
“Mãe, por que o computador sabe mais do que todo mundo?” Ela me disse que sempre quis fazer essa pergunta a alguém. Não sei como, aos 4 anos de idade, conseguiu chegar a essa constatação. Evitamos o excesso de telas, os livros estão distribuídos em lugares privilegiados pela casa e a pesquisa em qualquer tipo de máquina não é frequente.
As demandas em tempo real do trabalho, por outro lado, nos obrigam a estar conectados ao celular o tempo todo. É ali que leio jornal diariamente, por exemplo, e que solucionamos grande parte dos problemas cotidianos. Organização da rotina escolar, compras de emergência, encontros com os amigos e também alguma pesquisa de informações, é claro.
Ainda assim, a pergunta me intrigou. Primeiro pelo grau de elaboração do raciocínio. Como relacionar em tão pouco tempo de vida o que fazemos todos os dias com os equipamentos eletrônicos a uma suposta onipotência do computador? Afinal, ela não citou qualquer item: foi especificamente o computador. Apesar de surpresa, respondi prontamente que não era bem assim.
Os consoles, na verdade, além de terem sido construídos por seres humanos, recebem informações de todas as pessoas no mundo, por isso, parecem saber mais que todos, já que reúnem tanto conhecimento. Não havia tempo nem era o momento de ir além. Minha vontade era a de dar exemplos, voltar alguns séculos no tempo, falar do papiro, da tradição oral, da Biblioteca da Alexandria, daquilo que hoje os computadores já guardam e registram, mas que só o fazem porque a memória ficou gravada em alguma plataforma após o trabalho de mãos e braços humanos.
Nestas férias, um dos passeios que fizemos foi à Biblioteca Nacional. Rodamos pelos dois andares do acervo, com paredes decoradas pelo belo ensaio do fotógrafo Alexandre Fortes com ícones de Brasília. O olhar generoso de Vladimir Carvalho; a espontaneidade do triatleta Leandro Macedo; a elegância de Françoise Forton; a irreverência de um Nicolas Behr de ponta-cabeça.
Mesmo com toda a perspicácia, aos 4 anos de idade ela ainda não consegue entender como esses símbolos juntos formam uma aldeia de conhecimentos que permitirá, no fim, que o computador pareça saber mais que qualquer ser humano. O que nenhuma máquina fará, em tempo algum, é parar para refletir por que, afinal, sabe tanto sobre tanta coisa. Isso só ela, aos 4 anos de idade, é capaz de fazer.

Revista do Correio
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