Símbolo da Amazônia e cada vez mais presente no cotidiano dos brasileiros, o açaí entrou, oficialmente, para o patrimônio do país em 2026. Publicada em 8 de janeiro no Diário Oficial da União, a Lei nº 15.330 reconhece o fruto como fruta nacional, reforça a soberania brasileira sobre seus usos e busca fechar brechas para a biopirataria internacional. A medida tem impacto direto não apenas na proteção da Amazônia e das comunidades tradicionais, mas também no avanço de novas frentes produtivas, como as plantações em formação no Cerrado.
O reconhecimento estabelece um marco jurídico importante ao afirmar que o açaí é parte do patrimônio nacional, especialmente por sua origem amazônica e pela cadeia de usos já consolidada no Brasil, que vai da alimentação à indústria de cosméticos, do artesanato à geração de energia. Na prática, a lei atua como instrumento para coibir tentativas de apropriação indevida do fruto no exterior e impedir que episódios do passado se repitam.
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em 2003, quando uma empresa japonesa chegou a patentear o açaí. O registro só foi cancelado em 2007, após atuação do governo brasileiro. O episódio acendeu o alerta para os riscos enfrentados por produtos de alto valor cultural e econômico que ganham projeção internacional. A lei de 2026 surge, portanto, como resposta direta a essa vulnerabilidade.
Típico da região amazônica, o açaí é fruto do açaizeiro e integra o cotidiano de comunidades que vivem da extração e do cultivo na floresta. Além do simbolismo cultural, o fruto sustenta cadeias produtivas locais e concentra usos tradicionais que atravessam gerações. A polpa é amplamente consumida como alimento; as sementes são aproveitadas no artesanato e como fonte de energia; o caule fornece palmito; e as raízes têm uso tradicional como vermífugo. Essa diversidade de aplicações ajuda a explicar o crescente interesse internacional pelo fruto.
Açaí do Cerrado
Ao mesmo tempo em que a lei fortalece a proteção da Amazônia, o açaí avança para além de sua região de origem. Longe das florestas de várzea, das áreas alagadas e do solo naturalmente fértil da Região Norte, o açaí vem ganhando força em um cenário pouco provável: o Cerrado. No Distrito Federal, em meio ao solo ácido, profundo e seco, a fruta típica da Amazônia encontrou espaço para crescer na Fercal. É ali que Aida Kanako Ashiuchi Cardoso, 70 anos, cultiva mais de quatro hectares de uma planta essencialmente nortista.
Segundo a fruticultora, o que começou como uma curiosidade familiar se transformou, com o tempo, em um trabalho sério, exigente e recompensador. "Durante três anos, morei no Pará e foi lá que conheci o açaí de verdade. Quando voltei, já casada e com filhos, não encontrava nada parecido, apenas sorvete. Para relembrar o sabor puro e apresentar aos meus filhos, decidi começar a plantar, entender como funcionava e produzir a minha própria polpa", conta.
Desde então, dona Aida e dois funcionários companheiros se dedicam, diariamente, à adaptação das mudas ao solo seco e pobre em nutrientes do Cerrado. "Pegar uma planta típica de uma área úmida e quente e trazer para uma região onde é muito seco não é fácil. No começo, foi bem trabalhoso", lembra. A intenção inicial não era comercial, e ela sequer acreditava que conseguiria colher. Com os cuidados certos, o cultivo frutificou. Hoje, já são 13 anos realizando o processo completo.
Agrônoma de formação, Kanako cuida dos pomares candangos de forma técnica e também intuitiva. Segundo ela, quando iniciou o plantio, não existiam bibliografias específicas sobre o cultivo do açaí adaptado ao solo do Cerrado, o que exige até hoje cuidados intensos. Durante o período de seca, por exemplo, as plantações precisam ser irrigadas ao menos duas vezes por dia. Além disso, a adubação química anual é indispensável, com aplicação de nitrogênio, fósforo e potássio.
Desde o início, ela colocou em prática os conhecimentos acadêmicos para conduzir o plantio com paciência e método, adaptando equipamentos de colheita e testando diferentes sistemas de irrigação até chegar à microaspersão, mais eficiente para o cultivo. Outro diferencial foi a produção das próprias mudas, já aclimatadas às condições do Cerrado. "Eu produzia todas. São mudas acostumadas. Não é uma muda que sai do Pará e é colocada no meio do Cerrado, com essa falta de umidade e esse calor", explica.
O que começou em 2007 deu frutos. Hoje, dona Aida não pretende expandir a produção, principalmente por uma limitação hídrica. "Expandir ou evoluir a produção nos próximos anos? Não. Eu não posso expandir porque não tenho água. A água é um ponto fundamental", afirma.
