A nota de apoio da federação União Progressista ao ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, divulgada na última sexta-feira, desencadeou uma crise política interna na bancada do Senado. A senadora Tereza Cristina (PP-MS) divulgou carta na qual contesta o posicionamento institucional da própria federação. Segundo a ex-ministra, a manifestação não representa o pensamento de todos os seus integrantes. Tereza Cristina afirma que o comunicado da federação — que denuncia "narrativas que querem colocar a população contra o ministro Dias Toffoli" — não passou pelo aval dos senadores.
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Divulgada nas redes sociais, a declaração de Tereza Cristina é assinada juntamente com outros senadores do Progressistas — Hiran Gonçalves (RR), Esperidião Amin (SC), Luis Carlos Heinze (RS) e Margareth Buzetti (MT). O texto destaca que a nota da cúpula da agremiação "não pode ser interpretada como representativa dos senadores do PP".
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A publicação da senadora repercutiu entre outros parlamentares de oposição. A deputada Bia Kicis (PL-DF), comentou: "Que bom que você esclareceu". Na sequência, Marcos Pollon (PL-MS) também manifestou apoio: "Parabéns pelo posicionamento, senadora". A jurista e vereadora de São Paulo Janaina Paschoal (PP) disse que também subscreveu o comunicado da senadora e destacou que "a nota da União Progressista não reflete o sentimento de todos os filiados".
O episódio ocorre em meio à repercussão de investigações que mencionam Toffoli em conversas encontradas no celular do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no curso de apurações da Polícia Federal. Diante da exposição, o ministro reconheceu ter participação em empresa que negociou a venda de ações de um resort com um parente do banqueiro. Pressionado, o ministro decidiu deixar a relatoria do processo.
"Vergonhoso"
A nota da federação União Progressista expressando "confiança" no magistrado, assinada pelo presidente do PP, Ciro Nogueira (PI), e pelo presidente do União Brasil, Antonio Rueda, também repercutiu entre outras lideranças do Parlamento. Ao Correio, o deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), que lidera a oposição na Câmara, comentou que tem muito respeito pelo PP e pelo União Brasil porque vários parlamentares da federação fazem oposição ao governo Lula, mas ressalva que a nota foi um equívoco.
"Neste momento, o clima do Brasil é muito tenso, temos um Poder Judiciário que, por meio da Suprema Corte, vem destruindo toda a credibilidade do próprio Poder. No meu entendimento, não veio em boa hora essa nota", pontuou o líder.
O senador Izalci Lucas (PL-DF) definiu o episódio como "vergonhoso", em que a Federação União Progressista se presta ao papel de "escudo" do ministro Dias Toffoli, "ignorando as decisões monocráticas e arbitrárias que ele tem tomado no maior escândalo de corrupção financeira da história do Brasil".
Izalci destacou que o que enfraquece o país não é o questionamento público, mas sim, o ativismo judicial que atropela a Constituição e o equilíbrio entre os Poderes. "Não me calarei diante de blindagens corporativistas que tentam normalizar o que é indefensável", frisou.
As críticas também partiram da base do governo Lula na Câmara. À reportagem, o deputado Rogério Correia (PT-MG) disse que a nota em apoio a Toffoli foi "inconsistente e desnecessária".
"Primeiro, porque não pode ficar dúvida sobre a apuração de fato tão grave como foi essa falência do Banco Master. E, segundo, porque o Supremo estava ficando em uma posição desconfortável, tudo se concentrava nessa relação do Toffoli com o Vorcaro", disse o petista.
Impeachment
A nota de apoio da federação União Progressista foi divulgada um dia após o partido Novo protocolar um pedido de impeachment de Toffoli, também assinado por outros parlamentares da oposição. Na avaliação de um congressista da federação, que falou sob a condição de sigilo, a declaração do Centrão seria, na verdade, "um recado de que nada iria acontecer ao magistrado vindo do Parlamento".
O líder do Novo no Senado, Eduardo Girão (CE) — que encabeça o pedido de impeachment de Toffoli junto com Marcel van Hattem (Novo-RS) e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) —, considerou a carta de Ciro e Rueda "estranha e infeliz" e que foi "contestada imediatamente pela própria bancada deles no Senado".
Além da ação do Novo, Dias Toffoli tem mais nove pedidos de impeachment tramitando no Congresso. Quatro apresentam como justificativa o caso do Banco Master e foram apresentados neste ano. Os outros pedidos estão vinculados ao fato de o ministro ter sido alvo de sanção dos Estados Unidos ou questionam sua imparcialidade diante de julgamentos de casos que envolvem a empresa JBS, da qual sua ex-esposa era advogada.
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