A Acadêmicos de Niterói foi rebaixada do Grupo Especial do carnaval do Rio de Janeiro ao ficar na última colocação, após a apuração da notas, nesta quarta-feira (18/2), na Cidade do Samba (Zona Portuária). Em sua estreia na elite do samba carioca, a escola obteve apenas duas notas 10 e acumulou perdas significativas em outros quesitos, decorrentes, sobretudo, de problemas na dispersão, que marcaram o encerramento de sua apresentação, na primeira noite de desfiles na Marquês de Sapucaí, domingo.
- "Famílias em conserva": políticos criticam desfile de carnaval; veja
- Planalto veta ministros em desfile da Acadêmicos de Niterói
Se a Acadêmicos foi rebaixada, a grande vencedora do carnaval carioca também saiu de Niterói: a Unidos do Viradouro conquistou seu quarto título, com enredo que homenageia Mestre Ciça, um dos grandes mestres de bateria do Rio.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
O desfile da novata teve como enredo Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil, que apresentou a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde a infância no Nordeste, passando pela migração para São Paulo, o trabalho como torneiro mecânico e a liderança sindical, até a chegada à Presidência da República. A proposta artística, no entanto, transbordou a avenida e se tornou um dos episódios mais politizados do carnaval deste ano. O desfile incluiu representações de autoridades e ex-presidentes, como o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro. O ex-presidente foi retratado com alegorias de presidiário e de palhaço.
Do ponto de vista técnico, a apresentação foi comprometida no encerramento. Alegorias ficaram presas na área de dispersão, houve correria entre componentes e uma das estruturas permaneceu no local mesmo após o término do desfile. A Imperatriz Leopoldinense, escola que se apresentou em seguida, alegou prejuízo em razão do incidente.
O enredo da Niterói foi alvo de, pelo menos, 10 ações judiciais e representações no Ministério Público e no Tribunal de Contas da União, sob a alegação de que o desfile configuraria propaganda eleitoral antecipada. Houve pedidos para barrar a apresentação, suspender repasses públicos e, até, impedir a presença do presidente na Sapucaí.
O caso chegou ao plenário do Tribunal Superior Eleitoral que, por unanimidade, rejeitou pedidos de liminar para impedir o desfile, sob o argumento de que a proibição poderia caracterizar censura prévia. Os ministros, contudo, advertiram que eventuais excessos poderiam ser analisados posteriormente. Após a decisão, o PT orientou militantes e convidados a evitarem manifestações que pudessem ser interpretadas como campanha antecipada. O governo federal negou irregularidades, afirmou não ter participado da escolha do enredo e sustentou que o financiamento público às escolas segue critérios regulares. Depois do desfile, Lula elogiou a apresentação nas redes sociais, gesto que reacendeu críticas da oposição.
Exploração política
Parlamentares passaram a associar o rebaixamento da escola à homenagem ao presidente, explorando politicamente o resultado. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) escreveu que a queda da escola "mostra como Lula está afundando o Brasil". O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), comemorou o resultado, enquanto outros deputados do partido, como Capitão Alberto Neto, Bia Kicis, Gustavo Gayer e Mario Frias, publicaram vídeos, montagens e conteúdos irônicos, alguns com uso de inteligência artificial.
Um dos pontos de maior repercussão negativa foi a ala intitulada Conservadores em conserva, que retratava famílias dentro de latas, algumas com símbolos religiosos. A representação gerou forte reação de parlamentares ligados à bancada evangélica e ampliou o desgaste do governo junto a um segmento do eleitorado historicamente distante do PT. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) classificou a ala como "inadmissível" e criticou o uso de recursos públicos para, segundo ela, ridicularizar a fé evangélica. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também se manifestou, afirmando que o desfile expôs a fé cristã ao escárnio.
Embora integrantes do governo ressaltem o valor simbólico de exaltar a trajetória pessoal e política de Lula, a avaliação predominante no Planalto é que o saldo foi negativo. O entendimento é que a homenagem gerou mais desgaste do que ganhos políticos, somando o rebaixamento da escola, a judicialização do desfile e a intensificação de críticas de adversários.
Em nota divulgada após a apuração, a Acadêmicos de Niterói afirmou que sofreu perseguição durante todo o processo carnavalesco em razão do enredo escolhido e disse ter enfrentado ataques de setores conservadores. O PT, por sua vez, reiterou que o desfile constitui expressão artística e cultural, organizada de forma autônoma pela escola, e sustentou que a ausência de pedido explícito de votos afasta a caracterização de propaganda eleitoral antecipada.
Saiba Mais
