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Perigo microscópico: como as parasitoses gastrointestinais comprometem cães e gatos

Sem cuidados básicos, como vermifugação, higiene adequada e exames de rotina, vermes e protozoários silenciosos ameaçam pets e tutores. Conheça os principais

Entre os meses mais quentes do ano, algumas parasitoses gastrointestinais tendem a aparecer com mais frequência em cães e gatos, já que ovos e cistos resistem por mais tempo no ambiente úmido, como no solo, em gramados e em caixas de areia. Sintomas como diarreia, presença de sangue nas fezes, vômito e apatia são comuns quando os animais são infectados. Veterinários asseguram que diversos cuidados podem ser adotados para evitar complicações mais graves e a contaminação entre pets e humanos.

Nos consultórios veterinários, as parasitoses gastrointestinais mais frequentes incluem a Toxocara, conhecida como lombriga, a Ancylostoma caninum, popularmente chamada de verme-gancho, a Giardia lamblia, e a Dipylidium caninum, uma tênia transmitida por pulgas. Segundo o veterinário Luiz Alberto Gomes, mesmo com a ampla disseminação de informações e tratamentos entre tutores, esses parasitas continuam recorrentes, principalmente pela falta de cuidados básicos, como a vermifugação adequada e o recolhimento das fezes durante os passeios.

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Luiz Alberto reforça que, mesmo com o fato de o animal viver exclusivamente dentro de casa, não significa que ele esteja protegido. "Muitos tutores acreditam que pets que não saem não correm risco, mas isso não é verdade. Nós, pais de pet, podemos trazer ovos e cistos nos sapatos e nas sandálias. Esses parasitas são muito resistentes no ambiente", explica. Ele acrescenta que os cistos da Giardia lamblia, por exemplo, também podem estar presentes na água contaminada.

O médico veterinário alerta que os sinais clínicos variam, mas alguns sintomas são considerados clássicos. "Vômito, diarreia, queda excessiva de pelo com aspecto opaco e até coceira na região anal são indícios importantes", afirma. Ele acrescenta que perda de peso, distensão abdominal, especialmente em filhotes, presença de muco ou vermes nas fezes, anemia e apatia também podem indicar infecção parasitária. Segundo ele, o ideal é que o animal passe por avaliação veterinária pelo menos a cada três meses para medidas profiláticas e prevenção de complicações.

Entre as principais formas de prevenção, Luiz Alberto destaca a vermifugação periódica conforme orientação profissional, o controle rigoroso de pulgas, a higienização frequente de caixas de areia e o recolhimento imediato das fezes, especialmente no caso dos felinos. Ele também ressalta a importância dos exames coproparasitológicos de rotina, sempre que o médico veterinário considerar necessário.

Transmissão aos humanos

Para o médico veterinário Thiago Borba, as parasitoses gastrointestinais permanecem frequentes na rotina clínica, sobretudo em áreas urbanas. Ele explica que a convivência cada vez mais próxima entre animais em condomínios, praças e espaços compartilhados favorece a circulação desses agentes no ambiente. "Em locais com grande fluxo de cães, o solo pode se tornar um reservatório de ovos e larvas, aumentando o risco de exposição", afirma.

Borba também chama atenção para o risco de transmissão aos humanos. "Praticamente todos os parasitas de cães e gatos podem parasitar humanos", afirma. A contaminação ocorre, principalmente, por via fecal-oral, seja pelo contato com solo e superfícies contaminadas por fezes, seja pela ingestão de água ou alimentos contaminados por cistos da Giardia lamblia, seja ainda pelo manuseio inadequado das fezes dos animais.

Em ambientes externos, ovos de parasitas como, a Toxocara e a Ancylostoma caninum, podem permanecer no solo por longos períodos. Já no caso da Dipylidium caninum, a transmissão pode ocorrer pela ingestão acidental de pulgas infectadas. Crianças, idosos e pessoas com imunidade comprometida tendem a ser os grupos mais vulneráveis.

Em relação ao diagnóstico, Borba explica que o exame de fezes costuma ser suficiente na maioria dos casos. No entanto, em situações de infecções persistentes ou sintomas recorrentes, pode ser necessário recorrer a exames complementares, como testes imunológicos para detecção de antígenos, análise seriada de fezes ou até exames de sangue para avaliar possíveis alterações associadas.

Já a vermifugação preventiva segue como uma das principais estratégias de controle, mas exige atenção. "Dependendo do ambiente, os intervalos podem ser mais curtos. E o uso contínuo do mesmo princípio ativo pode favorecer resistência parasitária. Uma boa prática é sempre alternar o princípio ativo da medicação", orienta.

Fique de olho nos parasitas

Toxocara (lombriga de cães e gatos)

Sintomas — Diarreia, vômito, abdômen inchado (aspecto de “barriga estufada”), perda de peso, pelo opaco e, em filhotes, atraso no crescimento.

Diagnóstico — Exame coproparasitológico (fezes).

Tratamento — Vermífugos específicos prescritos pelo veterinário. A melhora clínica costuma aparecer em poucos dias após o início da medicação, mas o protocolo deve ser seguido até o fim para evitar reinfecção.

Ancylostoma caninum (verme-gancho)

Sintomas — Diarreia com fezes escuras ou com sangue, anemia, fraqueza, mucosas pálidas e perda de peso.

Diagnóstico — Exame de fezes.

Tratamento — Vermifugação adequada e, em casos mais graves, suporte para anemia. A resposta costuma ser rápida, com melhora em cerca de três a sete dias, dependendo da gravidade.

Giardia lamblia

Sintomas — Diarreia com fezes pastosas ou aquosas e com odor forte, presença de muco, perda de peso e desidratação.

Diagnóstico — Exame de fezes seriado (podem ser necessárias amostras em dias diferentes).

Tratamento — Medicamentos específicos e reforço na higiene ambiental. A melhora, geralmente, ocorre entre cinco e sete dias, mas recaídas podem acontecer se o ambiente não for higienizado adequadamente.

Dipylidium caninum (tênia transmitida por pulgas)

Sintomas — Coceira na região anal, presença de “grãos de arroz” nas fezes ou próximos ao ânus, desconforto abdominal leve.

Diagnóstico — Identificação de segmentos do parasita nas fezes ou exame coproparasitológico.

Tratamento — Vermífugo específico associado ao controle rigoroso de pulgas. A melhora costuma ser observada em poucos dias após o tratamento correto.

Como se proteger

De acordo com orientações do American Veterinary Medical Association (AVMA), medidas simples ajudam a reduzir o risco de contaminação entre animais e humanos. Confira: 

• Oriente as crianças a não levarem terra ou objetos sujos à boca e evite que brinquem em locais possivelmente contaminados por fezes de animais.

• Mantenha caixas de areia sempre cobertas quando não estiverem em uso, reduzindo o risco de contaminação.

• Higienize as mãos com água e sabão após contato com terra, areia ou animais de estimação  e incentive as crianças a fazerem o mesmo.

• Utilize calçados ao caminhar em ruas, praças ou jardins, prevenindo o contato direto da pele com possíveis larvas no solo.

• Lave cuidadosamente verduras, legumes e frutas consumidos crus.

• Recolha imediatamente as fezes dos animais em quintais, jardins e áreas públicas, descartando-as de forma adequada.

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

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