Fitness e Nutrição

Muito além da luta: os benefícios do jiu-jítsu no dia a dia

Prática que cresce em todo o país, o jiu-jitsu fortalece o corpo, melhora a saúde cardiovascular, desenvolve disciplina e transforma trajetórias dentro e fora do tatame

O jiu-jitsu vive um momento de expansão no Brasil. Dados divulgados pela Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu (CBJJ) mostram que o campeonato brasileiro da modalidade bateu recorde de participação em 2025, com mais de 7,2 mil atletas inscritos. O crescimento acompanha o interesse cada vez maior pela arte marcial, que deixou de ser procurada apenas por quem deseja competir e passou a atrair pessoas em busca de saúde, condicionamento físico e qualidade de vida.

Cada vez mais praticado por crianças, adultos e idosos, por combinar exercícios de força, resistência cardiovascular, flexibilidade e coordenação motora, o jiu-jitsu se consolidou como uma atividade capaz de promover benefícios para o corpo e para a mente. Em Brasília, professores e praticantes relatam transformações que vão do emagrecimento ao desenvolvimento da disciplina, da inclusão social à melhora da autoestima.

Segundo o professor Ricardo Augusto Moreno de Freitas, faixa preta 3° grau e há 12 anos ensinando a modalidade, um dos diferenciais do jiu-jitsu é o trabalho integrado do corpo. Diferentemente de atividades que focam grupos musculares específicos, a luta exige a participação simultânea de braços, pernas, abdômen e região lombar durante praticamente todo o treino. "O aluno desenvolve uma força funcional real, melhora a capacidade cardiovascular e ganha flexibilidade. Isso ajuda inclusive na prevenção de dores do dia a dia", explica.

A dinâmica da modalidade também favorece o condicionamento físico. Durante os treinos, os praticantes alternam momentos de explosão muscular com períodos de controle da respiração e administração do esforço. Empurrar, puxar, sustentar o próprio peso e o do adversário fazem parte da rotina dentro do tatame. Como resultado, o corpo passa a responder melhor a atividades cotidianas que exigem resistência e coordenação. Os benefícios aparecem também na balança. De acordo com Ricardo, uma aula pode representar um gasto energético entre 600 e mil calorias, dependendo da intensidade.

Além disso, o organismo continua consumindo energia mesmo após o fim da atividade devido ao processo de recuperação muscular, fenômeno conhecido como efeito EPOC. Outro ganho importante está relacionado à postura corporal. Dentro da luta, manter a coluna alinhada e compreender o próprio centro de gravidade é essencial para evitar quedas e conseguir executar os movimentos corretamente.

Com o tempo, esse aprendizado se reflete fora da academia. O fortalecimento do core contribui para uma postura mais equilibrada e reduz desconfortos causados por longos períodos sentado. A saúde cardiovascular também é beneficiada. Durante os treinos, a frequência cardíaca aumenta significativamente, enquanto o praticante aprende a controlar a respiração mesmo sob pressão física. O resultado é um coração mais eficiente e uma melhora na circulação sanguínea.

Para Ricardo, o jiu-jitsu ainda funciona como uma ferramenta importante no combate aos efeitos do sedentarismo. Ele relata já ter acompanhado alunos que chegaram à academia com quadros de pré-diabetes, hipertensão e alterações no colesterol e que, após meses de prática regular, apresentaram melhora significativa nos indicadores de saúde.

Dentro e fora do tatame 

Mas nem toda transformação pode ser medida por exames ou números. Foi justamente essa mudança mais profunda que marcou a trajetória de Caio Luiz Aguiar, de 27 anos. Cartorário e professor de jiu-jitsu, ele iniciou sua caminhada na modalidade há cerca de nove anos e hoje é faixa marrom. A transição de aluno para professor aconteceu em um momento delicado para a equipe. Após a morte do sensei responsável pelo centro de treinamento, em 2024, os alunos precisaram reorganizar a estrutura do grupo para manter o trabalho vivo.

Por ser um dos praticantes mais antigos e graduados, Caio assumiu novas responsabilidades e, no ano passado, começou a atuar como professor. Neste ano, passou a comandar também uma turma voltada para competidores. Para ele, o jiu-jitsu ensina que a evolução nunca ocorre sozinha. "O jiu é muito coletivo. Você evolui treinando com pessoas mais experientes e também aprende muito apanhando. Com o tempo, desenvolve consciência de luta e amadurecimento dentro do esporte", afirma.

Além do desenvolvimento técnico, Caio destaca o papel social da modalidade. Segundo ele, muitos vínculos de amizade foram construídos por meio do esporte, inclusive com pessoas de outras cidades e equipes. O professor acredita que as academias instaladas em regiões periféricas desempenham um papel importante ao oferecer um ambiente seguro para crianças e adolescentes. "A gente consegue tirar muita gente da rua e trazer para o esporte. O jiu-jitsu transforma vidas e pessoas."

A inclusão também faz parte da rotina do centro de treinamento em que atua. Atualmente, três alunos com transtorno do espectro autista participam das aulas regularmente, respeitando suas necessidades e particularidades. Uma das alunas é faixa azul e, atualmente, auxilia nas turmas juvenis. Histórias como essas mostram que o tatame pode ser um espaço de acolhimento e desenvolvimento para diferentes perfis de praticantes.

Competição 

Quem também vivenciou transformações por meio do esporte foi Glauber Peter Andrade. Com 16 anos de experiência, faixa preta formado pelo mestre Cláudio Careca, ele afirma que o jiu-jitsu foi fundamental para sua formação pessoal. "Por meio do jiu-jitsu eu tive disciplina, me salvou de muitas coisas", resume.

Hoje, além de administrar o próprio centro de treinamento, Glauber coordena um projeto social em Ceilândia que atende crianças há seis anos. As aulas recebem alunos desde a primeira infância e acompanham seu crescimento dentro e fora do esporte. Segundo ele, os benefícios vão além da preparação física. A modalidade auxilia no desenvolvimento da coordenação motora, da disciplina e da convivência social.

O trabalho tem mostrado resultados especialmente positivos com alunos autistas. "Tenho alunos que não gostavam do toque ou do suor e hoje conseguem lidar muito melhor com essas situações." Outro aspecto valorizado por Glauber é a preparação para a competição. Embora nem todos os praticantes desejem competir, ele acredita que o ambiente competitivo ensina habilidades importantes para a vida.

Saber ganhar, perder, respeitar adversários e lidar com frustrações faz parte do processo de formação desenvolvido dentro do esporte. "Todos os alunos são preparados para competir. A competição pode ser um hobby ou uma carreira, mas ela desperta um lado muito positivo das pessoas."

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

 

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