Entrevista

Tereza Cristina sobre tarifaço: "Brasil precisa sentar à mesa"

Senadora vê espaço para negociação com Washington e afirma que país deve agir para evitar novas tarifas norte-americanas

Tereza Cristina diz que temas como etanol, Pix e minerais críticos podem integrar as negociações com os EUA -  (crédito:  Saulo Cruz/Agência Senado)
Tereza Cristina diz que temas como etanol, Pix e minerais críticos podem integrar as negociações com os EUA - (crédito: Saulo Cruz/Agência Senado)

A escalada das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos e a possibilidade de novas tarifas sobre produtos brasileiros colocaram a relação bilateral no centro das preocupações de exportadores e formuladores de políticas públicas. A conclusão da investigação da Seção 301 pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) ampliou as incertezas e acendeu o alerta em setores estratégicos da economia nacional.

Em entrevista ao Correio, a senadora e ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS) defende que o Brasil chegue às negociações com uma proposta própria e uma estratégia clara para evitar novas taxações. Ela avalia que ainda não é o momento para uma missão parlamentar a Washington, comenta os riscos para o agronegócio e a indústria e aponta temas, como Pix, etanol e minerais críticos como possíveis pontos de negociação.

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As discussões ganham destaque no seminário A Nova Geoeconomia Mundial, promovido pelo Instituto Diálogos, fundado pela parlamentar. O evento reunirá especialistas brasileiros e ex-integrantes da diplomacia norte-americana para debater as transformações do comércio global e os caminhos para fortalecer a posição brasileira diante das novas disputas econômicas internacionais.

Entre os participantes estão o ex-embaixador dos EUA na China e na Otan, Nicholas Burns, o ex-conselheiro da Casa Branca para a América Latina Ricardo Zuniga, além dos especialistas em comércio internacional Marcos Troyjo e Marcos Jank. Confira a entrevista:

Haverá uma nova missão parlamentar oficial a Washington, como a que ocorreu no ano passado?

Isso depende do governo federal e dos setores afetados avaliarem a necessidade. Se houver demanda, a Comissão de Relações Exteriores (CRE) estará pronta para atuar. Já conversei com o presidente da comissão, senador Nelsinho Trad (PSD-MS), e estamos preparados. Mas não considero que este seja o momento para uma missão parlamentar. Agora, o mais importante é que o Brasil esteja organizado para sentar à mesa de negociação. Se necessário, a diplomacia parlamentar poderá voltar a ser acionada.

Foi aberto um canal de comunicação entre o Legislativo brasileiro e o norte-americano. Esse diálogo permanece?

A diplomacia parlamentar continuou, ela não parou só naquela nossa ida. Já vieram ao Brasil alguns congressistas. Outra semana atrás, nós recebemos uma comitiva de 12 assessores do Senado que vieram ao Brasil entender e conversar sobre o tema. Eles estiveram no meu gabinete também conversando, fazendo muitas perguntas. Então, essa diplomacia, esse canal da diplomacia parlamentar, está aberto. Então, se houver a necessidade, nós iremos, sim, mas, na minha opinião, não é o momento ainda. Temos que esperar as negociações.

Sobre este momento de negociação entre Brasil e Estados Unidos, especialmente com a possibilidade de um novo "tarifaço", como o seminário do seu instituto pode ajudar nessas negociações?

O seminário acontece justamente em um momento em que o Brasil precisa entender melhor o que está acontecendo e o que ainda pode acontecer nessa nova geoeconomia, especialmente em relação aos Estados Unidos. Acho que foi muito positivo termos conseguido reunir esses convidados, os americanos Nicholas Burns e Ricardo Zuniga, além dos especialistas brasileiros, para debater um tema tão atual e compreender melhor esse cenário. Estamos discutindo esse tarifaço, que começou há cerca de um ano, quando os Estados Unidos recorreram à Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). Na ocasião, o presidente Donald Trump promoveu o "Liberation Day" (Dia da Libertação) e impôs tarifas a diversos países, não apenas ao Brasil. O Brasil, porém, foi pego de surpresa porque acreditava que estaria sujeito apenas à tarifa de 10%, mas depois vieram outras sobretaxas que elevaram esse percentual para até 50%. O mais interessante desse seminário é que teremos a visão de dois americanos que são diplomatas e trabalharam no Departamento de Estado dos Estados Unidos. Eles conhecem a política externa americana e acompanham de perto esses acontecimentos. Acredito que teremos acesso a muitas informações e a um debate isento. Muitas vezes, acabamos misturando essas discussões com disputas eleitorais ou partidárias. Aqui, teremos uma conversa franca. Esperamos que esse debate ajude a identificar com mais clareza onde devemos concentrar nossos esforços. De qualquer forma, estamos colocando o tema em discussão e espero que possamos encontrar alguns caminhos a partir desse diálogo.

Quais setores serão mais impactados pelas possíveis novas tarifas da investigação da Seção 301?

Esse assunto das tarifas não envolve apenas o Brasil. Há mais de 50 países afetados pela investigação da Seção 301, mas o que preocupa o Brasil e outros cinco países é a amplitude dessa apuração. Estão sendo discutidos temas como Pix e desmatamento. Isso mostra o quanto a investigação é abrangente e abre espaço para que o Brasil seja questionado e, eventualmente, tarifado em diversas frentes. Essa é a nossa maior preocupação no momento. Alguns itens do primeiro tarifaço permaneceram na lista de exceções, que é extensa. O agro não teve nenhum produto retirado dessa lista. Por outro lado, diversos produtos importantes da indústria e do agronegócio ficaram de fora das exceções, como pescados e alguns segmentos da madeira. Isso é preocupante. Em 6 de julho, representantes desses setores voltarão aos Estados Unidos para apresentar suas defesas. A questão do trabalho forçado também preocupa muito, porque pode atingir diferentes segmentos, inclusive o agro, e precisamos ir lá contestar essas alegações.

Na sua avaliação, os Estados Unidos estão utilizando a ameaça de novas tarifas como instrumento de pressão diplomática em relação ao Pix?

Eu não sou especialista, mas acho que, com o Pix, muitas pessoas passaram a ter contas em bancos, e isso ampliou muito esse universo. Imagino também que muita gente tenha passado a ter acesso a cartões de crédito de várias bandeiras americanas. Mas acho que esse é, sim, um ponto. Os americanos costumam chamar isso de "ponto irritante". Então, pode ser que o Pix tenha se tornado, talvez sem ter sido inicialmente, um ponto de irritação nas negociações. O etanol, por exemplo, há muitos anos é um tema sensível para os americanos, porque o Brasil é um país relativamente fechado às importações.

O que o Brasil precisa fazer para evitar a taxação?

O que o Brasil pode pôr à mesa para fazer uma negociação com os Estados Unidos? O interesse do governo dos EUA são as tão famosas terras raras e os minerais críticos. Há muitos pontos que podem ser colocados em discussão. O governo foi lá, o presidente Trump conversou com o presidente Lula, em encontros rápidos e depois em uma reunião mais longa. Mas nunca ouvimos falar de uma proposta dos dois lados, de uma discussão ampla entre as partes, como já fizeram a Europa, o Japão e outros países. O Brasil ainda não fez isso. Os americanos também têm o etanol como um tema que sempre esteve na mesa de negociação. Acho que, a partir deste momento, precisamos apresentar uma proposta mais ampla aos Estados Unidos. E quem deve conduzir esse trabalho é o Executivo, o governo.

Sobre o etanol, a senhora acredita que a situação pode piorar devido à volatilidade dos preços dos combustíveis?

O que a gente está vendo é que estamos subsidiando a gasolina e, quando você dá esse subsídio, o etanol acaba ficando mais caro na composição dos combustíveis. A gente precisava ter uma participação maior do etanol nessa mistura para movimentar o mercado interno e reduzir a necessidade de importar gasolina. Se fizermos isso, talvez tenhamos até uma brecha para ampliar as negociações com os Estados Unidos e construir uma proposta de mais longo prazo. Tem muita coisa que ainda precisa ser decidida, mas tenho certeza de que o setor sabe disso e deve estar discutindo o tema junto ao governo federal, pensando em uma proposta a ser apresentada, quem sabe até uma carta na manga. Não sei como andam as tratativas com o Executivo, mas espero que exista uma estratégia para que a gente apresente uma proposta nossa, e não apenas receba uma proposta deles e faça o que os EUA querem.

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postado em 08/06/2026 04:00
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