política externa

Governo vê projeto como entrada para interferência dos EUA em países latinos

Avaliação interna entre auxiliares do petista é que a ausência do Brasil no Escudo das Américas não deve gerar impactos imediatos no pleito previsto para 4 de outubro

 US President Donald Trump addresses the 81st United Nations General Assembly at the United Nations Headquarters in New York, on September 22, 2026. (Photo by TIMOTHY A. CLARY / AFP)
       -  (crédito: TIMOTHY A. CLARY / AFP)
US President Donald Trump addresses the 81st United Nations General Assembly at the United Nations Headquarters in New York, on September 22, 2026. (Photo by TIMOTHY A. CLARY / AFP) - (crédito: TIMOTHY A. CLARY / AFP)

O governo do presidente e candidato à reeleição pelo PT, Luiz Inácio Lula da Silva, justificou o fato de o Brasil não integrar a lista de países latino-americanos que aderiram ao Escudo das Américas, grupo comandado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e que reuniu na terça-feira (22/9), na Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU), 13 países da América Latina com o objetivo de combater facções ligadas ao crime organizado.

O Brasil, além de não ter sido convidado a integrar a entidade que reúne países como Arg Correio Braziliense entina, Paraguai e Chile, argumentou que sua ausência se deveu ao entendimento de que o grupo criado por Trump pode servir de porta de entrada para interferência norte-americana em setores ligados à economia, à infraestrutura e à gestão de riquezas nacionais dos países latinos — como minerais críticos e terras raras —, sobretudo em caso de ampliação do escopo do Escudo das Américas, na avaliação de interlocutores do Planalto.

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Pessoas próximas a Lula classificam as ações de combate ao crime organizado e a defesa de uma segurança continental por meio do Escudo das Américas como ideias vagas, que mascarariam o entendimento de que contratos entre países latinos e a China — rival econômica dos EUA —, por exemplo, poderiam ser tratados como ameaça à segurança do continente pelo governo Trump.

A ideia de que o Escudo das Américas seria caminho para o avanço dos Estados Unidos sobre a soberania de países latinos, no entendimento do Planalto, se baseia na Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, documento publicado pelo governo Trump no ano passado. Nele, são estabelecidas como funções dos EUA a predominância norte-americana no Hemisfério Ocidental, além da garantia de acesso a minerais críticos e terras raras nas Américas, para proteger a base industrial do país e conter a influência da China em contratos com nações latino-americanas.

Eficácia da medida é questionada

Para especialistas em segurança pública, o impacto do Escudo das Américas sobre o combate ao crime organizado é limitado — e a ausência do Brasil no grupo não representaria uma perda estratégica no enfrentamento a facções como PCC e Comando Vermelho (CV).

Diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, Cecília Olliveira avaliou que o acordo funciona, na prática, como um reconhecimento formal, por parte de outros países, da classificação de facções criminosas como organizações terroristas — mas não ataca o principal desafio enfrentado pelo Brasil atualmente.

"O que precisamos é ampliar investigações integradas, com Polícia Federal, polícias estaduais, Receita, Ministério Público e órgãos de controle trabalhando juntos para atingir as estruturas econômicas e políticas que sustentam essas organizações", afirma. Segundo ela, operações como a Carbono Oculto demonstram que seguir o dinheiro — alcançando empresas, fundos, fintechs e patrimônios ligados a essas redes — é uma estratégia mais efetiva do que alterar o rótulo jurídico dado às facções.

Eleições

Embora o Planalto avalie haver participação do governo Trump contra eventual reeleição de Lula, a avaliação interna entre auxiliares do petista é que a ausência do Brasil no Escudo das Américas não deve gerar impactos imediatos no pleito previsto para 4 de outubro — a expectativa é de que Washington aguarde o desfecho das urnas na primeira etapa da votação para, só então, avaliar os resultados e recalibrar eventuais movimentações ou estratégias para o segundo turno.

Em meio à divergência com a Casa Branca sobre como deve ser o trabalho conjunto no combate ao crime organizado, o governo brasileiro prevê a manutenção da cooperação contra esses grupos com países vizinhos que aderiram ao Escudo das Américas. O entendimento do Planalto é que as parcerias conjuntas atenderiam interesses dos dois lados e podem continuar mesmo sem a participação brasileira na coalização do grupo liderado pelos Estados Unidos.

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postado em 24/09/2026 01:16 / atualizado em 24/09/2026 16:40
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