Em um cenário em que cada vez mais mulheres conciliam projetos pessoais, carreira e maternidade, compreender o próprio potencial reprodutivo tornou-se um tema central da saúde feminina. Neste contexto, avanços tecnológicos começam a transformar a forma como a fertilidade é avaliada. Uma dessas inovações é a aplicação da inteligência artificial na análise da qualidade dos óvulos, um fator decisivo para o sucesso reprodutivo.
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Fundada em 2018, em Toronto, a empresa canadense Future Fertility passou a atuar no Brasil há pouco mais de um ano, levando para clínicas de fertilidade uma tecnologia que une biotecnologia médica e inteligência artificial para avaliar o potencial reprodutivo dos óvulos por meio da análise de imagens microscópicas e dados clínicos.
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A proposta é oferecer uma avaliação mais objetiva e personalizada sobre a qualidade ocitária, algo que historicamente foi difícil de medir de forma padronizada. Atualmente, a plataforma da empresa é utilizada por mais de 300 clínicas em mais de 35 países e já está presente em cerca de 50 clínicas brasileiras.
“O Brasil possui uma das comunidades de medicina reprodutiva mais dinâmicas e inovadoras do mundo. As clínicas do país têm grande interesse em adotar novas tecnologias que possam melhorar o cuidado com os pacientes e apoiar a tomada de decisão clínica”, afirma Rafael González, Global Head of Sales & Commercial Strategy da empresa. Segundo ele, a chegada da tecnologia ao país acompanha mudanças importantes no comportamento reprodutivo da população.
“Ao mesmo tempo, cada vez mais mulheres optam por adiar a gravidez por razões pessoais, profissionais ou financeiras, o que torna o acesso a informações mais precisas sobre fertilidade importante. Ao trazer nossas ferramentas de avaliação de óvulos baseadas em inteligência artificial, incluindo VIOLET™ para congelamento de óvulos e MAGENTA™ para tratamentos de fertilização in vitro (FIV), para o Brasil, as clínicas podem oferecer às pacientes uma visão mais personalizada sobre seu potencial reprodutivo, em vez de depender apenas de médias populacionais, como a idade.”
Um desafio global
A infertilidade é hoje um desafio crescente em todo o mundo. Estimativas indicam que cerca de uma em cada seis pessoas enfrenta dificuldades para engravidar. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) calcula que aproximadamente oito milhões de pessoas podem ser inférteis. Além disso, mesmo com os avanços da medicina reprodutiva, entre 60% e 70% dos ciclos de fertilização in vitro não resultam em sucesso.
Um estudo publicado pela ONU em 2025, intitulado Verdadeira Crise de Fertilidade, analisou dados de 14 países e apontou uma transformação acelerada nos padrões de fertilidade. De acordo com a pesquisa, cerca de 20% dos adultos em idade reprodutiva acreditam que não conseguirão ter o número de filhos que desejam. Entre os fatores que influenciam esse cenário está a qualidade dos óvulos, um elemento essencial para a formação de embriões saudáveis.
Como a inteligência artificial entra nesse processo
Os óvulos desempenham um papel fundamental na reprodução. Além de fornecer metade do material genético do embrião, eles regulam o desenvolvimento embrionário inicial por meio de estruturas importantes, como mitocôndrias e ribossomos. Ainda assim, diferentemente dos espermatozoides e dos embriões, a medicina reprodutiva historicamente não dispunha de um método objetivo para avaliar sua qualidade.
Na prática, a idade da mulher era utilizada como principal indicador, uma referência que nem sempre reflete a realidade individual. Com o uso da inteligência artificial, esse cenário começa a mudar. “A inteligência artificial consegue analisar imagens microscópicas de óvulos com um nível de detalhe que vai além do que o olho humano consegue perceber”, explica Alex Krivoi, Chief Technology Officer e cofundador da empresa.
Segundo ele, os modelos da plataforma foram treinados com um amplo banco de dados que reúne mais de 650 mil imagens de óvulos associadas a resultados clínicos reais.
Com base nesses padrões, os sistemas conseguem estimar a probabilidade de um óvulo se desenvolver até o estágio de blastocisto, fase em que o embrião pode ser transferido para o útero durante um tratamento de fertilização in vitro. “Em termos simples, a IA transforma informações visuais do óvulo em dados que ajudam médicos e embriologistas a entender melhor seu potencial de desenvolvimento e como isso pode influenciar os resultados do tratamento de fertilidade”, completa Krivoi.
Avaliação individualizada
Uma das principais mudanças trazidas pela tecnologia é a possibilidade de avaliar cada óvulo individualmente, algo que antes não era possível de forma objetiva. “Tradicionalmente, a qualidade dos óvulos é inferida de forma indireta, principalmente com base na idade da paciente. Embora a idade seja um ponto de partida útil, ela reflete tendências populacionais e não captura a variabilidade que existe entre óvulos individuais”, explica o médico Dan Nayot, Chief Medical Officer e cofundador da empresa.
Ele destaca que as observações feitas por especialistas ao microscópio, apesar de importantes, são muitas vezes subjetivas. “Avaliações baseadas em inteligência artificial, como MAGENTA™ e VIOLET™, introduzem uma nova camada de informação objetiva. Ao analisar imagens microscópicas de óvulos individuais, a IA consegue identificar padrões visuais sutis associados ao potencial de desenvolvimento. Na prática, isso permite que as clínicas avaliem cada óvulo individualmente, apoiando um aconselhamento mais claro às pacientes, uma melhor gestão de expectativas e decisões de tratamento mais informadas.” Estudos de validação clínica apontam que os modelos da empresa apresentam uma melhoria de 28% na precisão preditiva em comparação com avaliações tradicionais realizadas por embriologistas ao prever o potencial de desenvolvimento de um óvulo. Entre os usos da tecnologia estão diferentes momentos da jornada reprodutiva.
Uma das ferramentas, chamada VIOLET™, foi desenvolvida para ciclos de congelamento de óvulos e pode ajudar mulheres que planejam engravidar mais tarde. “Para mulheres que estão considerando adiar a gravidez, compreender a qualidade de seus óvulos pode ser extremamente valioso”, afirma Nayot. Segundo ele, essas informações podem ajudar no planejamento reprodutivo e na decisão sobre a necessidade de realizar ciclos adicionais de congelamento.
A tecnologia também pode oferecer novas perspectivas para mulheres jovens que enfrentam dificuldades para engravidar. “Se uma mulher jovem estiver passando por um tratamento de FIV, MAGENTA™ pode oferecer informações adicionais sobre a qualidade dos óvulos. A idade, por si só, nem sempre explica os desafios de fertilidade, e algumas pacientes mais jovens podem enfrentar dificuldades inesperadas porque a qualidade dos óvulos pode variar significativamente entre indivíduos.”
Tecnologia já presente no Brasil
No país, a tecnologia já está integrada ao fluxo de trabalho de dezenas de clínicas de fertilidade. “As ferramentas de avaliação de óvulos com inteligência artificial da Future Fertility já são utilizadas por mais de 50 clínicas de fertilidade no Brasil. MAGENTA™ e VIOLET™ são integradas ao fluxo de trabalho do laboratório das clínicas, onde as imagens dos óvulos são analisadas e relatórios de qualidade dos óvulos são gerados”, explica Christy Prada, CEO da empresa.
Segundo ela, os relatórios são utilizados pelos médicos no processo de aconselhamento das pacientes, ajudando a tornar as decisões clínicas mais informadas.
