A chamada K-beauty, abreviação de Korean beauty, deixou de ser uma tendência restrita à Coreia do Sul e passou a ocupar espaço nas prateleiras, redes sociais e rotinas de skincare de consumidores ao redor do mundo. A popularidade dos cosméticos coreanos não acontece por acaso. A indústria do país conseguiu unir fórmulas com texturas leves, diferentes opções de produtos e uma experiência sensorial valorizada pelo consumidor. A estratégia também foi impulsionada pelo crescimento da cultura sul-coreana no exterior, especialmente por meio da música, das séries e das redes sociais.
Para a dermatologista Luanna Portela, um dos grandes diferenciais da K-beauty está justamente na forma como os produtos são apresentados e utilizados. A indústria coreana investiu em formulações agradáveis e em uma variedade capaz de transformar o cuidado com a pele em uma experiência. Isso ajudou a aproximar o skincare do cotidiano e a estimular o interesse por novas etapas de cuidado.
A promessa de uma pele iluminada e uniforme também contribuiu para esse fenômeno. Nas redes sociais, a chamada glass skin se tornou uma referência de beleza e passou a ser associada ao uso de diferentes produtos aplicados em sequência. O resultado visual de uma pele hidratada, luminosa e com aparência saudável ajudou a transformar determinadas rotinas em verdadeiros fenômenos digitais.
Apesar da popularidade, a dermatologista ressalta que não existe uma relação direta entre a origem coreana de um cosmético e sua eficácia. Muitos dos ingredientes presentes nesses produtos já fazem parte da dermatologia há anos e são utilizados por fabricantes de diferentes países. Niacinamida, ceramidas, ácido hialurônico, antioxidantes e retinoides são alguns exemplos de ativos conhecidos na área dermatológica. Por isso, o interesse por um produto não deveria começar apenas pelo país onde ele foi desenvolvido, mas pelas características da fórmula e pelo que ela pode oferecer à pele.
"Como dermatologista, eu não escolheria um cosmético pela nacionalidade. Escolheria pela formulação, pelo ativo, pela concentração, pela evidência científica e pela necessidade daquela pele", explica Luanna. A avaliação é especialmente importante diante da quantidade de produtos que chegam ao mercado acompanhados de promessas de resultados rápidos.
A diferença entre popularidade e evidência científica é um dos pontos que merece atenção. Um ingrediente pode se tornar conhecido mundialmente por meio de vídeos e recomendações nas redes sociais sem necessariamente possuir o mesmo conjunto de estudos que sustenta ativos dermatológicos mais tradicionais.
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Mais etapas, mais resultados?
A própria lógica da rotina coreana também passou a chamar atenção. O famoso skincare de múltiplas etapas pode envolver limpeza, tonificação, aplicação de essências, séruns, hidratantes e outros produtos. A ideia de que quanto mais etapas, melhor seria o resultado, porém, não encontra respaldo suficiente na dermatologia. "Não existe evidência dermatológica robusta demonstrando que uma rotina de 10 passos seja superior a uma rotina mais simples e bem prescrita", afirma Luanna. Para ela, a quantidade de produtos não deve ser confundida com a qualidade do cuidado. A dermatologista considera que a rotina extensa pode ser atraente do ponto de vista comercial, mas não necessariamente sinônimo de pele saudável.
A dermatologista Tainah de Almeida reforça que a questão não está especificamente nos cosméticos coreanos. Qualquer produto utilizado em excesso, de maneira inadequada ou sem considerar as características individuais da pele pode provocar alterações. A combinação de muitos cosméticos ou de ativos potencialmente irritantes pode comprometer a barreira cutânea. Vermelhidão, ressecamento e descamação estão entre as possíveis consequências. Em alguns casos, o excesso de produtos também pode desencadear alergias ou contribuir para o surgimento de cravos e espinhas. "Em skincare, usar mais produtos não significa necessariamente mais resultado", destaca Tainah.
Um dos problemas mais frequentes observados pela dermatologista é a dermatite de contato. Ela pode aparecer como consequência da irritação provocada pelo excesso de produtos ou de determinados ativos, mas também pode ocorrer quando o organismo desenvolve uma reação alérgica a algum componente da fórmula. A acne é outro ponto de atenção. O chamado empilhamento de produtos, quando várias camadas são aplicadas sucessivamente, pode não ser adequado para todos os tipos de pele. A escolha de cosméticos incompatíveis com uma pele oleosa ou acneica também pode favorecer o aparecimento ou a piora das lesões.
Cada pele, uma necessidade
Por isso, reproduzir uma rotina encontrada nas redes sociais pode ser um problema quando ela é aplicada sem adaptações. Uma sequência que funciona para determinada pessoa pode não apresentar o mesmo resultado em outra, já que características como idade, sensibilidade, oleosidade e condições dermatológicas variam. "O principal erro é reproduzir uma rotina que, muitas vezes, não faz sentido nenhum e sem considerar as suas necessidades individuais", afirma Tainah. Segundo ela, fatores como acne, rosácea, sensibilidade, clima, tratamentos já utilizados, estilo de vida e idade devem ser considerados antes da escolha dos produtos.
A diferença de clima e de características da pele também é relevante quando uma tendência estrangeira chega ao Brasil. O país apresenta uma grande diversidade de fototipos e características cutâneas, além de regiões com temperaturas elevadas e intensa exposição à radiação ultravioleta. Dessa forma, uma rotina popularizada em outro país não deve ser simplesmente reproduzida sem considerar a realidade local. Uma pessoa com pele oleosa, por exemplo, pode não precisar de diversas camadas de séruns e cremes, principalmente em ambientes quentes e úmidos.
Entre os pontos positivos da indústria coreana, a dermatologista destaca a evolução dos fotoprotetores. Filtros solares com texturas leves e sensorial agradável podem facilitar a adesão ao uso diário e, principalmente, à reaplicação, que é uma das dificuldades encontradas por muitos consumidores. A experiência sensorial, aliás, é uma das características que ajudam a explicar a força da K-beauty. Produtos que espalham facilmente, não deixam sensação pesada e apresentam texturas agradáveis podem tornar mais fácil manter uma rotina de cuidados diariamente. Ainda assim, uma rotina eficiente não precisa ser extensa. Para Luanna, a base dos cuidados pode ser construída a partir de três pilares: limpeza adequada, hidratação e fotoproteção. A partir deles, tratamentos específicos podem ser incluídos conforme as necessidades de cada pessoa.
Sinais de alerta
Alguns sinais indicam que é hora de interromper o uso de um cosmético. Ardência persistente, coceira, vermelhidão intensa, inchaço, descamação acentuada, espinhas, bolhas ou outras alterações devem ser observados com atenção. Se os sintomas forem intensos ou não desaparecerem depois da suspensão do produto, a orientação é procurar avaliação dermatológica.
A procedência também merece atenção. Com o aumento da procura por produtos importados, o consumidor deve verificar se o cosmético é comercializado regularmente no Brasil e optar por lojas confiáveis. Além da possibilidade de falsificação, produtos sem procedência conhecida podem dificultar a identificação da composição e das condições de armazenamento.
Uma rotina básica para quem quer começar
Pela manhã
- Limpeza suave
- Antioxidante ou outro ativo, quando houver indicação
- Fotoprotetor adequado ao tipo de pele e à exposição solar
À noite
- Limpeza
- Ativo dermatológico de acordo com a necessidade da pele
- Hidratante adequado
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte
