No Jardim Botânico, em um terreno de pouco mais de 670 metros quadrados, uma casa de 238,7m² traduz, em escala doméstica, a força de um dos edifícios mais emblemáticos da capital. Inspirada no Instituto Central de Ciências, o célebre "Minhocão" da Universidade de Brasília (UnB), a residência ressignifica o brutalismo brasiliense em chave íntima, afetiva e contemporânea.
Projetada por Pedro Grilo e Tiago Rezende, do escritório CODA Arquitetura, a Casa ICC nasce do encontro entre memória e desejo. Mais do que uma referência formal, o edifício concebido por Oscar Niemeyer e João Filgueiras Lima foi ponto de partida emocional para os moradores, Natasha Canovas e Vinicius Miguel, ambos ex-alunos da universidade.
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"Nós estudamos na UnB e sempre conversamos sobre os prédios da universidade e, em especial, o 'Minhocão'. O concreto, o piso de granitina e os jardins do prédio são surpreendentemente acolhedores para os alunos, servidores e professores que circulam naquele ambiente comum. É uma memória afetiva, potencializada pela arquitetura imponente, porém acolhedora", conta Natasha Canovas.
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Do monumental ao doméstico
Reinterpretar um ícone modernista em escala residencial exigiu síntese e rigor. "O Instituto Central de Ciências foi uma referência afetiva trazida pelos clientes: os agradava o aspecto brutalista de sua estrutura, os materiais deixados à vista, e o rigor construtivo do edifício mais icônico da UnB. Para nós, foi uma oportunidade única de reinterpretar a arquitetura da escola em que estudamos em uma modesta escala. Nessa casa, utilizamos o mesmo ritmo dos pilares de concreto, as vigas invertidas e a disposição de dois blocos lineares ligados no meio por um vão maior, como um pequeno extrato do ICC, uma singela homenagem", detalha Pedro Grilo.
O concreto aparente assume o protagonismo, assim como no edifício universitário. A estrutura modular ritmada, as grandes aberturas e a fluidez espacial estruturam o partido arquitetônico. "O concreto é o protagonista do projeto, não há dúvida. Desejávamos vedações em tijolo maciço aparente, mas o orçamento só nos permitiu fazer paredes de bloco de concreto. Além disso, o piso interno em granilite cinza e os cobogós da fachada reforçam o domínio do cinza. Em contraste, a madeira em compensado aparente está presente em todos os armários e painéis da casa. Na área externa, o terracota do piso cerâmico externo contrasta com a estrutura", explica Pedro.
Uma casa compacta, mas expansiva
A demanda inicial dos moradores era clara: uma casa compacta, mas com a área social totalmente integrada. Cozinha, sala e churrasqueira deveriam funcionar como um único grande ambiente de convivência. O programa também incluía quartos para os filhos e hóspedes, um escritório e um ateliê de cerâmica e artesanato.
A integração transforma diretamente a rotina da família. Natasha descreve: "Como temos duas crianças pequenas, vemos no dia a dia que elas ocupam toda a casa quando decidem brincar. A piscina fica visível do nosso quarto, as crianças podem correr em todas as direções, passando pelas portas de correr, e nos comunicamos sem precisar gritar ou subir escadas".
A planta em "U" organiza os espaços em torno de um pátio central com piscina. Todos os principais ambientes se voltam para esse núcleo, criando uma dinâmica de convívio contínuo. "Na parte frontal da casa, a garagem pode ser convertida em área de lazer, pois fica ao lado da churrasqueira, bastando para isso retirar os carros. No centro, a sala e a cozinha são integradas ao pátio por grandes portas de vidro. Na parte posterior, o quarto do casal e a circulação íntima também se abrem ao pátio, criando uma dinâmica de convívio, em vez de segregação", detalha o arquiteto.
Mais do que elemento compositivo, o pátio é o centro simbólico da residência. "A piscina nos convida o tempo todo, se misturando com o pátio. Afinal, Brasília é uma cidade quente e seca em boa parte do ano. Optamos por uma piscina central, pequena e visível de toda área social. As crianças a utilizam quase todos os dias, e nossos convidados, quando organizamos churrascos ou recepções nos finais de semana. Dá para conversar com quem está fazendo o churrasco e ainda podemos visualizar as crianças na piscina enquanto assistimos TV ou estamos em nossa cama", relata Natasha.
A integração entre interior e exterior foi pensada com cuidado, equilibrando abertura e privacidade. "A casa é mais fechada para fora e se abre para o externo "interno", que é o pátio e o jardim. Usamos janelas amplas que permitem a permeabilidade visual e física com o externo, sem afetar a privacidade dos moradores em relação à vizinhança", afirma Pedro.
Implantada em uma área ainda marcada por características rurais, a casa dialoga diretamente com o bioma local. A cor terracota, presente no piso externo, mistura-se à terra vermelha do Cerrado, criando continuidade visual entre arquitetura e paisagem. "Além das cores na arquitetura, estamos criando um jardim baseado em espécies do Cerrado, algumas muito difíceis de implementar fora do ambiente natural, inclusive", conta Vinicius Miguel.
O projeto paisagístico, desenvolvido por Paula Farage, em parceria com a CODA, valorizou árvores já existentes no terreno e priorizou espécies nativas. As decisões arquitetônicas também consideraram o clima de Brasília."A compreensão da incidência solar e direções de vento e chuva são fundamentais no projeto arquitetônico. Outra justificativa para o emprego da forma em "U" foi possibilitar que o quarto do casal ficasse voltado para o nascente. Já a sala, voltada para o sul, fica protegida de insolação direta quase o ano todo. Na fachada frontal, o cobogó foi utilizado para propiciar privacidade e segurança, uma vez que optamos por não gradear a fachada", ressalta o arquiteto Pedro.
Além da integração social, a casa foi pensada para acomodar múltiplos usos e transformações ao longo do tempo. Escritório e ateliê, por exemplo, refletem o estilo de vida criativo da família, ainda que tenham sido apropriados pelas crianças de maneiras inesperadas.
"São dois espaços reservados da casa e, mesmo assim, ficam abertos para a rua por meio dos cobogós. No ateliê, as crianças fazem artesanato, desenham, pintam e criam. No escritório, nós estudamos, trabalhamos e nos divertimos também. São espaços que foram pensados para nós, os adultos, mas completamente ocupados pelas crianças, com usos que não havíamos pensado antes", diz Vinicius.
A flexibilidade também aparece na possibilidade de conversão dos ambientes. "A casa é compacta, mas possui todas as funções que uma casa maior teria, tanto no tamanho quanto em seus sistemas de aquecimento de água, placas fotovoltaicas, etc. Pode-se dizer que a casa é sustentável. No quesito dos usos, evitamos pensar os espaços como 'setores' ou núcleos rígidos. Isso faz com que as casas fiquem grandes e demasiado herméticas. Em vez disso, a estratégia foi na linha da integração, de espaços flexíveis e de múltiplo uso."
Arquitetura como construção de recordações
Entregue em 2023, após projeto iniciado em 2021, a Casa ICC já acumula histórias. Aniversários, almoços, brincadeiras e momentos silenciosos se entrelaçam sob a estrutura de concreto aparente. "Gostamos muito de receber amigos, mas também de relaxar em casa. Nesses poucos anos, temos aproveitado um pouco de cada, organizando aniversários, almoços e brincadeiras com as crianças, mas também olhando para o céu deitados do nosso sofá", compartilha Vinicius.
Entre o rigor estrutural herdado do modernismo e a leveza da vida cotidiana, a residência prova que a arquitetura brutalista pode ser, acima de tudo, acolhedora. Além do concreto, a Casa ICC é marcada pelo Cerrado e por ambientes de afeto e abrigo.
