cb.poder | Leila Barros | senadora (PDT-DF)

'O Senado não é tribunal. Queremos trazer solução', diz Leila Barros

Parlamentar considera fundamental o Legislativo investigar a fundo a compra do Master pelo Banco de Brasília e o envolvimento do governador Ibaneis Rocha

Para a senadora Leila Barros (PDT-DF), as investigações sobre a fraude do Banco Master estão apenas começando. Integrante da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, ela aponta que é preciso esclarecer, sobretudo, como a compra do banco de Daniel Vorcaro peo BRB — que, segundo ela, corre risco de liquidação ou federalização — e o envolvimento do governador Ibaneis Rocha (MDB) na transação. À edição de ontem do CB.Poder — uma parceria entre o Correio e a TV Brasília —, ela defendeu o afastamento de Ibaneis e disse ser "impossível" que não esteja envolvido no esquema. A seguir, os principais trechos da entrevista aos jornalistas Carlos Alexandre de Souza e Ronayre Nunes.

Qual sua avaliação sobre os primeiros movimentos do grupo de trabalho formado para investigar o caso Master?

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

Todos estão muito motivados para acompanhar a investigação e dar transparência a todo esse processo. É um dever do Senado acompanhar esse escândalo, pois afeta duramente o sistema financeiro. Além disso, vemos o BRB no centro de toda essa polêmica. Embora não seja um trabalho que nos deixe felizes, é nosso dever trazer todos os esclarecimentos à população. Sei que este é um ano eleitoral, atípico, e existe uma preocupação, pois pessoas citadas ou envolvidas nessas fraudes podem disputar pleitos em seus estados. Isso é claro para nós, mas não fomos nós que causamos o problema.

De um lado, vemos o movimento da Comissão de Assuntos Econômicos, presidida pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), no sentido de investigar. Segundo ele, trata-se da maior fraude bancária já ocorrida no Brasil, envolvendo bilhões de reais. Mas, de outro, há um movimento da chamada "bancada Master" — um suposto "acordão" para abafar a confusão devido ao ano eleitoral. Como a senhora vê isso?

Acho um escândalo. As eleições passam, mas o prejuízo bilionário permanece. Estamos falando de valores que atingem diretamente os mais vulneráveis e os servidores. Falamos de previdências e aposentadorias de pessoas que investiram a vida inteira para ter conforto no futuro. Vimos o caso da previdência do Rio de Janeiro, onde o ex-presidente foi preso após investir quase R$ 1 bilhão no Master. Com relação ao Distrito Federal, temos essa mesma preocupação, pois, até o momento, não houve esclarecimentos sobre o Iprev e a previdência dos nossos servidores. Não sabemos a extensão desse envolvimento ou se há ações do BRB vinculadas. É algo muito sério. Para além da questão eleitoral, existe a questão da consciência sobre como isso afetará os orçamentos e as previdências estaduais. Os servidores não pediram que os agentes assinassem contratos ou firmassem parcerias em seus nomes e, agora, essa sujeira pode cair no colo de quem não tem culpa nenhuma.

A senhora acredita que virá muito mais?

Não tenho dúvida. Todo dia surge uma nova notícia, um novo envolvimento ou um novo ator. Estamos no início de uma grande fraude, de uma sequência bizarra de situações que podem trazer grandes prejuízos aos envolvidos.

Qual a importância de o Senado estar envolvido, considerando que o jogo político em ano eleitoral é uma preocupação? Como a senhora avalia a participação na investigação?

Não somos juízes e não faremos da comissão um ato de perseguição política. Nosso dever é apurar. O senador Renan Calheiros deixou claro no plano de trabalho que vamos acompanhar as investigações e trazer os fatos à luz, dando transparência na medida do possível. Além disso, o Congresso precisa se debruçar sobre a legislação: o que falta para termos mais segurança e transparência em transações, fundos e questões previdenciárias? Vejo isso como uma grande missão no meu mandato. O grupo de trabalho está consciente da sensibilidade do tema, mas focado na responsabilidade de reformular o marco legal do sistema financeiro.