Atualmente, por meio do Instagram (@acaidaqui_df), Aida comercializa a polpa de açaí congelada, em embalagens de até 500 gramas, para facilitar o consumo. O alto volume de trabalho na plantação, porém, limita a expansão das vendas. Por isso, quando retoma a comercialização, a divulgação acontece exclusivamente pelas redes sociais.
Investimento e pesquisa
Dados da Emater-DF indicam que, em 2024, o açaí ocupava uma área total de 38 hectares no DF, cultivados por 47 produtores. Desses, apenas três estavam em fase de comercialização, em uma área de 2,605 hectares, com produção estimada em 30,510 toneladas e Valor Bruto da Produção (VBP) de R$ 118.989.
A diferença entre o número de produtores em cultivo e aqueles que já comercializam se explica pela expansão recente da cultura. O açaizeiro inicia a produção comercial, em geral, a partir do sexto ano, e grande parte das áreas do DF ainda está em fase de formação. O crescimento foi impulsionado pelo Programa Rota das Frutas do DF e RIDE, que ampliou o número de agricultores interessados no plantio.
Na pesquisa científica, o desafio é adaptar uma cultura amazônica a um bioma completamente diferente. Segundo Wanderlei Lima, pesquisador da Embrapa e coordenador da pesquisa de açaí no Cerrado, o tema é tratado como estratégico. "A Embrapa Cerrados considera o tema extremamente atual e estratégico. O açaí é uma cultura amazônica, mas já se encontra aqui no DF por meio da Rota da Fruticultura. A pesquisa está caminhando junto com o desenvolvimento, porque o açaí passa a ser uma realidade aqui, mas ainda não temos os coeficientes técnicos cabíveis para uma produção sustentável", afirma.
De acordo com o pesquisador, dois grandes experimentos estão em andamento. Um deles avalia o uso eficiente da água, principal gargalo da cultura no Cerrado. "Estamos testando cinco níveis de irrigação para chegar à quantidade ideal para as condições do Cerrado, nem muita água nem pouca água", explica. O outro experimento envolve genótipos melhorados trazidos do Pará, da cultivar BRS Pai d'Égua, desenvolvida pela Embrapa Amazônia Oriental. "No futuro próximo, queremos ter uma cultivar adaptada ao Cerrado, nas nossas condições", diz.
Para Wanderlei, o avanço da cultura vai além da produção agrícola. "O açaí deixou de ser um produto de consumo amazônico para virar um produto de consumo brasileiro e, agora, internacional. Ele é um alimento funcional, rico em carboidratos, proteínas, óleos e compostos como antocianinas e polifenóis. Trazer esse material para cá representa uma alternativa importante para a diversificação da produção agrícola e para a segurança alimentar."
Rota das Frutas
A articulação entre pesquisa, produtores e mercado passa pela Rota das Frutas RIDE-DF, criada em 2021 com participação da Codevasf, da Embrapa Cerrados e do Governo do Distrito Federal. Coordenador do programa, Luiz Curado explica que a iniciativa planeja e executa ações voltadas à criação de um polo frutícola na região. "É a Rota das Frutas RIDE-DF que traça as diretrizes para a implantação do mais novo polo frutícola do Brasil, de frutas vermelhas. Nossa missão é profissionalizar o produtor rural, trazer uma nova mentalidade na produção e produzir frutos de qualidade que sejam referência no Brasil e atendam ao mercado externo", afirma.
No caso do açaí, a Rota atua em parceria com a Embrapa na introdução da cultivar adaptada a terras firmes. "Reunimos os interessados no plantio, detalhamos os procedimentos, cadastramos, selecionamos e entregamos as mudas para cada produtor. O consumo de açaí é crescente no Brasil, e Brasília não fica atrás. Toda a produção será absorvida inicialmente pelo mercado local", diz Curado.
No campo, produtores acompanham de perto esse processo de adaptação. Na associação de produtores rurais do Núcleo Rural Boa Esperança, Abrão Clementino de Sá, 60 anos, plantou açaí pela primeira vez há três anos. "Nós tivemos visita do pessoal da Embrapa e da Rota da Fruticultura. Eles nos orientaram como seria o plantio, forneceram as mudas e cada agricultor poderia plantar até um hectare. Preparei o terreno e hoje o plantio está completando três anos", detalha.
Segundo ele, o cultivo ainda está em formação, mas a expectativa é positiva. "A expectativa é que este ano comecem a produzir os primeiros cachos nas plantas mais desenvolvidas. Estamos aguardando começar a frutificar", afirma. Entre os desafios, Abrão destaca o aprendizado contínuo. "Como é uma planta que ainda está em teste aqui na região, estamos aprendendo sobre adubação, irrigação, controle de pragas e desbrotamento."
