ENTREVISTA

'País não pode seguir acovardado', diz deputada Heloísa Helena

Ao assumir temporariamente o mandato de Glauber Braga, Heloísa Helena defende um programa de esquerda com impacto real na vida dos mais vulneráveis, critica a idolatria política e ataca a conciliação com o Centrão financiada por recursos públicos

Prestes a assumir temporariamente o mandato do deputado Glauber Braga (Psol-RJ), a ex-senadora Heloísa Helena (Rede-RJ) afirmou, em entrevista ao Correio, que a esquerda precisa ter coragem de apresentar um programa capaz de enfrentar o capital especulativo e transformar a vida cotidiana de milhões de brasileiros em vulnerabilidade.

Crítica da idolatria política, ela responsabilizou o ex-presidente Jair Bolsonaro pela condução "fria e inconsequente" durante a pandemia, rejeitou alianças baseadas na "promiscuidade" com o centrão e defendeu uma atuação guiada por princípios programáticos. Leia os principais trechos da entrevista:

Que expectativa a senhora tem para o desempenho da esquerda nas eleições, especialmente após derrotas recentes da direita, como a prisão de Bolsonaro?

Espero que os setores progressistas e de esquerda tenham a coragem de apresentar um programa que não deixe o país continuar acovardado diante do capital especulativo, nem continue a ceder ao entreguismo de setores estratégicos para interesses de outros países. Além do que é óbvio para qualquer ser pensante, espero que aumentemos os compromissos e investimentos nas políticas públicas que impactam diretamente na vida cotidiana de milhões de pessoas em vulnerabilidade econômica, social e ambiental, e em territórios violentos sem nenhuma dignidade humana.

Sem Bolsonaro como principal cabo eleitoral, a direita, que teve atuação agressiva em 2022, perde força ou apenas muda de estratégia?

Reconheço que eles continuam fortes, mas não identifico possibilidades, por tudo o que aconteceu, especialmente na pandemia, de que eles tenham vitória na disputa presidencial. Ficou muito marcada na vida nacional a postura fria e inconsequente do ex-presidente, como soldado covarde, deixando milhares de feridos para trás e mortos em mais de 700 mil famílias. Sobre ódio e perseguição implacável contra quem não lambe o rastro do poder, infelizmente não é um atributo repugnante apenas na direita. Existem sabotadores acanalhados em muitos outros lugares também.

Uma disputa contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seria mais fácil do que contra o governador Tarcísio de Freitas, considerado menos radical?

Estou respondendo no achismo, pois não tenho ferramentas técnicas de pesquisas qualitativas para analisar objetivamente os nomes citados. Considero que todos eles arrastam consigo pandemia, golpismo, etc., que remetem ao passado e também são fomentados pelo atual grupo governamental. Para os dois lados, a idolatria é sempre mais adequada do que um programa avançado, não apenas no papel, mas na execução, para impactar na vida real de sofrimento da maioria da população.

A senhora sempre criticou alianças pragmáticas. Como a esquerda pode atuar junto ao centrão para impedir que ele volte a pender ao bolsonarismo?

Todos os piores e mais fortes canalhas do Congresso Nacional foram alimentados pelos presidentes da República, com dinheiro público, com cargos públicos, com muita covardia política. Portanto, temos que disputar a consciência coletiva com debates e proposições que impactem a vida real da maioria do nosso povo e não ficar chafurdando na promiscuidade pela pacificação comprada com dinheiro do povo e sem autorização do povo.

A senhora retorna ao Congresso em um ambiente altamente polarizado, com uma direita organizada e eleitoralmente forte. A partir da sua experiência, como a esquerda pode avançar politicamente nesse cenário?

Retornar em situação complexa de vergonhosa perseguição política ao deputado Glauber impõe-me trabalhar com honra e coragem pelos eleitores cariocas que me fizeram primeira suplente dele. Daqui a pouco, ele volta e continuará de forma honrada no mandato. Sobre a idolatria política que existe nacionalmente, é fato constatado e colocado em altar para ser adorado por quem se beneficia disso. Não é o meu caso. Tenho a obrigação de defender com todas as forças temas que são relevantes do ponto de vista programático e ideológico com o que acredito e que move meus passos em campos minados pela realpolitik.

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