A cinco meses do veredito das urnas, a corrida eleitoral permanece em estado de suspense. Os desdobramentos do escândalo Master provocaram forte abalo na pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro, até então o adversário mais competitivo na disputa contra o incumbente Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar do apoio de aliados como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e do recuo nas críticas do ex-governador Romeu Zema, o 01 ainda se esforça para manter alguma credibilidade entre os eleitores. A reação inicial do senador, com uma negativa peremptória, seguida de diferentes versões para o repasse de milhões de reais ao filme Dark Horse, provocou um clima de desconfiança que demandará tempo para se dissipar. A reunião de hoje entre o parlamentar e a cúpula do PL, em Brasília, é uma dessas tentativas de recuperação de imagem.
Flávio Bolsonaro passou a ser o mais novo personagem a ter a reputação seriamente atingida com o escândalo Master. Ele integra o grupo de políticos, classe que mantinha relações próximas com o banqueiro e está na mira das investigações da Polícia Federal. Dias antes de Flávio, outro senador estava em apuros. Ciro Nogueira foi alvo de busca e apreensão e ficou ainda mais comprometido com indícios suspeitos como a tal "emenda Master", que ampliava o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para 1 milhão. A proposta, sustenta a PF, foi redigida pelo próprio Banco Master.
À medida que avança a investigação da Operação Compliance Zero, os efeitos eleitorais se tornam mais evidentes, bem como o nervosismo dos políticos enredados na teia de relacionamento de Daniel Vorcaro. Até aqui, os personagens mais atingidos orbitam em torno do bolsonarismo e do Centrão, o que leva os governistas a reforçarem a alcunha de "BolsoMaster" para o conjunto da obra nababesca patrocinada por Daniel Vorcaro, regada a muitas viagens, festas e outras vantagens.
Para os governistas, o caso Master ainda não causou maiores estragos. Embora os bolsonaristas lancem suspeitas sobre os vínculos de Daniel Vorcaro com o programa CredCesta, durante a gestão do ex-governador Rui Costa na Bahia, os indícios são pequenos se comparados às bilionárias transações reveladas pela Operação Compliance Zero. Indignado com as insinuações de Flávio Bolsonaro, o senador baiano Jaques Wagner fez questão de subir à tribuna para rebater os ataques. Explicou que, quando Rui Costa tornou-se governador, havia na Bahia uma "excrescência, uma rede do supermercado estatal". Segundo ele, essa empresa causava prejuízo de R$ 80 milhões por ano. "Então, nós resolvemos e privatizamos (…). Quando nós privatizamos, o Cartão Cesta, que era parte dessa rede de supermercado, foi junto com isso. Aí se encerra a participação minha ou do ex-governador nesse episódio", pontuou Wagner.
Trocando em miúdos, para as eleições presidenciais, o que temos é um escândalo que atinge diretamente as pretensões eleitorais de Flávio Bolsonaro. Não há, por enquanto, nada que indique o envolvimento do presidente Lula com as armações de Daniel Vorcaro. O que chama mais atenção, até aqui, foi o encontro ocorrido em dezembro de 2024, com a participação dos ministros Rui Costa e Alexandre Silveira, além do então diretor de política monetária Gabriel Galípolo - já definido como futuro presidente do Banco Central.
No caso do Lula, os efeitos do escândalo Master poderiam causar danos eleitorais em razão de outro poder — o Judiciário. As relações comerciais entre Daniel Vorcaro e pessoas ligadas aos ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e Dias Toffoli vinham alimentando, há meses, o movimento político para eleger uma bancada de senadores disposta a aprovar medidas como o impeachment de integrantes do STF. Flávio Bolsonaro era visto como o porta-voz de uma classe política que se diz perseguida pela "ditadura da toga" e por uma Polícia Federal formada por "jagunços".
Com a divulgação das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, o discurso de moralidade da oposição caiu por terra. Não há santos nem inocentes em uma batalha política. Mas o jogo, por ora, está desfavorável para a oposição. Sairá vitorioso das urnas aquele que conseguir escapar ileso das investigações da Polícia Federal e, se for bem-sucedida, da delação premiada do banqueiro autor do maior escândalo financeiro de que se tem notícia no Brasil.
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