CASO MASTER

Vorcaro recebeu informações sobre operação antes de ser preso, mostra PF

Mensagens apreendidas no celular de ex-banqueiro indicam acesso a nomes de agentes, reuniões e articulação de viagem ao exterior

Vazamento, amigos no BC e voo na véspera: a tentativa frustrada de fuga de Vorcaro antes da PF bater à porta -  (crédito:  Ed Alves/CB/DA Press)
Vazamento, amigos no BC e voo na véspera: a tentativa frustrada de fuga de Vorcaro antes da PF bater à porta - (crédito: Ed Alves/CB/DA Press)

A Polícia Federal (PF) identificou uma série de indícios de que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro teve acesso antecipado a informações sigilosas sobre a Operação Compliance Zero, que investigava o Banco Master. Os elementos foram reunidos a partir de mensagens, anotações e registros encontrados no celular de Vorcaro e passaram a integrar documentos cujo sigilo foi retirado na noite desta quinta-feira (10/9).

A retirada do sigilo ocorreu após decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro André Mendonça liberou o acesso a parte das investigações relacionadas ao Banco Master que tramitam na Corte, horas depois de o presidente do STF, Edson Fachin, determinar a abertura de documentos ligados ao "caso Master".

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Segundo os investigadores, o conteúdo apreendido indica que Vorcaro passou a receber informações reservadas sobre a investigação à medida que a ação policial se aproximava. Para a PF, esse conjunto de registros também ajuda a sustentar a hipótese de que o ex-banqueiro tentou deixar o Brasil antes do cumprimento dos mandados.

A investigação aponta que a viagem para o exterior ocorreu na noite anterior à operação e não teria sido casual.

"Sendo improvável que sua viagem ao exterior, na noite imediatamente anterior à data do cumprimento dos mandados, seja mera coincidência."

Informações de dentro do Banco Central

Os registros analisados pela PF indicam que o acesso de Vorcaro a informações sobre a apuração já vinha ocorrendo semanas antes da operação. Em 17 de outubro de 2025, integrantes da Polícia Federal e do Banco Central participaram de uma reunião restrita para discutir as investigações sigilosas envolvendo o Banco Master.

Quatro dias depois, em 21 de outubro, Vorcaro anotou no celular os nomes completos de delegados e agentes da PF e de procuradores da República que participavam do caso. Em 30 de outubro, fez outra anotação, desta vez sobre pessoas do Banco Central com quem mantinha relações.

O registro recebeu o título "De pessoas de dentro do Bacen que são meus amigos e ficaram preocupados". Na anotação, Vorcaro dizia considerar totalmente confiáveis as informações que havia recebido, porque teriam partido de pessoas diretamente envolvidas nas discussões. Também registrava a preocupação de não expor essas fontes.

Segundo a PF, os indícios de que Vorcaro buscava informações protegidas alcançaram também o andamento judicial da investigação. Em 16 de novembro, dois dias antes da operação, ele salvou uma anotação perguntando se um interlocutor tinha proximidade com o juiz federal Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Federal Criminal de Brasília. O magistrado era responsável pelas medidas cautelares sigilosas relacionadas ao caso.

A movimentação aumentou na manhã de 17 de novembro, véspera da operação. Às 7h28, Vorcaro recebeu mensagens urgentes do advogado Walfrido Warde. A partir daquele momento, segundo os investigadores, o ex-banqueiro modificou seus planos e passou a organizar uma viagem internacional.

Tentativa de justificar a viagem

Enquanto articulava a saída do país, Vorcaro também manteve contato com o jornalista Diego Escosteguy, apontado pela PF como beneficiário de repasses financeiros relacionados ao esquema investigado. Pouco depois das 11h, o site O Bastidor publicou uma reportagem informando sobre a existência de um inquérito contra o Banco Master na 10ª Vara Federal do Distrito Federal. 

Em nota enviada ao Correio, Diego Escosteguy, fundador e diretor-geral do portal O Bastidor, afirmou que a relação com Vorcaro sempre foi "estritamente profissional, no âmbito da atividade jornalística", caracterizando-se como uma relação de fonte. Segundo ele, a reportagem citada pela PF foi produzida "com base em informações obtidas junto a fontes, documentos e apuração própria, seguindo critérios editoriais", sem antecipar ou insinuar qualquer operação ou medida cautelar.

