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Casas adaptadas à terceira idade reduzem limitações e oferecem independência

Preparar o lar para as necessidades que surgem com a idade é essencial para mantê-lo confortável e seguro. Veja dicas de como garantir acessibilidade e autonomia sem perder a beleza

Como já cantava Arnaldo Antunes, "a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer". Pois bem, progressivamente, a sociedade tem se tornado mais idosa e, com os anos de vivências, intensificam-se também as urgências para que esse período seja o mais agradável possível, sem estresses e com autonomia. Tal demanda inclui, por exemplo, a própria casa, que deve se adaptar à realidade do morador, tanto na estrutura quanto na escolha dos móveis e itens de decoração.

A norma que regulamenta e dispõe sobre espaços acessíveis é a NBR 9050. Mas, para a arquiteta Luana Lucchini, sócia-fundadora do QUADRA 01 Arquitetura, o grande ponto nesta adaptação é levar a diretriz como base, não como regra. Daí, o papel do arquiteto em ressaltar as melhores práticas, trabalhando em conjunto com a família e com o geriatra responsável pelo idoso, pois devem ser analisadas limitações físicas e mentais.

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Em residências, a começar pelo acabamento, o ideal é optar por pisos pouco escorregadios, como os acetinados, que não recebem camadas de esmalte brilhante e diminuem o cansaço da visão; em contrapartida, deve-se evitar os pisos polidos. Conforme explica a arquiteta Patrícia Azevedo, o chão precisa ser o mais nivelado possível, tanto entre ambientes quanto em soleiras, para evitar tropeços. Nada de degraus!

E por falar neles, o que fazer em casas que têm escadas? No caso de degraus entre níveis de ambientes, vale investir em rampas; já em casas com pavimentos, cabe optar por cadeiras motoras ou elevadores domésticos verticais. "Diferentemente do que pensam, instalar um elevador não exige grande quebradeira na estrutura. Trata-se de uma intervenção simples, com sistema de macaco hidráulico em um vão disponível na área", esclarece a arquiteta.

Reprodução/Pinterest - Portas amplas são essenciais para facilitar a mobilidade.

Se não for viável, o correto é que a escada tenha um corrimão firme, de preferência em dois níveis, e com a largura entre as bordas de no mínimo 1,20m, além de pisos com fitas antiderrapantes. Sobre as rampas, vale o adendo de Luana: a inclinação máxima deve ser 8,33%; longe disso, podem tornar-se um problema para o lar.

No que tange às portas, é necessário manter o vão da passagem com 80cm livre, para facilitar, por exemplo, o acesso com cadeiras de rodas — o que é vantajoso também para pessoas com mobilidade reduzida. Diferenciar as cores da parede e da porta pode ajudar no reconhecimento do local, em casos de iluminação reduzida ou da própria limitação visual. Além disso, maçanetas de alavanca são preferíveis às boleadas, visto que facilitam o manuseio.

Banheiros e áreas molhadas

Esses cômodos são os que mais exigem atenção e preocupação, por terem maiores riscos de acidentes. Aqui, é válido lembrar que idosos e pessoas portadoras de deficiência desejam manter sua privacidade, por isso a importância da adequação. Assim, alguns cuidados indispensáveis incluem pisos antiderrapantes e barras de apoio ao lado da bacia sanitária e na área do box, que também deve contar com um banco fixo. Recomenda-se, ainda, o uso de chuveiros com ducha auxiliar e a instalação de um botão ou campainha de emergência, para situações urgentes.

Evite boxes e acessórios (prateleiras, papeleiras e cabideiros) de vidro; prefira, no primeiro caso, vidro temperado e laminado e, no segundo, itens que não tenham quinas e, se possível, nichos embutidos. Já as torneiras podem ser de alavancas, prezando pela fácil pega. O ideal é que a porta abra para fora, novamente, pensando em contextos de emergência. Ademais, em se tratando de pessoas com mais idade que são cadeirantes, a demanda para um espaço amplo se multiplica. A bancada da pia, por exemplo, deve ter o topo a 80cm do chão e a parte inferior à cuba precisa estar liberada para encaixe da cadeira.

Reprodução/Pinterest - Nos banheiros, as barras de apoio e o fácil acesso a itens importantes são indispensáveis

Mobiliário ao alcance

Na cozinha, a orientação é deixar os armários e os eletrodomésticos, como micro-ondas, em alturas mais acessíveis, em torno de 1,20m. Itens necessários e condimentos também devem ficar à disposição. "Móveis fixos e mais robustos podem servir como apoio para o idoso, ao se sentar, levantar ou mesmo se locomover, logo, é importante que não derrapem ou se movam. Nada de rodinhas", frisa Luana.

Camas, sofás, cadeiras e poltronas devem ter estofado mais rígido, assim como têm de estar em alturas adequadas, cerca de 45cm.  No guarda-roupa, o indispensável precisa estar ao alcance dos braços e abaixo da altura da cabeça. Além disso, vale evitar mobiliários com quinas ou mais baixos, que podem ser perigosos em tropeços ou acidentes. Pontos de tomadas têm de estar em fácil acesso — a aproximadamente 1,10m do piso.

Julia Ribeiro/Divulgação - Neste projeto do escritório Oliva Arquitetura, cama e mesa de cabeceira estão na mesma altura, para facilitar o equilíbrio

Quanto à ornamentação, fuja de tapetes escorregadios e que formam uma "orelha" quando dobrados; além de investir em almofadas que auxiliem na postura da coluna. Lembre, por fim, que é de suma importância manter a decoração e os itens pessoais desejados, para que a familiaridade com aquele espaço seja assegurada, sempre considerando uma forma segura de expô-los.

Cores e iluminação

Texturas como grafiatos, que deixam as paredes ásperas ou até com pequenas pontas, podem machucar em caso de colisões; opte por pinturas acetinadas de fácil limpeza. Com relação às cores, cabe investir em tons calmantes e serenos para os locais de descanso, enquanto aqueles mais vibrantes podem ser aplicados em lugares que precisam estimular emoções e interações, mas com cautela, visto que podem causar irritabilidade.

No que concerne à iluminação, luminárias e abajures com sensores são uma boa pedida, principalmente para facilitar a movimentação durante a noite. Luzes amareladas são ideais para áreas de descanso, como quartos e salas, ao passo que luzes brancas podem ser colocadas em pontos de atividades, como cozinhas, banheiros e área de serviços.

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*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

 

Julia Ribeiro/Divulgação - Neste projeto do escritório Oliva Arquitetura, cama e mesa de cabeceira estão na mesma altura, para facilitar o equilíbrio
Gabriel Cabral/Divulgação - Salas de estar precisam contar com mobiliário seguro e na altura adequada
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