
Mais do que um incômodo passageiro, a candidíase de repetição revela que o problema não está apenas no micro-organismo, mas também no ambiente vaginal. Para muitas mulheres, o alívio após o tratamento de uma coceira intensa é apenas o início de um episódio que pode ser mais desagradável. Muito além do desconforto sentido no corpo, a condição se torna um labirinto emocional que afeta a vida sexual, a autoestima e a rotina de quem convive com o fungo candida.
O que deveria ser uma exceção, porém, tem se tornado uma rotina exaustiva para milhares de mulheres: o ciclo interminável de coceira, desconforto e tratamentos que parecem não surtir nenhum efeito. Quando a infecção pelo fungo candida ultrapassa quatro episódios em 12 meses, o diagnóstico de candidíase de repetição aparece. E, por vezes, de maneira severa. De acordo com Evandro Oliveira da Silva, coordenador da linha de cuidados da mulher da Rede Kora Saúde, em Brasília, a reincidência ocorre porque os gatilhos que favorecem o crescimento do fungo permanecem no organismo mesmo após o tratamento inicial.
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"A candida já faz parte do ambiente vaginal. Em algumas pacientes, esse ambiente fica mais favorável pela combinação de fatores como pouca hidratação, uso de roupas íntimas apertadas, uso desnecessário de antibióticos e alterações hormonais", explica o especialista. Segundo o profissional, o tratamento eficaz vai além dos sintomas imediatos: "A melhor forma de tratar é orientar a paciente a ter mudanças de hábitos que evitem a recidiva. Podemos usar cremes, óvulos e comprimidos e, em casos recorrentes, prolongar o tempo de uso da medicação", destaca.
Normalmente, na avaliação do ginecologista, o quadro surge depois que um episódio inicial foi tratado, mas não totalmente combatido. Assim, os fatores que contribuíram para que o fungo crescesse permanecem, fazendo com que a reincidência seja frequente e incômoda, prejudicando a qualidade de vida de inúmeras mulheres.
Desconforto e constrangimento
Nesses casos, o desequilíbrio é a palavra-chave para entender por que o fungo insiste em voltar. O ginecologista Felipe Irineu, da Clínica Renoir, esclarece que o problema raramente é a "quantidade" de fungo, mas sim o estado do ecossistema local. "Ele volta porque há um desequilíbrio do ambiente vaginal, que pode ser causado por pH alterado, imunidade baixa ou uma flora desregulada", afirma.
De acordo com o profissional, há ainda um obstáculo invisível que muitas vezes impede a cura: o biofilme. "Quando tudo parece equilibrado e a candidíase continua, pode ser por causa do biofilme, uma camada protetora que o próprio fungo cria. Nessas situações, não adianta dar o antifúngico sozinho; é necessário 'quebrar' essa proteção", detalha o especialista.
Segundo Irineu, embora qualquer mulher possa desenvolver o quadro, o grupo mais afetado compreende mulheres em idade reprodutiva, entre 20 e 45 anos, além de gestantes e usuárias de anticoncepcionais hormonais. Alguns fatores como estresse crônico, diabetes e disbiose intestinal também colocam o corpo em estado de alerta. Para combater a resistência do fungo, a medicina tem avançado em protocolos mais robustos.
"Geralmente o tratamento é prolongado, com uma fase de ataque seguida de manutenção, ajustada conforme a espécie da candida. Hoje, a tecnologia mais avançada para esses casos inclui até o uso de radiofrequência", revela o ginecologista Felipe Irineu. Apesar de não ser considerada uma infecção grave que coloque a vida da mulher em risco, os danos provocados pela candidíase de repetição são profundos no campo funcional e psicológico.
A dor crônica vulvar e o desconforto na relação sexual (dispareunia) geram um ciclo de ansiedade e sofrimento, um peso invisível para quem precisa lidar com essa condição. Para os especialistas, o maior prejuízo não é apenas físico, mas o estresse e o constrangimento que o quadro impõe.
Em mulheres com a imunidade severamente comprometida, a candidíase de repetição exige atenção redobrada, sobretudo para evitar que o fungo acometa outras partes do corpo, reforçando a importância de um diagnóstico que olhe para a paciente de forma integral — e não apenas para o sintoma da vez.

Revista do Correio
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