Ele reafirma ainda o compromisso do O Bastidor com o "jornalismo profissional e transparente", pautado pela ética, responsabilidade e rigor na apuração dos fatos, e destaca que o veículo foi o primeiro a investigar e publicar, ainda em 2023, reportagens com evidências sobre suspeitas de fraudes no Banco Master.

Vorcaro enviou a publicação a Warde. Com base na reportagem, o advogado apresentou uma petição urgente para tentar obter acesso aos autos, que permaneciam sob sigilo. Nas mensagens trocadas naquele dia, Warde afirmou a Vorcaro que estava pressionando o magistrado responsável pelo caso por meio do WhatsApp.

Ao mesmo tempo, o ex-banqueiro procurou criar uma justificativa formal para viajar naquela noite. De acordo com a investigação, ele acionou, por meio do WhatsApp, os servidores do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, apontados pela PF como integrantes cooptados pelo grupo. A partir desse contato, teria sido organizada uma reunião virtual de emergência com o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino.

A videoconferência ocorreu no início da tarde e não teve gravação nem registro em ata. Durante a conversa, Vorcaro informou sobre uma suposta venda do Banco Master ao Grupo Fictor e afirmou que precisaria viajar naquela mesma noite para Dubai para assinar contratos relacionados ao negócio.

Mais tarde, a defesa utilizou uma declaração assinada por Paulo Sérgio em um habeas corpus. O documento foi apresentado para sustentar que a viagem aos Emirados Árabes tinha motivação empresarial e não constituía uma tentativa de fuga.

A PF, porém, chegou a uma conclusão diferente. Para os investigadores, a reunião teria sido organizada de forma emergencial justamente para criar uma justificativa formal para a saída de Vorcaro do país.

Prisão no aeroporto

Outros documentos tornados públicos pela Polícia Federal indicam ainda que Vorcaro consultou o ministro Alexandre de Moraes, do STF, sobre a possibilidade de deixar o Brasil dois dias antes de sua prisão.

A viagem acabou não acontecendo. Na noite de 17 de novembro, agentes da PF prenderam o ex-banqueiro no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, quando ele se preparava para embarcar em um jato particular.

No dia seguinte, 18 de novembro, a Polícia Federal cumpriu os demais mandados da Operação Compliance Zero.

Leia a íntegra da nota de Diego Escosteguy

"Nota de esclarecimento 

A exemplo do que já fizeram em março, o portal O Bastidor e o jornalista Diego Escosteguy, fundador e diretor-geral do veículo, esclarecem mais uma vez que, ao contrário do que indica representação da PF, a relação com o empresário citado nos autos sempre foi estritamente profissional, no âmbito da atividade jornalística, caracterizando-se como relação de fonte — prática legítima, comum e indispensável ao exercício da imprensa.

A matéria mencionada pela Polícia Federal (como todas as reportagens publicadas sobre o caso) foi produzida com base em informações obtidas junto a fontes, documentos e apuração própria, seguindo critérios editoriais. Uma simples leitura da referida matéria demonstra que não se antecipou ou insinuou qualquer operação ou medida cautelar contra quem quer que seja. Não houve direcionamento de conteúdo por parte de terceiros, tampouco qualquer comprometimento da autonomia jornalística.

São os mesmos padrões editoriais e o mesmo profissionalismo que guiam a carreira de Diego Escosteguy há 24 anos. É lamentável que a prática cotidiana de jornalismo crítico e alicerçado em evidências seja alvo de ilações e informações descontextualizadas e adjetivadas por agentes da lei. 

É igualmente irresponsável e leviano associar relações comerciais comuns a qualquer veículo de comunicação, em datas pretéritas, e não contemporâneas. As afirmações contidas em relatório da PF insultam e lógica e desafiam o bom senso. 

Uma simples consulta ao site do Bastidor pode verificar a publicação sistemática de notícias críticas e profissionais sobre a crise do Master e seus diferentes aspectos.

Os valores mencionados referem-se a contratos de patrocínio e publicidade, prática regular no mercado de comunicação. Assim como qualquer veículo de imprensa, O Bastidor mantém parcerias comerciais que não interferem na linha editorial nem no conteúdo das reportagens.

O Bastidor reafirma o compromisso com o jornalismo profissional e transparente, sempre pautando a atuação pela ética, responsabilidade e rigor na apuração dos fatos, tendo sido o primeiro veículo a investigar e publicar reportagens, com evidências, sobre as suspeitas de fraudes no Banco Master (ainda em 2023)."

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postado em 11/09/2026 11:21 / atualizado em 11/09/2026 14:28
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