A cannabis medicinal deixou de ser um tema restrito a debates ideológicos e passou a ocupar espaço nas consultas médicas, nas decisões judiciais e nas conversas familiares. Com a ampliação das autorizações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para produtos à base de canabinoides e o aumento da procura por esse tipo de tratamento, surgiram dúvidas sobre regulação e acesso, e o tema ganhou relevância clínica, exigindo informação qualificada. Entre expectativas, dúvidas e receios, especialistas defendem que a conversa precisa sair do campo da opinião e se basear em evidências científicas sólidas.
A ação da cannabis no organismo ocorre por meio do sistema endocanabinoide, que funciona como uma rede de "comunicação interna" que ajuda a regular funções importantes como dor, sono, apetite, humor e inflamações. O próprio organismo produz substâncias parecidas com as da planta para manter esse equilíbrio.
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Na cannabis medicinal, os dois principais componentes usados são o CBD (canabidiol) e o THC (tetra-hidrocanabidiol). O CBD não causa efeito psicoativo — ou seja, não dá sensação de "barato". Ele é usado principalmente por ajudar no controle de convulsões, ansiedade e inflamações, e costuma ser bem tolerado. Já o THC é a substância que pode alterar a percepção e o comportamento. Ele também pode aliviar dor, relaxar os músculos e estimular o apetite, mas está mais associado a efeitos colaterais, principalmente no campo emocional e cognitivo.
De acordo com a neurologista Thaís Augusta Martins, coordenadora de Neurologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, as indicações com maior evidência científica atualmente são epilepsia — especialmente alguns tipos específicos —, dor crônica, espasticidade na esclerose múltipla e náuseas e vômitos provocados por quimioterapia.
No campo da psiquiatria, o médico psiquiatra Adiel Carneiro Rios ressalta que a indicação é mais restrita. Para depressão e para a maioria dos transtornos de ansiedade, não há comprovação forte de eficácia da cannabis como tratamento principal. Embora o CBD apresente sinais promissores para ansiedade em situações específicas, os estudos ainda têm limitações importantes, como amostras pequenas, curto tempo de acompanhamento e falta de padronização de doses. Para depressão, a evidência é ainda mais frágil e, quando há efeito, muitas vezes ocorre de forma indireta, como consequência da melhora do sono ou da dor, e não por um efeito antidepressivo consistente.
Para quem é indicado
- Epilepsia (com evidência alta para síndromes específicas);
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Dor crônica;
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Espasticidade na esclerose múltipla;
-
Náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia.
No caso da epilepsia, há comprovação de redução significativa de crises no caso de:
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Síndrome de Lennox-Gastaut;
-
Síndrome de Dravet;
-
Esclerose Tuberosa.
Como a cannabis age no organismo?
Age no sistema endocanabinoide humano, composto por receptores (CB1 e CB2) e substâncias naturais produzidas pelo próprio organismo, como anandamida e 2-AG.
Esses receptores participam da regulação de funções como:
-
Dor;
-
Sono;
-
Apetite;
-
Humor;
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Resposta inflamatória.
Compostos da cannabis medicinal
CBD (canabidiol)
-
Não é psicoativo;
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Não provoca sensação de “barato”;
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Possui efeito anticonvulsivante;
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Pode ter ação ansiolítica e anti-inflamatória;
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Geralmente é bem tolerado.
THC (tetra-hidrocanabinol)
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É psicoativo;
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Pode causar alteração da percepção;
-
Tem efeito analgésico;
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Atua como relaxante muscular;
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Estimula o apetite.
Efeitos colaterais
Com CBD
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Sonolência;
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Tontura;
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Alterações gastrointestinais;
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Fadiga;
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Possível alteração de exames hepáticos em doses elevadas.
Com THC
-
Sonolência;
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Boca seca;
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Taquicardia;
-
Alteração de apetite;
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Prejuízo de memória e atenção;
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Ansiedade;
-
Sintomas psicóticos em pessoas vulneráveis.
O tratamento deve ser sempre individualizado, iniciado com doses baixas e ajustado de forma progressiva, com acompanhamento médico periódico. Os resultados costumam ser percebidos ao longo de semanas, mas variam conforme a condição tratada.
Riscos e contraindicações
O THC pode aumentar a ansiedade, precipitar crises de pânico e desorganizar o sono. Em pessoas vulneráveis, pode desencadear sintomas psicóticos, caracterizados por perda de contato com a realidade, com ideias delirantes ou alucinações. “Estudos populacionais mostram que quanto maior a frequência e a intensidade do uso, maior o risco de quadros psicóticos, especialmente em indivíduos com predisposição genética ou histórico familiar”, ressalta o psiquiatra Adiel Carneiro Rios.
Bipolaridade X cannabis
Indivíduos com transtorno bipolar exigem atenção especial; essa condição envolve períodos de depressão alternados com fases chamadas de mania, que é um estado de humor anormalmente elevado ou intensamente irritável, acompanhado de energia excessiva, pouca necessidade de sono, fala acelerada, impulsividade e comportamentos de risco. “Estudos associam o uso de cannabis à piora do curso do transtorno bipolar e ao aumento de episódios maníacos”, explica Rios.
Interação medicamentosa
A neurologista Thaís Augusta Martins alerta que a cannabis pode interferir na ação de antiepilépticos, sedativos, antidepressivos, anticoagulantes e opióides, o que reforça a necessidade de acompanhamento profissional. Na saúde mental, o psiquiatra Adiel Carneiro Rios destaca que substâncias podem aliviar sintomas, mas não substituem a psicoterapia. “Ansiedade e depressão envolvem padrões de pensamento, crenças e experiências que exigem abordagem terapêutica estruturada”, explica.
Palavra do especialista
Como lidar com o estigma social associado à cannabis e orientar a família?
A melhor resposta ao estigma é a ciência. Nem demonização cega nem romantização ingênua. Cannabis não é cura universal. Também não é um mal absoluto. É uma substância com potenciais efeitos limitados e riscos reais. Quando a conversa sai da ideologia e entra nos dados, a discussão se torna adulta. O problema surge quando marketing substitui evidência. Quanto à família, é preciso lidar com clareza e honestidade. A família precisa entender que, para depressão e ansiedade, a evidência científica ainda é limitada. É essencial explicar riscos, possíveis benefícios, sinais de alerta e plano de acompanhamento. Também é importante deixar claro que o tratamento pode ser interrompido se não houver benefício concreto ou se surgirem efeitos adversos relevantes.
Pode causar prejuízo cognitivo?
Pode, especialmente com uso frequente e início precoce. Estudos longitudinais mostram associação entre uso regular na adolescência e pior desempenho em memória, atenção e funções executivas na vida adulta jovem. O prejuízo tende a ser mais evidente em usuários quase diários e em produtos com alta concentração de THC. O cérebro jovem é mais sensível. E isso não é opinião. É dado acumulado ao longo de décadas de pesquisa.
Dr. Adiel Carneiro Rios e médico psiquiatra e mestre em psiquiatria
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
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