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Oposição celebra Zambelli livre

Parlamentares da direita transformam decisão da Justiça italiana em ofensiva política contra STF e Alexandre de Moraes

A libertação da ex-deputada federal Carla Zambelli pela Justiça italiana desencadeou um forte apoio entre parlamentares da oposição ao governo, que passaram a tratar a decisão como uma derrota política e jurídica do Supremo Tribunal Federal (STF) e, especialmente, do ministro Alexandre de Moraes, relator da ação.

Condenada no Brasil pela invasão do sistema de informática do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em janeiro de 2023, Zambelli passou a ser retratada por aliados como vítima de perseguição política. A narrativa predominante da maioria dos parlamentares da oposição foi a de que a Justiça italiana impôs um freio aos excessos do STF contra políticos da direita brasileira.

 O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou mensagem na sua rede social comemorando a decisão e associando o episódio ao futuro político do ex-presidente Jair Bolsonaro. "Que alegria ter ver assim, Carla! Me emocionei porque, imediatamente, comecei a imaginar como será quando for o meu pai Jair Bolsonaro! Vitória consagrada a Deus", escreveu.

A postagem de Flávio, contudo, provocou forte reação negativa nas redes sociais. O senador recebeu dezenas de críticas e ataques de usuários, que resgataram temas envolvendo sua proximidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, além de comentários críticos relacionados ao filme Dark Horse (O azarão). As respostas também questionaram a comparação feita entre a situação de Zambelli e a do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O senador Eduardo Girão (Novo-CE) relacionou a decisão italiana ao caso de Eduardo Tagliaferro, ex-assessor do gabinete de Alexandre de Moraes. Em publicação nas redes sociais, afirmou que a vitória de Zambelli poderia influenciar um eventual pedido de extradição do ex-servidor. "Creio que a vitória da Deputada Zambelli na Corte italiana deve influenciar o caso Tagliaferro, que denunciou o tribunal secreto perseguidor da direita conservadora no Brasil", escreveu. Girão classificou os processos contra opositores em curso no STF como parte de "uma caçada implacável aos críticos da ditadura da toga no país".

Amiga de Damares

A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) também celebrou a decisão italiana e afirmou ter acompanhado de perto a situação familiar da ex-deputada. "Viemos celebrar a decisão da Justiça da Itália que negou a extradição e determinou a libertação da nossa querida amiga Carla Zambelli!", publicou. Damares contou que manteve contato frequente com parentes da ex-deputada para oferecer apoio. "Falei com o marido, com a mãe e com o filho dela todos os dias, para não tensionar ainda mais a situação", disse. A parlamentar também afirmou que a decisão italiana "mostra como o Brasil está errando em algumas condenações" e declarou que estava preparada para visitar Zambelli diariamente caso ela fosse transferida para um presídio em Brasília. "Eu já estava pronta para visitá-la todos os dias e cuidar dela, mas graças a Deus, a justiça prevaleceu contra essa condenação injusta", escreveu.

O senador Marcos Pontes (PL-SP) adotou tom mais institucional, mas também indicou preocupação com o cenário jurídico brasileiro. "Carla é minha amiga. Conheço sua força, sua coragem e o quanto enfrentou momentos difíceis nos últimos tempos. E, independentemente das diferenças políticas que possam existir no cenário nacional, ninguém pode negar que decisões como essa provocam reflexões profundas sobre justiça, equilíbrio e segurança jurídica", escreveu o senador.

Segundo o ex-ministro do governo Bolsonaro, "democracia não se fortalece no excesso" e o país precisa reencontrar "o caminho do diálogo, da pacificação e da confiança nas instituições".

"Derrota internacional"

 Na Câmara dos Deputados, o líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ), classificou a decisão italiana como "uma derrota internacional para Alexandre de Moraes e para o sistema que tenta impor ao Brasil uma falsa democracia baseada em censura, perseguição e medo". Segundo ele, "o mundo está vendo".

Também aliado de Zambelli, o deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), líder da oposição na Câmara, afirmou que a ex-deputada foi "presa, silenciada e perseguida pela ditadura do STF". Em publicação no X, acrescentou que a libertação da parlamentar "não representa apenas uma vitória pessoal", mas "uma vitória da liberdade, da democracia e de todos os brasileiros que se recusam a aceitar a censura e a perseguição política".

Já o deputado Mário Frias (PL-SP) optou por uma manifestação visual. O parlamentar publicou uma imagem de Zambelli sorrindo, segurando uma bandeira do Brasil, acompanhada da frase "Carla Zambelli Livre". A deputada Júlia Zanatta (PL-SC), por sua vez, afirmou que a decisão da Corte italiana "deu um recado ao Brasil". Ex-colega de bancada de Zambelli, ela disse ter acompanhado "de perto tudo o que aconteceu nos últimos anos" e avaliou que a negativa da extradição "lança luz internacional sobre graves violações de liberdade política, de garantias fundamentais e do tratamento dispensado a parlamentares e cidadãos de oposição no Brasil".

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto (SP), replicou a nota em que a sigla afirma que a justiça italiana trata o caso com respeito "ao direito de defesa e às garantias fundamentais que sustentam as democracias". Parlamentares da esquerda não comentaram o caso, mas intensificaram a publicação de posts destacando o crescimento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas últimas pesquisas de intenção de votos.

 

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