Saúde

Novas terapias e equipe reforçada ampliam o cuidado com o câncer no DF

Com 14 novos especialistas e estrutura integrada, Rede Américas aposta em pesquisa, tecnologia e atendimento de alta complexidade para acompanhar o crescimento dos casos da doença no país

Gustavo Fernandes aponta novos caminhos para o tratamento de câncer -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Gustavo Fernandes aponta novos caminhos para o tratamento de câncer - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

O câncer ocupa um espaço cada vez mais central nos desafios da saúde brasileira. Com o envelhecimento da população e a estimativa de cerca de 700 mil novos casos por ano no país, a oncologia precisa acompanhar não apenas o aumento da demanda, mas também a velocidade com que surgem novos tratamentos, tecnologias e possibilidades de diagnóstico. Em paralelo, cresce a necessidade de oferecer ao paciente uma assistência menos fragmentada, capaz de reunir, em uma mesma jornada, investigação, cirurgia, tratamento medicamentoso e acompanhamento multidisciplinar.

É nesse cenário que a Rede Américas amplia a atuação em oncologia no Distrito Federal. A expansão inclui a chegada de 14 especialistas, oito oncologistas e seis hematologistas, e o fortalecimento da estrutura das três unidades da rede na capital. A proposta é concentrar diferentes etapas do cuidado e facilitar o acesso a tratamentos de alta complexidade, incluindo terapias gradativamente mais personalizadas a partir das características de cada tumor.

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Vice-presidente de Oncologia da Rede Américas e oncologista clínico do Hospital Brasília, o médico Gustavo Fernandes acompanha de perto as transformações da área. Para ele, os avanços recentes mudaram perspectivas que, até pouco tempo atrás, eram consideradas improváveis, especialmente em casos de câncer metastático. Em entrevista, o especialista também fala sobre pesquisa clínica, novas terapias-alvo, câncer de pâncreas, envelhecimento da população, prevenção e o impacto das canetas emagrecedoras na redução do risco de câncer.

Entrevista / Dr. Gustavo Fernandes

Como funciona a atual estrutura da rede hospitalar e qual é o foco dos hospitais gerais?

Os hospitais já existiam, mas a composição da rede — a joint venture com os hospitais que eram da Dasa e da Amil — existe há cerca de um ano e quatro meses. Tirando a maternidade, os outros três (Hospital Brasília, Hospital Brasília Unidade Águas Claras e Hospital Alvorada Brasília) são hospitais gerais focados em média e alta complexidade. Falando especificamente da minha área, há um foco muito grande em oncologia, com centros especializados presentes em todas as unidades.

Todos os hospitais gerais possuem centro de oncologia? Como é estruturado o atendimento ao paciente?

Todos os três possuem centro de oncologia. Hoje, a grande questão é entender que o câncer é uma doença muito frequente e precisamos atender esses pacientes dentro de estruturas completas, onde conseguimos entregar tudo o que ele precisa de maneira não fragmentada. A coisa mais desagradável para o paciente é ter que ficar costurando suas necessidades em vários lugares. Em uma estrutura robusta, entregamos a linha de cuidado inteira: a biópsia, os exames de imagem, a consulta com o cirurgião, a cirurgia, a quimioterapia e a imunoterapia. Essa completude é coordenada por enfermeiros navegadores, orientada por um plano médico bem definido e centralizada em um único prontuário, o que facilita muito a vida de quem está em tratamento.

Em relação à tecnologia, equipamentos e acreditações hospitalares, como a rede está posicionada?

Nossos hospitais possuem acreditações nacionais e internacionais de altíssimo nível em segurança e experiência do paciente. No contexto de equipamentos, temos tudo o que é necessário em terapia intensiva e cirurgia. Já utilizamos cirurgia robótica há muitos anos e atualizamos recentemente nosso parque de robôs no Brasil. Com as novas indicações e coberturas, a utilização da robótica vai aumentar ainda mais. Além disso, contamos com um parque de diagnóstico por imagem completo em todas as unidades.

Como funciona a atuação no pilar de inovação e pesquisa clínica?

