A troca de farpas entre os candidatos Gabriel Azevedo (MDB) e Alexandre Kalil (PDT) deu o tom do primeiro debate entre os candidatos ao governo de Minas Gerais, realizado pela Band neste domingo (16/8).
O confronto entre os dois chegou ao ponto de, no bloco final, antes das considerações finais, os microfones de ambos serem cortados. Kalil, que também foi alvo de ataques de outros adversários ao longo do encontro, concentrou as respostas em críticas aos governos estadual.
Já o líder nas pesquisas, Cleitinho Azevedo (Republicanos) adotou postura mais contida, sem direcionar ataques aos concorrentes, mas antecipou que não ficará neutro na disputa presidencial: declarou apoio a Flávio Bolsonaro (PL), embora o partido tenha candidato próprio ao governo de Minas, Flávio Roscoe (PL).
O debate foi marcado principalmente por discussões sobre a dívida de Minas Gerais, segurança pública, educação, rodovias e investimentos. A situação fiscal do estado abriu espaço para um dos principais confrontos da noite. Questionado sobre as prioridades nos primeiros 100 dias de uma eventual gestão, Kalil criticou o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) e afirmou que as condições estabelecidas pelo acordo tornam Minas “ingovernável”.
Ele citou as parcelas previstas no acordo e disse que a prioridade de uma eventual administração será renegociar a dívida diretamente em Brasília. “É por isso que nós não estamos pendurados em presidente da República”, declarou.
Na sequência, o governador e candidato à reeleição, Mateus Simões (PSD), defendeu a atual gestão e afirmou que Minas já pagou R$ 13 bilhões da dívida desde que ele e o ex-governador Romeu Zema (Novo) assumiram o comando do estado. Para Simões, o débito, que no passado era considerado impagável, hoje está dentro da capacidade financeira de Minas, embora continue pressionando as contas públicas.
Ao tratar da dívida, Simões também criticou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e cobrou investimentos federais. “Os R$ 600 milhões por mês que nós estamos entregando para o governo federal não estão voltando em obras das BRs que estão em péssimo estado, não estão se transformando em novos trilhos de trem”, afirmou.
Em meio a discussão sobre a dívida do Estado, Cleitinho direcionou críticas a Zema. Para o candidato do Republicanos, o ex-governador deveria ter priorizado a negociação da dívida enquanto ainda comandava Minas, em vez de se dedicar à campanha presidencial. “Na eleição dele, em vez de ele se preocupar com essa situação da dívida do estado, ele foi fazer campanha presidencial”, disparou.
A dívida também foi o contexto em que Cleitinho anunciou que apoiará Flávio Bolsonaro na eleição presidencial. “Eu não estou neutro não”, afirmou. O senador disse que fará campanha para o candidato do PL, mas ressaltou que, se eleito governador, dialogará com qualquer presidente. “Se não for o Flávio Bolsonaro, se for o Lula, que eu não sou aliado do Lula, eu vou sentar com ele”, declarou.
Cleitinho afirmou que a demora para definir sua própria candidatura prejudicou a formação do palanque conservador que poderia reunir Flávio Bolsonaro e Flávio Roscoe. A indefinição dele marcou a corrida eleitoral: após faltar à convenção partidária, o senador anunciou que disputaria o governo, depois comunicou desistência em razão da morte do irmão, Matheus Azevedo, e voltou atrás menos de 24 horas depois.
O pedido chegou a ser rejeitado pela direção do Republicanos, mas o partido reabriu as negociações e confirmou a candidatura. Diante da indefinição, o PL decidiu lançar candidatura própria e escolheu Roscoe para disputar o governo.
Segurança pública
Enquanto a dívida dominou um dos eixos do debate, segurança pública produziu outro confronto entre Kalil e Simões. O governador escolheu o feminicídio para questionar o pedetista sobre uma declaração dada em 2022, segundo a qual violência doméstica e feminicídio seriam questões complexas e não problemas do governo estadual.
Kalil respondeu com a expressão “Uai, Mateus, você está em Nárnia?” e direcionou a crítica à atual política de segurança. Segundo ele, Minas tem déficit de sete mil policiais e a polícia do estado é “a mais mal paga do país”. O candidato também citou medidas adotadas durante sua gestão na Prefeitura de Belo Horizonte para atendimento a mulheres vítimas de violência e acusou Simões de ter desrespeitado as polícias Militar e Civil.
Na réplica, Simões cobrou que Kalil assumisse a declaração de 2022 e rejeitou a tentativa de atribuir o problema do feminicídio à polícia. O governador destacou o comando feminino das forças de segurança, a ampliação de delegacias especializadas e das visitas a vítimas de violência doméstica.
Kalil rebateu afirmando que o governo estadual fechou delegacias da mulher e defendeu a recomposição e valorização dos efetivos policiais. “Esse negócio de colocar comandante mulher, é porque mulher foi o virou tema. Mulher e segurança pública agora dá voto”, disparou.
O embate mais direto da noite, contudo, envolveu Gabriel Azevedo e Kalil. O candidato do MDB questionou o pedetista sobre políticas para trabalhadores de aplicativos e afirmou que, durante a gestão de Kalil em Belo Horizonte, houve tentativa de restringir a atividade dos profissionais. Kalil negou e afirmou que sua administração promoveu uma negociação entre taxistas e motoristas de aplicativos para resolver conflitos entre as categorias.
Na réplica, Gabriel afirmou que a capacidade de diálogo é indispensável para quem pretende governar Minas. “Todo mundo sabe que você não consegue se controlar e quem não consegue se controlar vai ter muita dificuldade de governar um estado, você tem que conversar com as instituições, com o Judiciário, com todo mundo, cara, inclusive com quem pensa diferente de você”, afirmou.
Gabriel também reagiu a uma expressão usada por Kalil para se referir à sua forma de argumentação e pediu respeito aos professores. O pedetista usou o termo "professoral" para qualificar a maneira que Gabriel fala sobre qualquer assunto. “Você não precisa desmerecer alguém por ser professor”, disse. Kalil negou que tivesse intenção de desrespeitar Gabriel ou professores e afirmou que a expressão se referia ao modo de falar do adversário.
O confronto entre os dois prosseguiu até o bloco final, quando a troca de farpas chegou a interromper os microfones antes das considerações finais. O encontro da Band foi o primeiro debate televisivo entre os candidatos ao governo de Minas nas eleições de 2026. A realização havia sido prevista inicialmente para a semana anterior, mas foi adiada em razão da falta de definições sobre as candidaturas no estado.
