O ato de encerramento da caminhada de 255 km do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), de Paracatu (MG) a Brasília, por pouco não se tornou tragédia. Chovia torrencialmente na cidade e, por causa disso, um raio caiu onde os manifestantes se concentravam à espera dele e de outros políticos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, nas imediações da Praça do Cruzeiro. Onze pessoas estão em estado grave, vítimas da descarga elétrica, internadas no Hospital Regional da Asa Norte. Outros 47 feridos foram distribuídos entre o Hospital de Base e o HRAN. Ao todo, 89 bolsonaristas foram atendidos no local, entre os atingidos pelo raio e outros que apresentavam lesões, torções e hipotermia causada por baixa temperatura ambiente e umidade. Dos internados, o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (IgesDF) informou que 18 receberam alta, mas nove estavam em observação. Até o fechamento desta edição não houve mortes. Apesar disso, o evento foi levado até o fim pelos organizadores.
Brasília amanheceu sob alerta do Instituto Nacional de Meteorologia para fortes chuvas em todos os pontos, previsão de rajadas de vento e risco de descargas elétricas. Segundo o Inmet, poderia haver volumes entre 30 mm e 60 mm de chuva por hora, podendo chegar a 100 mm ao longo do dia, além de ventos entre 60 km/h e 100 km/h. O alerta incluía, ainda, a possibilidade de alagamentos, queda de galhos de árvores, interrupção no fornecimento de energia elétrica e incidência de raios.
Acompanhando a manifestação dos bolsonaristas, a reportagem do Correio presenciou o momento do impacto da descarga elétrica, que atingiu o solo a cerca de 20 metros de onde parte da equipe se encontrava, em meio a uma aglomeração de pessoas que tentava se proteger da tempestade. O estrondo foi seguido por um forte cheiro de pólvora, que tomou conta do ambiente.
Grade de metal
Boa parte dos feridos pelo raio estava próxima a uma grade de metal instalada para separar o público, que aguardava o começo da manifestação, dos políticos. A barreira cercava quase toda a Praça do Cruzeiro, onde Nikolas discursou.
A queda do raio desencadeou um princípio de pânico no local. O Correio presenciou pessoas desorientadas, correndo em várias direções. Diante do risco de pisoteamento por conta do desespero generalizado, manifestantes pediam calma. Na correria, os bolsonaristas deixavam para trás guarda-chuvas e capas. A reportagem testemunhou um manifestante com uma capa de chuva transparente chamuscada pela proximidade com a descarga elétrica.
Pais e mães tentavam acalmar os filhos. Não se escutou, em momento algum, orientações passadas por alto-falantes para evitar uma descontrole total da situação. Uma adolescente entrou em crise de pânico e foi amparada pelas pessoas ao redor. O Correio presenciou outros três manifestantes com sinais claros de crise emocional logo depois do incidente.
Minutos depois da correria provocada pela queda do raio é que as equipes de bombeiros improvisaram uma lona, a fim de atender as vítimas ainda sob a forte chuva. Boa parte dos feridos recebeu primeiros socorros no local. Manifestantes que estavam distantes da grade metálica relataram ao Correio terem sentido alguma espécie de mal-estar e entrado em pânico com a violência da descarga elétrica.
De acordo com mapeamento feito pelo Monitor do Debate Político, da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a ONG More in Common, aproximadamente 18 mil pessoas estavam na Praça do Cruzeiro quando o raio caiu. Depois do incidente, o Partido Liberal (PL) divulgou nota de solidariedade às vítimas da descarga atmosférica. "Nos unimos em oração, pedindo a Deus que todos os feridos se recuperem o mais breve possível. Agradecemos a todos que estavam no local, participando de um ato pacífico em prol do Brasil, assim como aos bombeiros, profissionais da saúde e equipes de emergência", diz o comunicado.
"Incidente natural"
Nikolas e os deputados André Fernandes (PL-CE) e Hélio Lopes (PL-RJ) estiveram nas unidades de saúde onde as vítimas foram encaminhadas para prestar apoio. Em entrevista ao Correio, o parlamentar mineiro afirmou que o ocorrido foi um "incidente natural" e negou qualquer irresponsabilidade por parte da organização do ato.
"Não foi por tumulto. Foi, literalmente, algo que foge do nosso controle. Não poderia deixar de vir aqui prestar nossa solidariedade", disse, acrescentando que foi bem recebido pelos feridos.
"Fui muito bem recepcionado, com carinho. Fiz questão de vir aqui vê-los pessoalmente, mesmo após 255 km andados", frisou.