Os três senadores do Distrito Federal apresentaram um requerimento para convidar o governador Ibaneis Rocha. Qual a sua avaliação sobre a participação dele e o que a senhora gostaria que ele esclarecesse?

A relação entre o Master e o BRB é evidente. É impossível que um governador — que comanda as instituições, a polícia e é o acionista majoritário do banco — não tenha participado da decisão de usar R$ 2 bilhões de dinheiro público para comprar um banco privado. Ninguém acredita que não soubesse. O afastamento dele não é uma condenação, mas uma medida para garantir que a investigação ocorra de forma transparente, sem interferências. É impossível o investigado comandar a ação.

A senhora defende o afastamento dele?

Defendo, pois ele está sendo investigado. Como o investigado poderá comandar e atuar no acompanhamento da investigação sendo o acionista majoritário e chefe das instituições do DF? Para que haja transparência e nenhum tipo de "filtro", o afastamento é necessário. Não é uma questão eleitoral. Não criei o problema, estou buscando a solução e o afastamento é uma das soluções necessárias.

Sobre o BRB, a nova gestão está em contato com o BC para apresentar um plano de garantias em relação aos prejuízos causados pelo Master. Haverá um capítulo específico sobre o BRB no grupo de trabalho?

Vamos trabalhar para isso. É impossível não tratarmos o BRB com a devida responsabilidade. Hoje não temos esclarecimentos sobre nada: por que comprar o banco? Quem seria beneficiado? Por que gastar R$ 2 bilhões de dinheiro público? Não houve resposta sobre benefícios para a população, como construção de hospitais ou redução de crédito habitacional. O BRB não é um banco de investimento, é um banco de desenvolvimento que perdeu sua vocação nos últimos anos. É preocupante. Precisamos entender a questão da previdência dos servidores e a quem interessava essa compra. Falamos de um rombo que afetará o patrimônio e os cofres do BRB, que corre risco de liquidação ou federalização. A população não foi consultada sobre essas transações de risco e agora pagará o preço. Precisamos investigar, saber os nomes de quem aprovou isso e o tamanho real do prejuízo.

Sobre as graves consequências envolvendo o BRB e o Ibaneis. Existe também uma discussão sobre o impacto desse escândalo nas eleições do Distrito Federal. Rumores indicam que a candidatura do governador ao Senado estaria sendo reavaliada, enquanto outros nomes da direita, como Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, surgem como possíveis candidatas. A senhora acha que esse escândalo abre espaço para candidaturas de esquerda, fortalecendo nomes como o seu?

Independentemente da vertente política, o próximo governador e a bancada enfrentarão o desafio de gerir um orçamento afetado, o que prejudicará áreas como saúde, educação e segurança pública. Tenho lutado pela manutenção do Fundo Constitucional no Senado há sete anos. Meu maior dever, agora, é cumprir meu papel na investigação. Independentemente de quem esteja na disputa, meu foco é trabalhar pelo equilíbrio das contas do DF.

A crise do BRB e do Master pode ameaçar o Fundo Constitucional?

Um escândalo desses pode anular todo esse esforço orçamentário. O Fundo Constitucional sempre foi alvo de debate no Congresso. Se o rombo (do Master), que já passa de R$ 5 bilhões, se confirmar maior, o desafio de Brasília será enorme. O Congresso acompanha a situação e sabe das dificuldades. A punição aos envolvidos e a transparência no sistema financeiro são cruciais. A defesa do fundo é o único momento em que sinto a bancada do DF totalmente unida.

Ou seja, o escândalo pode ser uma ameaça à solidez do fundo?

Neste momento, não. Temos conversado internamente. Mas o fundo é uma preocupação diária, pois dele depende a manutenção da segurança, da saúde e da educação.

Esse problema orçamentário será um tema central, independentemente de quem venha a governar...

Com certeza. A saúde financeira da cidade será o grande palco das discussões eleitorais. A investigação deve se estender até o pleito e a população precisa saber o impacto disso na cidade, que já não vai bem.

Teremos de vender patrimônio?

Vender patrimônio ou aumentar impostos. É uma realidade que não está clara nem para os parlamentares, quanto mais para a população.

*Estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi

 


Mais Lidas