Comportamento

O poder do whimsy: como pequenas escolhas devolvem a magia ao cotidiano

Em meio à pressa e à produtividade, o whimsy propõe um olhar mais leve para a rotina, encontrando beleza e afeto no cotidiano

Há quem encontre beleza em uma xícara diferente, em um esmalte colorido, em uma decoração feita à mão ou simplesmente na escolha de um caminho mais longo para casa. Em meio a uma rotina cada vez mais acelerada, essas pequenas escolhas podem parecer banais. Mas, para quem pratica o whimsy, elas são uma maneira de devolver encanto ao cotidiano.

O termo vem da palavra inglesa "whim", associada a capricho ou impulso gracioso. Mais do que uma estética, o conceito propõe valorizar a fantasia, a espontaneidade, a ludicidade e a capacidade de encontrar beleza em situações ordinárias.

Na prática, isso pode aparecer de formas muito diferentes, como escolher uma roupa porque ela faz alguém se sentir bonita, decorar a casa com objetos que carregam histórias, aprender um trabalho manual sem intenção de transformá-lo em renda ou reservar tempo para uma atividade simplesmente porque ela proporciona prazer.

Para Izabela Críscia Laporte, de 21 anos, estudante, esse olhar começou ainda na adolescência. "Acredito que, em 2017, quando eu estava no 7° ano do ensino fundamental, a escola começou a ficar 'séria demais', e foi em pequenas coisas, como batons coloridos, tiaras de gatinho, brincos divertidos e cabelo colorido, que eu encontrei sentimentos de felicidade e leveza." 

Para ela, o whimsy precisa ir além da estética das redes sociais. "Eu garanto isso de maneira interna, ao me sentir verdadeiramente feliz, realizada e eu mesma quando tiro um tempo para me maquiar, escolho um esmalte mais ousado e enfeito todos os meus pertences com diversos adesivos."

E não é preciso ter tempo ou dinheiro sobrando. "Sou uma pessoa que estuda e trabalha, e, quando não tenho tempo (ou até disposição) para escolher determinada roupa, fazer um penteado ou me maquiar, foco em coisas mais simples que estejam ao meu alcance. Normalmente, faço isso por meio dos acessórios, já que colocar um brinco, um colar, uma pulseira e um tênis personalizado leva bem menos tempo e esforço", ressalta. 

A transformação, para Izabela, foi principalmente interna. "A minha saúde mental melhorou. Mesmo tendo sofrido represálias de pessoas próximas quando comecei a me expressar mais dessa maneira, sempre remanesceu um sentimento interno de realização e concretude, que só aumentou com o passar dos anos." Hoje, ela associa a estética à própria identidade. 

Novos conhecimentos

O encanto também pode nascer das mãos. Durante a pandemia, a consultora na área de oncologia Jucerlene Martins, 46, encontrou nos trabalhos manuais uma forma de ocupar o tempo e experimentar novos hobbies. O macramê tornou-se uma atividade constante, utilizada para criar peças de decoração, objetos para a casa e presentes para pessoas queridas.

A experiência acabou levando a outras técnicas, como trabalhos com cerâmica fria e a criação manual de objetos de decoração e uso pessoal. A relação com o fazer também transformou a maneira como ela enxerga a própria casa. "A casa é um reflexo de você. Então, ela tem que ter a minha cara, não tem que parecer com a cara de todo mundo." Para Jucerlene, o trabalho manual cria uma espécie de pausa. "Enquanto eu estou fazendo aquilo ali, a atenção é totalmente voltada para aquela atividade."

A curiosidade também faz parte desse olhar. Viajar, conhecer culturas, conversar com desconhecidos e aprender assuntos diferentes são formas de manter a atenção voltada para o mundo. "Amo viajar para novos lugares. Já tem bons anos que eu priorizo não repetir destino", reforça. O mesmo interesse aparece na leitura e na busca por novos conhecimentos. "Eu gosto muito de aprender coisas aleatórias. Gosto de estudar sobre o universo, sobre estoicismo, filosofia, a mente humana."

Para Jucerlene, a maturidade também trouxe uma mudança na maneira de enxergar o que realmente tem valor, como o tempo com a família. "Um domingo mais que especial para mim é quando fico em casa, a gente almoça ,e eu vou cuidar das minhas plantas, ou eu vou mudar um móvel de lugar, ou eu vou fazer uma nova arte para minha casa. Isso para mim tem muito mais valor do que sair para algum lugar e viver coisas fora desse ambiente", explica. 

Para Leandro F. Oliveira, doutor em neurociências e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), esse tipo de prática pode ajudar a interromper o estado de tensão. "Esses rituais lúdicos, de alguma forma, interrompem aquilo que a rotina nos coloca, que é um estado de alerta constante."

Segundo ele, a prática não elimina o estresse, mas pode favorecer momentos de relaxamento e recuperação. "Ele favorece uma transição de um organismo que está permanentemente mobilizado para momentos de um maior relaxamento, até mesmo de uma recuperação", afirma. 

O especialista também relaciona a tendência ao contexto de hiperprodutividade. "A gente tem aí um elemento que aparece culturalmente, justamente em um período que é marcado por um período marcado por pessoas com excesso de telas, com cansaço demais, com sensação de que todos os momentos precisam ter algum tipo de utilidade de produção."

Isso não significa, porém, que o whimsy seja uma solução para problemas como o burnout. "A gente não pode dizer que, em si, o whimsy seja um tratamento, porque a gente acaba generalizando demais. O burnout é um fenômeno muito mais complexo", alerta. 

Capacidade de brincar

Leandro também chama atenção para a chamada "criança interior", que, segundo ele, funciona melhor como metáfora psicológica do que como conceito técnico. "Talvez, nesse sentido, signifique recuperar curiosidade, imaginação, espontaneidade, capacidade de brincar, as características que muitos adultos vão abandonando com o passar dos anos", salienta. O limite está em quando o encanto deixa de ser uma pausa e passa a substituir a realidade. 

Se, para Leandro, o whimsy pode ajudar a interromper a lógica da produtividade, para o filósofo Afrânio Castro, a tendência também pode ser compreendida como uma tentativa de "reencantar" o mundo. "Não é volta à magia nem à religião. É mais uma recusa cotidiana de que tudo precise ter função e explicação", afirma. Para ele, o conceito pode ser entendido como um reencantamento em "escala de bolso": "Um vaso torto, uma xícara com carinha, escolher o caminho mais longo para o trabalho só porque é bonito."

A filosofia, no entanto, também ajuda a enxergar os limites desse movimento. O whimsy pode ser capturado pela própria lógica das redes sociais e do consumo. "O que me preocupa é que, ao circular dentro de redes movidas a algoritmo, esse mesmo reencantamento acaba capturado pela lógica que tenta escapar", afirma. 

Por isso, o encanto não estaria, necessariamente, na compra de objetos que seguem determinada estética. "A resistência de verdade está no gesto mais simples e menos monetizável de parar sem finalidade nenhuma e deixar um momento existir só por existir", diz. 

No fim, talvez o whimsy seja menos sobre ter uma vida perfeita, colorida ou digna de um vídeo nas redes sociais, e mais sobre reaprender a prestar atenção. Em um mundo que cobra pressa, produtividade e utilidade, encontrar graça em uma pequena coisa pode ser, simplesmente, uma maneira de estar presente. "Para mim, o whimsy de verdade está menos no objeto fofo e mais na disposição de deixar as coisas nos surpreenderem antes de classificá-las", resume Afrânio.

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