O deputado aproveitou para criticar a imprensa, que, segundo ele, teria dado pouca atenção à caminhada nos últimos dias. "Não vi muitos da imprensa na caminhada por sete dias. Agora, quando acontece um incidente natural, vocês aparecem. É muito previsível o que essa parte da mídia faz porque, no fim das contas, querem tentar destruir e manchar a imagem de um movimento que foi muito bonito", criticou.
Segundo o parlamentar, houve uma tentativa de reduzir o motivo da mobilização. "Muitos querem dizer que a marcha era por apenas uma pessoa, quando, na verdade, o objetivo foi alcançado. As pessoas estão acordadas. Espero que estejam acordadas, também, para esse tipo de narrativa que serve para desgastar a nossa imagem", afirmou.
No HBDF, o Correio conversou com vítimas que aguardavam atendimento ou liberação médica. A pastora Raquel Fleiry, de 47 anos, deixou o hospital no fim da tarde ainda tremendo de frio, depois de permanecer por muito tempo com as roupas molhadas. Ela relembrou o momento em que o raio atingiu a área da manifestação.
"A chuva já estava forte e, de repente, engrossou ainda mais. Lembro que havia duas senhoras na minha frente. Eu estava com uma garrafa grande de água nas mãos e me recordo de vê-la caída no chão. Quando olhei para frente, só vi um clarão. Vi pessoas caindo e comecei a andar para trás, até que meu esposo me segurou. Depois disso, não vi mais nada", contou.
Segundo Raquel, a partir desse momento, ela percebeu apenas a movimentação do resgate. "Só sentia as pessoas me carregando de um lado para o outro, procurando um lugar para que eu ficasse, enquanto os bombeiros socorriam todo mundo", lembrou.
O marido dela, o pastor Joseilton Fleiry, 50, afirmou que o impacto da descarga elétrica foi rápido e assustador. "No momento do raio, tinha muita gente ao redor e várias pessoas caíram no chão. Não fui atingido, mas minha esposa foi. Do outro lado também havia muita gente caída", disse.
Ele disse, ainda, ter ouvido relatos de ferimentos mais graves. "Um rapaz comentou que uma pessoa sofreu queimaduras. Foi um momento muito difícil, algo que nunca tínhamos visto. Nossa filha ficou muito preocupada, porque foi ela quem nos convidou para participar da manifestação", observou.
Apesar do susto, Joseilton destacou a atuação das equipes de emergência. "Os bombeiros foram muito rápidos e presentes. A gente só tem a agradecer e parabenizar os militares pela atuação".
Raquel sofreu um ferimento no pé e, após exames e medicação, recebeu alta. "Fiz exame de eletroneuromiografia e recebi medicação. O raio não caiu em um único ponto. Ele caiu e se espalhou, atingindo quem estava próximo às grades, em uma área descampada", explicou.
As amigas e empresárias Nathalia Queiroz, 29, e Ludmilla Fernanda, 20, moradoras de Cuiabá (MT), vieram a Brasília somente para acompanhar o ato. Nathalia contou que as duas foram as primeiras a chegar ao Hospital de Base em busca de atendimento.
"Estávamos aguardando o Nikolas quando a chuva começou muito forte. A gente se abraçou, porque fomos juntas, unidas. De repente, veio um clarão muito forte, bateu no meu peito e caí para trás. A multidão caiu em cima da gente. Eu tremia muito", disse.
Depois do impacto, Nathalia percebeu que a amiga havia desmaiado. "Quando passou o choque, olhei para trás e a Lud estava desacordada. Começamos a pedir socorro. Ela chegou (ao hospital) sem consciência. Reanimaram, rasgaram a roupa dela, mas, graças a Deus, deu tudo certo", afirmou, aliviada.
Ludmilla, que recuperou a consciência somente no hospital, lembra apenas do momento do impacto. "Foi um estrondo e uma luz branca enorme. Depois disso, não lembro de mais nada, só quando estava chegando aqui. Minhas pernas estão roxas e disseram que podem ser sequelas do raio", contou, ainda trêmula e com frio.
A aposentada Iraisias Ferreira, 60, aguardava a irmã realizar exames depois de passar mal com o estrondo. "O raio caiu no chão, atrás da gente. Todo mundo se deitou na hora. Foi um susto enorme, mas não vi ninguém morrer. O pior foi o impacto e o medo", lembrou.
Enquanto a equipe do Correio colhia os relatos das vítimas, um homem passou a hostilizá-la. Chegou em um veículo para buscar um paciente já liberado, que saia com as roupas rasgadas. Ele ameaçou e intimidou os jornalistas que participavam da cobertura.