Temos um centro de pesquisa clínica muito bem estruturado no Brasil, fundado pelo Dr. Romualdo Barroso — que também fundou o centro de pesquisa do Hospital Sírio-Libanês comigo —, um médico com altíssimo nível de produção científica global e bagagem de quatro anos de pesquisa em Harvard. Eu também atuo ativamente como pesquisador em oncologia gastrointestinal. O Brasil tornou-se um polo extremamente relevante em pesquisa clínica. Especificamente em Brasília, temos mais de uma dezena de protocolos e estudos abertos, permitindo que os pacientes tenham acesso a drogas altamente inovadoras muito antes de chegarem ao mercado comercial.

Dentro da oncologia, quais foram os avanços mais expressivos nos últimos anos?

O melanoma é um dos casos mais emblemáticos. Há 10 anos, a chance de um paciente com melanoma metastático estar vivo em cinco anos era de apenas 10%. Hoje, mais da metade dos pacientes é curada. Ver um paciente com metastatização, inclusive no sistema nervoso central, e ter a perspectiva real de que ele pode voltar a ter uma vida saudável em poucos meses era algo inimaginável. Outro grande avanço foi no câncer de pulmão: antigamente, era impensável falar em sobrevida superior a cinco anos. Hoje, acompanho pacientes com câncer de pulmão metastático vivos há mais de 10 anos, mantendo uma excelente qualidade de vida.

Falando sobre novas terapias-alvo, qual o impacto das drogas que combatem mutações como a KRAS, como adagrasibe e sotorasibe?

Mutações no gene KRAS estão presentes em cerca de 30% a 40% dos tumores do trato gastrointestinal e em até 25% dos tumores em geral. Pela primeira vez na medicina, temos medicamentos capazes de inibir a função dessa mutação específica. Isso abre um leque totalmente novo de opções terapêuticas baseadas em um mecanismo de ação inédito para um quarto de todos os diagnósticos de câncer.

E no caso do câncer de pâncreas, que historicamente apresenta maior gravidade, qual é o cenário atual de tratamento?

O câncer de pâncreas sempre teve um prognóstico muito reservado, com sobrevida histórica de quatro a cinco meses. Há 10 anos, aprendemos a usar novos esquemas de quimioterapia que dobraram esse tempo. Mais recentemente, com os novos medicamentos direcionados a mutações específicas, vimos pela primeira vez pacientes apresentando melhora significativa dos sintomas, alívio da dor e recuperação do apetite. Embora a maioria dos pacientes ainda possa apresentar progressão da doença após certo tempo, a ciência já consegue identificar as mutações que causam resistência a esses remédios, e desenvolver novas drogas para bloqueá-las. O ritmo de avanço científico é muito mais rápido hoje.

Com o envelhecimento da população, a tendência é de que o câncer se torne a principal causa de morte?

Sem dúvida. O principal fator de risco para o desenvolvimento do câncer é a idade, sendo a mediana do diagnóstico entre 60 e 65 anos. Nos Estados Unidos, o câncer já é a principal causa de mortes há anos, com cerca de 2 milhões de novos casos por ano. No Brasil, registramos em torno de 700 mil novos casos anuais, o que sugere que ainda possamos ter algum nível de subnotificação de diagnósticos, considerando o tamanho da nossa população.

As pessoas têm se preocupado mais com estilo de vida e prevenção? E qual o papel das novas canetas emagrecedoras, os análogos de GLP-1, no combate ao câncer?

O brasileiro é um povo que acredita na medicina e nas intervenções médicas. Mas também percebo um ganho de conscientização individual: as pessoas entendem cada vez mais que hábitos saudáveis, como boa alimentação, prática de exercícios e redução de álcool e fumo, impactam a longevidade. Sobre as canetas emagrecedoras, estudos recentes mostram que elas reduzem significativamente a incidência de câncer em pacientes obesos. Isso comprova o quanto a obesidade e o diabetes são fatores de risco graves para o desenvolvimento tumoral, já que ambientes com níveis elevados de glicose e insulina favorecem o crescimento celular atípico. Quando controlamos a obesidade com o devido acompanhamento médico, combatendo a perda de massa muscular (sarcopenia) e monitorando a saúde metabólica, o ganho para a prevenção de doenças e para a longevidade é extraordinário.

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postado em 30/08/2026 06:00
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