Também no Núcleo Rural Boa Esperança, Valdemar Silva, 65, apostou no açaí como alternativa de renda. "Plantei açaí pela primeira vez há três anos. Foi através do projeto da Embrapa e da Rota das Frutas que vi a oportunidade de melhoria financeira no futuro para mim e minha família", relata. "Temos um suporte muito bom da Emater e da Embrapa. Estou feliz não só pelo que virá financeiramente, mas por fazer parte desse momento da agricultura do DF."
Identidade e memória
No Pará, berço do açaí, o fruto é consumido de forma tradicional, longe das versões adoçadas que se popularizaram em outras regiões, fazendo parte do cotidiano e acompanhando refeições salgadas, carregado de memória cultural e identidade. Com a intenção de manter vivas essas raízes e preservar o sabor original, restaurantes do Distrito Federal oferecem o açaí tradicional ao público candango, ao mesmo tempo em que adaptam o fruto aos hábitos e às preferências brasilienses.
Entre eles está o Du Pará (@duparabsb), localizado na Asa Norte. Conduzido por Wady Dahás, 60 anos, o restaurante carrega o açaí como base do cardápio e da própria trajetória do proprietário. Nascido no Pará, ele cresceu consumindo o fruto desde a infância e nunca imaginou que, anos depois, o açaí se tornaria também o sustento da família. "Eu tomei açaí desde bebê. Meus filhos, também. Nunca pensei que o açaí fosse ser meu meio de vida. Hoje é", relata.
Em Brasília, o preparo segue o costume paraense. O açaí é servido sem açúcar e acompanhado de farinha e proteína, como peixe, charque ou camarão. "Lá no Pará, a gente come assim. Um pedaço de peixe, um pedaço de camarão, um pouco de açaí", explica. Segundo ele, o fruto não ocupa o lugar de sobremesa. "Primeiro a gente almoça, depois toma o açaí. Ou come junto, com a proteína."
Trazer esse hábito para o Cerrado, no entanto, causou estranhamento. "O primeiro impacto foi ver que aqui as pessoas comiam açaí com banana, leite condensado, essas coisas. Não era como a gente comia lá", lembra. A adaptação veio sem romper com a origem. No cardápio, o restaurante oferece tanto o açaí tradicional quanto versões adoçadas, pensadas para quem não se identifica de imediato com o sabor mais intenso. "O tradicional é o nosso, sem nada. Esse é o verdadeiro açaí", afirma.
Entre os clientes que experimentam o preparo original pela primeira vez, as reações variam. "Tem gente que diz que parece gosto de terra. Eu até brinco que nunca comi terra, mas quem fala isso nunca provou direito", garante. Para ele, a diferença está no modo de produção. "Hoje, tem muito xarope, essência, química. Fica bom, mas não é natural."
O açaí servido no Du Pará vem direto de Belém. Semanalmente, Wady recebe cerca de 500kg do fruto, incluindo variações mais grossas, comuns no consumo amazônico. Para ele, o açaí é mais do que um produto, representa identidade cultural. "A gente não veio só vender açaí. Viemos vender a comida do Pará, o vatapá, o caruru, o açaí autêntico. É para mostrar nossa cultura, nossa comida, a comida da Amazônia", finaliza.
Entre o estranhamento e a descoberta
À frente do restaurante Parai Terra do Açaí (@paraiterradoacai), localizado em Samambaia Sul, João Paulo Caixeta observa diariamente o impacto do açaí tradicional sobre o paladar brasiliense. "Muita gente chega achando que o açaí tradicional é sempre doce, porque nunca tomou sem açúcar", relata. O contato com versões acompanhadas de carne, peixe ou camarão costuma causar surpresa, mas também despertar curiosidade entre os clientes.
Segundo ele, o estranhamento inicial quase sempre vira conversas longas. "A pessoa vê alguém comendo, pergunta como é, de onde vem. A gente explica que isso faz parte da cultura alimentar da Amazônia", conta. Para João Paulo, esse diálogo faz parte da própria experiência oferecida pelo restaurante.
Nem todos se identificam logo na primeira colherada. "Alguns se decepcionam, porque esperam algo parecido com o sorvete de açaí. Outros se apaixonam e mudam completamente o jeito de consumir", afirma. Goiano com raízes nortistas, ele diz que prefere o açaí puro, sem açúcar, às vezes acompanhado de farinha. "O açaí verdadeiro é isso, é puro."
No restaurante, as duas versões convivem. Enquanto o açaí adoçado aparece como um consumo mais rápido e associado ao calor, o tradicional pede mais tempo. "Quem escolhe o tradicional senta, fica mais tempo, experimenta com calma", explica. Para ele, essa diferença revela uma mudança gradual no comportamento do consumidor em Brasília.
