Todo mundo conhece um pouco sobre as diferentes mudanças físicas, mentais e psicossociais que as mulheres passam quando se tornam mães e seus potenciais reflexos sobre a saúde. O cérebro passa a ser diferente com a maternidade. Já o efeito da paternidade sobre a saúde dos homens é um tema um pouco menos explorado pela ciência. A paternidade no mundo contemporâneo extrapola o modelo estereotipado do pai provedor trabalhando fora e a mãe em casa cuidando dos filhos.
Hoje em dia, não são raros os pais que moram sozinhos com os filhos, pais que cuidam da casa enquanto a mãe que é provedora e trabalha fora, pais que moram longe dos filhos, pais numa relação homossexual, e outras variações de paternidade que pareceriam exceções à regra há algumas décadas. E será que a paternidade exerce alguma influência sobre a saúde dos homens? Os filhos podem ser um fator positivo na vida dos homens como fonte de satisfação e realização, e até de atividade física, já que muitos homens retornam à atividade esportiva incentivados pela chance de fazê-la junto aos filhos.
Inclusive, atividade física junto ao filho é mais comum com o pai do que com a mãe. Por outro lado, a paternidade pode trazer efeitos negativos se, por exemplo, o homem encará-la com culpa por não viver junto ao filho ou se o homem tiver que trabalhar além dos seus limites desejáveis depois que a conta com os filhos passou a ficar mais cara, deixando de cuidar de sua própria saúde e às vezes até se sentindo penalizado. Quando se investiga o estado de bem-estar psíquico de um homem ao assumir o estado de pai, há um fenômeno chamado de paradoxo da paternidade.
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Alguns pais reportam uma influência negativa no humor, mais sintomas depressivos e mais estresse enquanto outros manifestam uma maior satisfação com a vida de forma geral. Pesquisas indicam que a maioria dos pais apresenta um aumento do sentido na vida após seis meses do nascimento do filho, quando comparado à época da gestação, e tem maior sincronização entre as diversas áreas cerebrais à ressonância magnética funcional, uma maior integração entre áreas cerebrais ligadas às emoções e estímulos sensoriais.
Aqueles que têm uma experiência mais negativa com a paternidade apresentam respostas no córtex sensorial e cerebelo que podem estar associadas a uma hipersensibilidade emocional a informações sensoriais como, por exemplo, ao choro do bebê. Considerando as novas rotinas do dia a dia que podem desafiar emocionalmente os pais, noites acordadas, por exemplo, o efeito negativo desses novos hábitos pode ser mitigado pela maior experiência de sentido no longo prazo, também conhecida pelos cientistas como narrativa própria coerente. A forma como o homem vive a paternidade além de poder influenciar seus hábitos de vida e sua saúde, pode influenciar também no desenvolvimento psíquico de seus filhos e a própria saúde do relacionamento conjugal.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
