democracia sob ataque

"Essa conta eu não devo", diz Torres em audiência de custódia

Ao juiz de custódia, ex-ministro declara que prisão foi "tiro no peito" e que não tem "nada a ver" com os atos golpistas. Ontem, Ibaneis Rocha entregou o celular à PF

Kelly Hekally - Especial para o Correio
postado em 24/01/2023 03:55
 (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press)
(crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press)

O depoimento de Anderson Torres à Polícia Federal (PF) foi remarcado para 2 de fevereiro. A mudança na data da oitiva, inicialmente prevista para ontem, foi decidida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes para "garantir o tempo necessário à defesa para análise dos autos antes do interrogatório". Ex-secretário de Segurança do Distrito Federal, Torres continua preso no 4ª Batalhão da Polícia Militar do DF (PMDF), no Guará, onde só recebe visitas de advogados.

A defesa do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública de Jair Bolsonaro (PL) já havia sinalizado, na semana passada, a intenção de pedir mais prazo para Anderson Torres, após o investigado ficar em silêncio em seu primeiro depoimento, na semana passada.

Também ontem, os advogados do governador afastado do DF, Ibaneis Rocha (MDB), entregaram à PF o celular do cliente. Na sexta-feira passada, três endereços de Ibaneis Rocha foram alvo de mandados de busca e apreensão, requeridos pela PGR ao Supremo. Ele estava fora de Brasília no dia operação policial, que apreendeu documentos e computadores. "O governador faz questão de que o seu telefone seja periciado, pois, como já foi dito, ele não tem nada a esconder e é o maior interessado na plena apuração dos fatos", disse Cleber Lopes, um dos advogados de IBaneis. O governador reeleito do DF está afastado do Palácio do Buriti por 90 dias, para que sejam apuradas as responsabilidades do emedebista na cadeia de comando das forças de segurança pública que atuaram em 8 de janeiro, na Praça dos Três Poderes, quando as sedes do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do STF foram vandalizadas.

"Tiro de canhão"

Ontem, foram divulgadas as declarações de Anderson Torres à Polícia Federal na audiência de custódia, logo após sua prisão, em 14 de janeiro. "Isso (o mandado de prisão) foi um tiro de canhão no meu peito. No segundo dia de férias, acontece esse crime horrendo em Brasília e esse atentado contra o país e eu fui responsabilizado por isso", disse o ex-ministro ao juízo de custódia.

Torres é suspeito de omissão e conivência em relação aos atos criminosos. "Eu jamais daria condições de isso ocorrer, eu sou profissional, sou técnico e jamais faria isso. Do jeito que saí, o que deixei assinado, eu deixei tranquilo, porque nem se caísse uma bomba em Brasília teria ocorrido o que ocorreu", explicou ao juiz. Anderson Torres estava nos Estados Unidos quando eclodiu a série de invasões às sedes de Poder em Brasília.

Aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, Anderson Torres não falou nada, na audiência de custódia, sobre a minuta de decreto de intervenção do Poder Executivo na Justiça Eleitoral, considerado inconstitucional. O documento esboça a instalação de um estado de defesa para que Bolsonaro — que segue nos Estados Unidos desde o fim do ano passado — não reconhecesse o resultado das eleições e permanecesse no cargo até que a Justiça eleitoral fosse investigada por uma comissão do Poder Executivo.

"O Ministério de Justiça e Segurança Pública foi o primeiro ministério a entregar os relatórios da transição. Eu jamais questionei resultado de eleição, não tem uma manifestação minha nesse sentido, eu fui o primeiro ministro a entregar os relatórios", se defendeu Anderson Torres na audiência da semana passada. "Essa confusão entre os Poderes, essa guerra ideológica, eu não pertenço a isso, eu sou um cidadão equilibrado e essa conta eu não devo". E finalizou: "Eu sou delegado de Polícia Federal, eu sou um cara sério, eu jamais concordaria com esse tipo de coisa (golpe de Estado). Eu não estou mentindo, eu não sou maluco. Eu lutei para o equilíbrio", falou também à PF.

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