
Projetado inicialmente para ser o primeiro apartamento de uma jovem adulta, um imóvel de 65m² na Asa Sul, em Brasília, acabou ganhando uma história diferente da imaginada no início da obra. Criado para acolher encontros entre amigos, receber familiares e acompanhar o início de uma nova fase de vida, o espaço precisou se adaptar quando a cliente original se mudou antes mesmo da conclusão do projeto. O destino do apartamento tomou um rumo curioso. Uma das arquitetas do escritório responsável pela obra, que não participou do desenvolvimento daquele projeto específico, alugou o imóvel e hoje vive ali ao lado do noivo, que também é arquiteto.
A coincidência acabou funcionando como um teste real para uma premissa defendida pelo escritório desde o início. "Foi uma ótima forma de atestar como projetos podem ser versáteis e bem adaptáveis, sem perder a personalidade", conta Júlia Coutinho, 30 anos, moradora do apartamento. Segundo ela, a experiência reforçou a importância de criar espaços capazes de atravessar diferentes fases da vida sem perder a funcionalidade. "Os principais elementos da arquitetura são luz e espaço. Com isso bem resolvido, a decoração, os móveis e os objetos afetivos de cada morador dão o tom de quem usa o apartamento", afirma.
O grande desafio do projeto estava justamente em transformar um imóvel compacto em um espaço amplo e social sem abrir mão da privacidade. A cliente original desejava integrar sala e cozinha e criar uma suíte sem eliminar o banheiro social. O obstáculo era estrutural. Um shaft existente no apartamento impedia uma conexão fluida entre os ambientes. Em vez de contornar a limitação apenas com soluções pontuais, os arquitetos Pedro Grilo, Carolina Piana e Alexandre Isaías decidiram reorganizar completamente a planta.
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A solução fugiu do convencional. A cozinha passou a ocupar o centro da casa, funcionando como coração do apartamento. Nas extremidades, ficaram os ambientes íntimos e os banheiros, criando uma planta simétrica, pouco comum em imóveis compactos. "Percebemos que manter parte do layout original impediria uma relação mais fluida entre sala e cozinha. A solução de centralizar a cozinha e a sala de estar permitiu criar um núcleo social mais integrado, enquanto os dormitórios nas extremidades garantem maior independência entre os usos sociais e íntimos", explica a arquiteta Carolina Piana.
A mudança exigiu uma operação técnica importante. Toda a infraestrutura hidráulica e sanitária precisou ser transferida para a área antes ocupada pela sala. As tubulações passaram a percorrer o piso até alcançar a parede do shaft, que acabou assumindo um papel estratégico no funcionamento do imóvel. "O shaft teve papel fundamental na tomada de decisão. Em vez de apenas contornar a interferência, optamos por incorporá-lo à lógica do projeto", explica o arquiteto Alexandre Isaías. Além de contribuir para a organização espacial, a estrutura permitiu solucionar de maneira discreta a exaustão da cozinha, preservando a limpeza visual dos ambientes.
Novas funções
Se a proposta arquitetônica já chamava atenção no papel, a experiência de morar no apartamento trouxe novas descobertas. O quarto que originalmente seria destinado a hóspedes virou home office. A escolha por privilegiar móveis soltos, em vez de marcenaria fixa, permitiu adaptações mais livres ao estilo de vida do casal. "A arquitetura funciona como um pano de fundo atemporal para os objetos que colecionamos ao longo dos anos", conta Júlia.
O banco de concreto instalado na sala também ganhou funções que não estavam necessariamente previstas no projeto. Já serviu de apoio para plantas, objetos decorativos, arranjos florais e até como assento extra quando a casa recebe mais convidados. Pequenos usos cotidianos que revelam uma característica cada vez mais valorizada no morar contemporâneo. Casas que acompanham transformações sem exigir reinvenções radicais.
Para Júlia e o noivo, Gabriel Góes, 33 anos, a cozinha centralizada se tornou o principal símbolo dessa dinâmica. É ali que a rotina acontece. O espaço permite cozinhar, assistir a filmes, trabalhar e receber amigos sem compartimentalizar momentos. "Não há distinção entre cozinha e sala. Podemos cozinhar, conversar e partilhar os momentos juntos", diz.
No fim, o apartamento que nasceu para contar a história de uma moradora acabou revelando algo maior. Uma arquitetura que não se limita a um único modo de viver. Um espaço pensado para durar, adaptar e continuar fazendo sentido, mesmo quando os planos mudam no caminho.

Revista do Correio
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