
O dono do Banco Master, o banqueiro mineiro Daniel Vorcaro, negou, em depoimento à Polícia Federal, ter relações políticas numerosas como vem sendo divulgado. Segundo ele, se assim fosse, o negócio com o Banco de Brasília (BRB) não seria sido barrado — o Banco Central impediu o negócio em setembro passado.
"Se eu tenho tantas relações políticas como estão dizendo, e se eu tivesse pedido ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, não estaria aqui de tornozeleira e não teria sido preso", argumentou, na oitiva realizada em 30 de dezembro.
Ao ser questionado, porém, sobre quais políticos frequentavam sua casa, desconversou: "Pergunta se eu tenho alguns amigos de todos os poderes. Não consigo nominar aqui individualmente quem frequentava a minha casa. Também não vejo qual relação com o caso".
Vorcaro reconheceu que se reuniu algumas vezes com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), para tratar da compra do Master pelo BRB. Mas destacou que o contato se deu exclusivamente por razões técnicas e institucionais. "Eu tive com o governador, sim, algumas vezes, porque ele era um controlador indireto, mas não teve nenhum tipo de questão tratada, nesse caso do BRB, que não fosse técnica", afirmou.
Segundo ele, o negócio foi construído dentro dos parâmetros regulatórios e acompanhado pelo Banco Central, sem pedidos a parlamentares, secretários ou outras autoridades. "Não teve facilitação política. Nenhuma", reforçou, ao sustentar que todas as decisões seguiram critérios técnicos e regulatórios.
Relação profissional
Na oitiva, Vorcaro também afirmou que mantinha uma relação estritamente profissional com Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, construída ao longo de quase um ano de negociações anteriores ao caso da empresa Tirreno. Segundo ele, as tratativas faziam parte de uma rotina de negócios já estabelecida entre as instituições e não envolviam qualquer favorecimento. "A gente já vinha fazendo negócio há quase um ano, diversos negócios", disse, ressaltando que as operações com a Tirreno "estavam na esteira".
O depoente ainda negou alinhamento indevido ou facilitação nas decisões, afirmando que, mesmo durante as negociações, houve embates institucionais. "Eu e o presidente do BRB, o Paulo Henrique, tivemos diversas discussões à época sobre essa questão de ativo, ele defendendo a instituição dele e eu defendendo o Banco Master", frisou, ressaltando que as operações passaram pelos filtros regulares de crédito e compliance do banco comprador.
No depoimento, o empresário afirmou que, desde o início do negócio da venda do Master para o BRB, "existiam forças internas do BC e de mercado que queriam que ele estivesse fora do mercado e queriam que acontecesse o que aconteceu".
"Aliás, eu fui alertado, lá atrás, do que aconteceria, que eu seria retirado do mercado se eu não deixasse o banco. Eu me dispus a deixar. Eu me dispus a fazer todo o roteiro de sair, só que eu queria sair pela porta da frente, não gerando prejuízo para ninguém. E não foi isso que me deixaram fazer", afirmou Vorcaro, no depoimento de 68 páginas.
No interrogatório, a delegada perguntou, inclusive, sobre o destino dos R$ 16,7 bilhões transferidos pelo BRB ao Master entre julho de 2024 e outubro de 2025. Em resposta, Vorcaro afirmou que foram para "atividades normais do banco, de resgate de investidores" e negou que parte desse dinheiro tenha sido enviada para o exterior. (Leia mais sobre o BRB nas páginas 3 e 13).
O banqueiro também negou a fraude de R$ 12,2 bilhões apontada pela corporação nas investigações da Operação Compliance Zero. E culpou o Banco Central pela quebra do Master. "Realmente não existe ninguém que foi prejudicado. Realmente não existe uma fraude de R$ 12 bilhões. Existe interesse por trás que fez com que a gente estivesse aqui", afirmou.
Ele reconheceu que havia crise de liquidez no Master, mas não concordou com a questão da insolvência avaliada pelo BC. "O Banco Master sempre foi solvente, sempre teve muito mais ativo do que passivo e sempre honrou todos os compromissos até o dia 17 de novembro (de 2025)", afirmou, em referência à véspera da liquidação pelo BC.
Ao comentar a acusação de Vorcaro sobre o BC, o economista e ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman foi enfático: "Quem quebrou o banco dele foi ele mesmo", afirmou, citando as fraudes reveladas pela PF na Operação Compliance Zero.

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