante: permanecer no PSDB e aguardar em Pelotas o desfecho da conspiração tucana para remover a candidatura de João Doria. Hoje, deve ser efetivada a federação do PSDB com o Cidadania. Apesar de vitoriosa nas prévias, a candidatura de Doria precisa ser homologada pela convenção.

A cúpula da federação é majoritariamente tucana, mas a correlação de forças pode se alterar em favor de Leite, em razão da divisão do PSDB e dos representantes do Cidadania, que serão uma espécie de fiel da balança. Caso Eduardo Leite permaneça no PSDB, é bom João Doria pôr suas barbas de molho. Cidadania, MDB e União Brasil estão dispostos a pedir que Doria desista em favor de Eduardo Leite.

 


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