Bichos

Focinhos gelados: saiba como proteger os pets durante o inverno

Quando as temperaturas caem, os humanos mudam de rotina: cobertores saem dos armários, roupas mais pesadas voltam a circular e bebidas quentes viram aliadas. Mas como os animais lidam com essa oscilação de temperatura?

O Distrito Federal tem registrado as menores temperaturas do ano até agora. Segundo dados coletados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), os termômetros marcaram uma média de 11,5°C nas madrugadas da primeira semana de junho, por todo o DF. Principalmente nas regiões do Centro-oeste, essa friagem vem associada à seca. A baixa umidade potencializa os problemas respiratórios, resseca os olhos e a pele e derruba a sensação térmica não só nos humanos, mas também nos pets. Para que haja menor impacto possível, especialistas explicam quais cuidados devem ser redobrados com os bichinhos durante esse período mais frio.

Lisa e Félix são dois gatos persas, moradores do Plano Piloto. A grande pelagem, característica da raça, impede que a temperatura corporal se dissipe com facilidade. Laura Anjos, tutora dos animais, porém, percebe uma mudança de comportamento deles quando a temperatura cai. "Não faço muita coisa diferente, porque meus gatos são muito peludos. Mas percebo que eles ficam mais próximos da gente — encolhidos — e evitam ficar no chão gelado, subindo na cama e no sofá", afirma.

Especialistas explicam que, apesar de certas raças aparentarem não sentir grande impacto, qualquer gato sente frio no inverno. Embora uma parte considerável dos animais possua mais pelos e camadas mais grossas de proteção, o frio afeta os pets de maneira semelhante aos humanos.

Para a médica veterinária Agda Pavan, endocrinologista animal, alguns sinais físicos perceptíveis de quando os cachorros estão com frio são: orelhas, patas e rabo gelados, gengiva pálida ou azulada e, nos filhotes e idosos, a letargia e o choro. Já nos gatos, a veterinária destaca que, como os felinos são melhores em esconder o desconforto, exigem uma maior atenção dos tutores. "O sinal de alerta vermelho é se o animal parar de tremer e estiver prostrado, com a respiração lenta. É para correr para a emergência, pois pode se tratar de um quadro de hipotermia."

Doenças oportunistas

Além disso, durante a época de friagem, as doenças causadas pela circulação de vírus e bactérias tendem a aumentar, o que preocupa guardiões de pets. Nesse período, gatos e cachorros também diminuem o consumo de água e aumentam a ingestão calórica para se manterem aquecidos. Esse gasto energético mais proeminente reduz a capacidade de resposta imunológica dos bichos.

"Alguns quadros pré-existentes, como diabetes mellitus, artrite e bronquite crônica, podem ser agravados nesse período", lembra Agda. Apatia, secreção saindo pelos olhos e pelo nariz, tosse seca, falta de apetite, focinhos com rachaduras e tremores são alguns sinais de que o animal pode estar gripado e de que um especialista deve ser consultado.

Existem, no entanto, formas de proteger os animais antes que eles sejam acometidos pelas doenças. A ação mais comum tomada pelos responsáveis pelo animal é acrescentar cobertores ou mantas para auxiliar o pet a se esquentar. Além disso, manter a carteira de vacinação atualizada, diminuir a frequência de banhos e de tosas e fazer visitas regulares ao veterinário são essenciais durante essa estação mais fria.

Para Agda, oferecer água morna ou fazer a troca com mais constância estimula a ingestão hídrica, que costuma diminuir nesse período. "Devemos diminuir a frequência de passeios, evitando principalmente os horários com mais vento. Além de usar roupinhas e sapatinhos em animais mais desprotegidos ", indica também a médica.

Isabela Gontijo, responsável por Wendy, faz de tudo para que sua cadela fique o mais confortável possível. "Quando começa a escurecer e ficar frio, já a colocamos para dentro, para evitar que ela fique na chuva ou no vento brincando. Além disso, a enchemos de roupas, porque, mesmo tendo um comprimento médio de pelo, ela deve sentir bastante frio", aposta.

Contudo, especialistas reafirmam o alerta sobre alguns artifícios usados pelos tutores, como os aquecedores internos nas casas — eles podem parecer ajudar, mas são de grande perigo para os bichos — e as bolsas de água quente nas camas, que podem estourar e causar graves queimaduras. Ademais, durante a baixa das temperaturas, alguns gatos tendem a se esconder dentro de motores de carros, então é sempre importante verificar os veículos antes de dar partida, para evitar acidentes.

Agda também faz um alerta: "O frio não é desculpa para prender o animal dentro de um espaço pequeno ou deixar de lado o enriquecimento ambiental . Um animal entediado e sem exercícios também pode adoecer, inclusive metabolicamente". Brincadeiras de procurar a ração dentro de casa, caixas de papelão para que os gatos explorem ou acessórios específicos que estimulem o "raciocínio" dos animais durante a alimentação são opções que podem ser realizadas dentro de casa, durante esse período.

Cuidado redobrado

Se uma parte considerável dos animais ficam sensíveis aos impactos causados pelo frio, alguns grupos se tornam ainda mais vulneráveis nessa época. Bichinhos de pequeno porte e pouco pelo, idosos, filhotes e animais que vivem abandonados na rua tendem a ser os mais afetados. Levantamentos da Confederação Brasileira de Proteção Animal (CBPA), realizados em 2024, contabilizaram, aproximadamente, entre 1,5 e 1,7 milhão de gatos e cachorros que vivem nas ruas.

Procurada, a Secretaria Extraordinária de Proteção Animal alegou que não existem ações específicas em relação aos bichos que se encontram em situação de vulnerabilidade nos períodos mais frios. Para esses animais, a exposição prolongada ao frio e à umidade pode aumentar os riscos de hipotermia, doenças respiratórias e desnutrição. A falta de abrigo adequado também dificulta a recuperação de animais já debilitados.

O trabalho de acolhimento fica a cargo das organizações sem fins lucrativos de acolhimento animal. Wellington Fabiano, vice-presidente do abrigo Fauna e Flora — com sede no Gama —, expressa como a dificuldade aumenta nas ONGs durante o período mais frio. "Temos que forrar as casinhas e colocar mantas para proteger os animais. Até na alimentação, tentamos entrar com suplementos, para evitar que os cachorros peguem a tosse canina e gripes. Ainda mais em locais como esses, onde muitos animais ficam juntos, e as doenças circulam com mais facilidade", detalha.

O frio ainda impacta na questão financeira dos abrigos e organizações não governamentais. "Nas redes sociais, pedimos doações de roupas e panos, nessa época, e a pessoa que ia doar ração acaba trocando a doação. Isso faz com que tenhamos que correr atrás dos mantimentos e ração." O abrigo onde Wellington atua está superlotado, como a maioria dos lares temporários para animais do Distrito Federal.

Ele ainda faz um apelo à população: "Os animais que estão dentro de casa ou nos abrigos recebem o cuidado. Mas e aqueles que estão na rua, quem faz por eles? Nem que seja de forma improvisada, as pessoas devem tentar impedir que esses animais fiquem expostos ao frio".

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

 


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Reprodução/ Instagram (@abrigofloraefauna) - Animal do Abrigo Flora e Fauna à espera de ser adotado
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