"Há 10 anos, o consumo era quase todo de açaí doce. Hoje, as pessoas têm mais curiosidade de saber como é o açaí de verdade", avalia. Para João Paulo, nenhuma forma anula a outra. "O açaí é diverso, e essa diversidade também faz parte da cultura", conclui.
Receitas
Brigadeiro de açaí
Nas redes sociais, o influenciador digital Pablo Figueiredo (@pablofigueiredoc) compartilha uma receita que une dois símbolos da cultura brasileira: o açaí e o brigadeiro.
Ingredientes
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1 caixa de leite condensado
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1 colher de chá de manteiga
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1 xícara de açaí com xarope
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Leite em pó a gosto
Modo de preparar
Em uma panela, misture o leite condensado, a manteiga e o açaí. Leve ao fogo baixo, mexendo sempre, até a mistura ficar homogênea e atingir o ponto de brigadeiro, quando começa a desgrudar do fundo da panela.
Transfira a massa para um recipiente e leve à geladeira até esfriar e ficar firme para enrolar. Com as mãos, modele os brigadeiros e passe-os no leite em pó. Sirva em seguida.
Bolo de açaí
Jess Bonfiglioli (@jess.bonfiglioli) apresenta uma forma diferente de aproveitar o café da tarde em família. A receita traz um bolo de açaí com cobertura de brigadeiro de leite em pó.
Ingredientes
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2 ovos
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2 xícaras de açúcar
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150g de manteiga derretida
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210ml de açaí derretido
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2 xícaras de farinha de trigo
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1 colher de sopa de fermento em pó
Para a calda
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1 caixa de leite condensado
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1 caixa de creme de leite
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3 colheres de sopa de leite em pó
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1 colher de chá de manteiga
Modo de preparar
No liquidificador, bata os ovos, o açúcar, a manteiga e o açaí até obter uma mistura homogênea. Despeje a massa em um recipiente e incorpore a farinha de trigo e o fermento, misturando delicadamente.
Leve ao forno preaquecido a 180°C por cerca de 30 minutos. Enquanto o bolo assa, prepare a calda levando todos os ingredientes ao fogo baixo, mexendo até obter um creme liso.
Após retirar o bolo do forno, despeje a calda ainda quente por cima. Pode ser servido quente ou frio, como sobremesa ou acompanhamento do café.
Filé de frango com molho de açaí
De forma ousada, Daniela Choma (@danichoma) propõe uma releitura do preparo do frango, combinando a proteína com molho de açaí.
Ingredientes
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600g de filé de frango desossado
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Sal e pimenta-do-reino a gosto
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Azeite
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1 colher de chá de amido de milho
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1 xícara de chá de vinho branco
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80ml de açaí com mel orgânico
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Tomilho a gosto
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4 colheres de sopa de creme de leite
Modo de preparar
Tempere os filés de frango com sal e pimenta. Aqueça uma frigideira com um fio de azeite e grelhe os filés até dourarem. Retire do fogo e reserve.
Na mesma panela, misture o vinho branco e o amido de milho. Acrescente o açaí e mexa até o molho começar a engrossar. Incorpore o tomilho e o creme de leite, ajuste o sal e desligue o fogo. Volte os filés para a panela, envolvendo-os no molho, e sirva.
Risoto de açaí
O canal do YouTube Native Berries (@NativeBerries) mostra que o açaí também pode ser usado em preparos salgados, como risotos acompanhados de camarão ou peixe.
Ingredientes
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100g de açaí puro
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200g de arroz arbório
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10ml de azeite de oliva
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150g de aspargos verdes
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1/2 cebola
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1 dente de alho
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1 colher de sopa de cebolinha picada
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25ml de vinho branco seco
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500ml de caldo de legumes quente
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30g de manteiga sem sal, gelada
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40g de queijo parmesão ralado
Modo de preparar
Salteie os aspargos com um fio de azeite e uma pitada de sal. Reserve. Em outra panela, derreta um pouco da manteiga e refogue a cebola e o alho até ficarem transparentes. Acrescente o arroz e mexa por alguns minutos. Adicione o vinho branco e mexa até quase evaporar.
Em fogo médio, vá acrescentando o caldo de legumes aos poucos, mexendo sempre, até o arroz atingir o ponto al dente. Abaixe o fogo, tempere com sal e pimenta e acrescente o açaí e os talos dos aspargos picados, misturando delicadamente.
Desligue o fogo, junte o queijo parmesão, as pontas dos aspargos, a cebolinha e a manteiga gelada, mexendo para dar cremosidade. Sirva em seguida.
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte
