eleições 2026

A volta turbinada do CPX

Flávio insistirá na lembrança de Lula na Maré como suposta tolerância com facções. Gleisi aponta inação do governo Bolsonaro

Se Luiz Inácio Lula da Silva e o governo pretendem colar em Flávio Bolsonaro a pecha de quinta coluna por ter comemorado o enquadramento pela Casa Branca do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, a campanha do pré-candidato do PL ao Palácio do Planalto prepara uma resposta igualmente contundente. Pretende reeditar e turbinar a campanha do "CPX", que em 2023 tentou associar a imagem do presidente e seus ministros aos traficantes do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.

Quando ainda era postulante à Presidência, em 2022, em 12 de outubro o então candidato do PT foi ao conjunto de favelas que margeiam a Baía da Guanabara. À época, tinha conquistado uma passagem ao segundo turno com percentuais que surpreenderam a campanha de Jair Bolsonaro: 48,43% (57.259.504 votos) para o petista contra 43,20% (51.072.345) do então presidente. Ao falar à população da Maré, Lula ganhou de presente um boné de René Silva, fundador do jornal Voz das Comunidades, e de outras lideranças locais. Acima da aba do chapeu das cores preta e vermelha estavam as iniciais CPX.

A sigla, porém, é uma abreviação amplamente usada pelos moradores, pela imprensa e até pela Polícia Militar do Rio de Janeiro para simplificar a palavra "complexo" — ou seja, o grupo de favelas que, devido à expansão territorial de cada uma, praticamente juntaram as fronteiras que as dividiam. Bolsonaro e seus apoiadores, porém, tentaram associar a sigla à facção Comando Vermelho (CV).

Apesar de desmentido por agências de checagem e pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ainda assim os bolsonaristas insistiram na versão. E passaram a apregoar nas redes que essa suposta conexão entre o crime organizado e Lula foi o que permitiu que fizesse campanha na Maré. Isso porque é sabido que existe uma regra tácita no Rio de Janeiro de que nenhum candidato a cargo eletivo pede votos em regiões controladas por facções sem que haja a autorização do chefe local do crime. Lula e seus apoiadores assumiram a sigla CPX como bandeira política em provocação aos bolsonaristas.

Mas isso não impediu que integrantes do governo tivessem embates cara a cara por causa do Complexo da Maré. Como o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino. Em 2023, na sabatina a que se submeteu no Senado para chegar à cadeira do Supremo Tribunal Federal que hoje ocupa, ele confrontou o próprio Flávio por tê-lo associado ao crime organizado. Dino fizera uma visita ao grupo de favelas para o lançamento de dados sobre violência. E, segundo o ministro, lá estivera sob escolta.

Flávio também criticou Dino porque seus assessores no ministério receberem Luciane Barbosa Farias, conhecida como "dama do tráfico", em agendas no Ministério. Ela é mulher de Clemilson dos Santos Farias, o "Tio Patinhas", apontado pelas investigações policiais como um dos principais chefes do Comando Vermelho no Amazonas.

Dino respondeu a Flávio que Luciane estava em um grupo de militantes dos direitos dos presos quando esteve no ministério. E provocou Flávio ao acusá-lo de conhecer as milícias "de perto" — uma referência ao fato de que quando era deputado estadual, o filho 01 de Bolsonaro empregou duas parentes do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega: a mãe, Raimunda Veras Magalhães (de maio de 2016 a novembro de 2018), e a mulher, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega (de setembro de 2007 a novembro de 2018).

Palanque em Curitiba

Na sexta-feira, horas depois de Lula acusá-lo, num evento em Sergipe, de trair a pátria por apoiar a inclusão do PCC e do CV na lista de organizações terroristas pelo governo norte-americano, Flávio respondeu no mesmo tom ao apontar que presidente e governo são tolerantes com as facções. "Lula vai ao Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e entra no local sem polícia, sem escolta, onde vários policiais militares já morreram. Eu só posso pensar duas coisas — vou falar aqui, baixinho, que é para ninguém ouvir. Das duas, uma: ou ele faz parte dessas organizações narcoterroristas, ou ele está sendo ameaçado por elas", acusou, no lançamento da pré-candidatura do senador Sergio Moro (PL) ao governo do Paraná.

Para arrematar, Flávio disse que "em dois dias na campanha como pré-candidato, nós já fizemos mais do que Lula em 20 anos. Enquanto Lula foi fazer lobby para defender CV e PCC, nós fomos lá pedir que eles fossem tratados como terroristas, como eles são".

Quem rebateu as acusações de Flávio foi Gleisi Hoffman, ex-ministra de Relações Institucionais. Questionada no evento que a lançou como pré-candidata ao Senado pelo PT paranaense e Requião Filho (PDT) ao governo do estado, disse que "quem está atuando para favorecer o crime organizado é ele, Flávio Bolsonaro, e os Bolsonaro. Porque, se quisessem mesmo transformar o PCC e o CV em organizações terroristas, teriam feito isso no governo do pai dele. Ficaram quatro anos no governo e nunca articularam com os americanos para fazer isso".

Gleisi lembrou as recentes operações contra o crime organizado e afirmou que o enfrentamento às facções deve ser feito pelas instituições brasileiras. "Temos de defender a nossa soberania nacional, ser firmes no combate ao crime. O que ele fez é um crime contra o Brasil para tentar ganhar uma eleição", observou.

 

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