Pouco conhecida pela população, a síndrome de Fournier é uma infecção rara, mas extremamente grave, que atinge a região genital e o períneo. Apesar de ser mais comum em homens, a doença também pode afetar mulheres e costuma ser diagnosticada tardiamente, o que aumenta o risco de complicações. A rapidez na evolução do quadro faz com que a informação e o acesso precoce ao atendimento médico sejam fatores decisivos para o desfecho do tratamento.
A infecção bacteriana atinge os tecidos profundos da região íntima, causando a destruição acelerada dessas estruturas. Segundo o urologista Rodrigo Braz, a gravidade está justamente na velocidade com que a doença avança. “A infecção evolui muito rápido e pode se tornar sistêmica, levando a quadros graves como a sepse, se não houver intervenção imediata”, alerta.
Embora seja mais associada aos homens, a doença também acomete mulheres, muitas vezes com diagnóstico tardio. A ginecologista Rithielli Vargas explica que isso acontece por uma combinação de fatores. “Por ser considerada mais comum no sexo masculino, há um baixo índice de suspeição nas mulheres. Além disso, a infecção começa em tecidos profundos, o que faz com que, no início, a pele apresente poucas alterações visíveis”, destaca.
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A infecção surge quando bactérias encontram uma porta de entrada na região íntima. De acordo com Rithielli, essas portas podem ser diversas. “Abscessos, infecções do trato urinário e até pequenas lesões cutâneas, como fissuras, arranhões ou lacerações no pós-parto, podem favorecer a entrada das bactérias”, explica. Rodrigo Braz reforça que condições clínicas também aumentam o risco: “Diabetes, baixa imunidade, problemas urinários e o uso prolongado de sonda são fatores importantes para o desenvolvimento da síndrome”.
Por se tratar de uma doença agressiva, o tratamento costuma ser complexo e exige internação hospitalar. “Além do uso de antibióticos potentes, muitas vezes é necessário realizar cirurgias para remover o tecido comprometido”, afirma o urologista. Por outro lado, Rithielli destaca que o impacto pode ir além do físico. “Em casos mais graves, podem surgir sequelas na região íntima, alterações funcionais e impactos emocionais importantes, o que torna fundamental o acompanhamento multidisciplinar após o tratamento”, conclui.
Sintomas
Feminino
Iniciais (locais):
- Dor intensa e súbita na área genital ou perineal (vulva, períneo, virilha)
- Vermelhidão, inchaço e sensibilidade na pele afetada
- Sensação de calor local
- Pode começar com uma pequena lesão ou furúnculo
Sistêmicos (gerais):
- Febre e calafrios
- Mal-estar geral e queda do estado de saúde
- Náuseas e vômitos
- Batimentos cardíacos acelerados (taquicardia)
- Pressão arterial baixa (hipotensão)
Masculino
Locais (genitais e perineais):
- Dor: súbita e muito forte na área genital/perineal
- Vermelhidão e inchaço (edema): a pele fica inchada e avermelhada
- Sensibilidade aumentada: a região fica extremamente sensível ao toque
- Alterações na Pele: pode ficar com um tom marrom, azul-acinzentado ou preto, indicando necrose (morte do tecido)
- Pele endurecida: Pode haver endurecimento da pele sobre a área afetada
- Mau cheiro (odor fétido): um odor forte e desagradável exala da região
- Pus ou bolhas: saída de pus ou formação de bolhas com secreção
Sistêmicos (corpo todo):
- Febre e calafrios: sinais comuns de infecção grave
- Mal-estar geral e fraqueza: queda do estado geral de saúde
- Náuseas e vômitos
- Taquicardia e pressão baixa: em casos mais avançados, o coração acelera e a pressão cai
Sinais de agravamento (para homens e mulheres)
- A pele muda de cor: de roxo-avermelhada para cinza-azulada e preta, indicando tecido morto (necrosado)
- Mau cheiro (odor fétido) vindo da região
- Saída de pus ou secreção escura
- Extensão da infecção para coxas ou abdômen
Fatores de risco
A síndrome é mais prevalente em pacientes com comorbidades, sendo o diabetes mellitus o principal fator de risco, seguido por obesidade, alcoolismo, doenças imunossupressoras (como HIV/aids ou quimioterapia), traumas locais e infecções perianais ou urinárias.
Alta mortalidade
A taxa de mortalidade em estudos brasileiros varia, podendo ser substancial, com relatos de até 21,4% em alguns levantamentos, principalmente quando o tratamento é tardio ou despadronizado. O diagnóstico precoce e a intervenção imediata são cruciais para a sobrevivência.
Sequelas
desfiguração genital, disfunção sexual, problemas psicológicos (ansiedade, depressão), infecções recorrentes e, em casos extremos, mortalidade por sepse, falência de órgãos (rins, pulmões), extensões da gangrena para tronco, e necessidade de cirurgias reconstrutivas complexas, como colostomia temporária.
Predominância
Atinge predominantemente homens, geralmente a partir da terceira década de vida, embora possa ocorrer em mulheres e, raramente, em crianças
Tratamento
- Uso de antibióticos para combater a infecção bacteriana
- Cirurgia: remoção do tecido comprometido e necrosado
- Internação hospitalar: acompanhamento médico intensivo para controlar a infecção e prevenir complicações
- Remoção de tecido morto e infectado para promover a cicatrização
- Alimentação adequada para fortalecer o sistema imunológico
- Acompanhamento multidisciplinar
- Reconstrução cirúrgica: em alguns casos, pode ser necessária a reconstrução da área afetada após a recuperação da infecção
Palavra do especialista
Quais complicações sistêmicas podem surgir se a síndrome não for tratada a tempo?
Sem tratamento adequado e precoce, a síndrome de Fournier pode evoluir para sepse grave, falência de múltiplos órgãos, como rins, pulmões e coração, e distúrbios da coagulação, aumentando significativamente o risco de morte. A sepse representa uma resposta inflamatória descontrolada do organismo à infecção, capaz de causar danos a todo o corpo mesmo à distância do foco inicial, tornando a evolução clínica rapidamente fatal.
Por que a doença se espalha de forma tão rápida pelos tecidos?
A rápida progressão ocorre porque as bactérias envolvidas produzem enzimas que degradam estruturas de sustentação dos tecidos, facilitando a disseminação ao longo das fáscias, que são planos anatômicos com pouca resistência à infecção. Além disso, a inflamação intensa compromete a circulação sanguínea local, causando isquemia, que é a redução do fluxo de sangue e oxigênio, o que dificulta a ação do sistema imunológico e dos antibióticos, permitindo que a infecção avance rapidamente.
Após a recuperação, o paciente fica mais vulnerável a novas infecções graves?
O paciente não se torna automaticamente mais suscetível a novas infecções graves apenas por ter tido a síndrome de Fournier, mas a presença dos fatores de risco de base, como diabetes ou imunossupressão, pode manter essa vulnerabilidade. Além disso, áreas cicatriciais extensas e procedimentos reconstrutivos podem exigir cuidados prolongados, reforçando a importância do controle rigoroso das doenças associadas (como o diabetes mellitus, por exemplo), acompanhamento médico e medidas preventivas para reduzir o risco de novas infecções.
Henrique Valle é infectologista do Hospital Brasília
