
Nos últimos anos, a rotina de cuidados com a pele — o famoso skincare — deixou de ser um simples ato de vaidade para se transformar em uma verdadeira ciência. A obsessão do mercado hoje é que o ritual de beleza seja eficiente biologicamente e respeite a natureza.
Com a popularização do skincare, o mercado de desenvolvedores de ativos e farmacêuticos investiu em pesquisa e em descobertas que possam revolucionar os cuidados com a pele. Essa evolução foi impulsionada pela consolidação da clean beauty (beleza limpa, em tradução livre), movimento que propõe a utilização de cosméticos e produtos livres de ingredientes potencialmente nocivos e produzidos de forma transparente aos usuários, com clareza sobre a composição das fórmulas.
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Para Octávio Luiz Franco, professor de pós-graduação em biotecnologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), a diversificação de potencial compradores, como homens, mulheres, pessoas mais jovens e mais velhas, proporciona um desenvolvimento mais amplo dos produtos, para que sejam adaptados para cada pele. "Nós estamos desenvolvendo várias moléculas e produtos focados na área da pele, porque hoje existe uma demanda não apenas por maior quantidade, mas também por maior qualidade."
A ciência da pele teve sua transição iniciada com os ativos que se tornaram "queridinhos" do público por entregarem resultados práticos e multifuncionais — o básico que conquistou confiança dos consumidores e que estará sempre nas prateleiras das lojas.
No que investir
Os peptídeos, por exemplo, são aminoácidos de cadeia curta, que formam algumas proteínas importantes para o nosso corpo, como colágeno e elastina. Com o passar dos anos, esses compostos são diminuídos da pele e, proporcionalmente, os seus benefícios. Nesse sentido, é importante a reposição, por meio de cremes, loções e séruns, dos compostos que ajudam a manter a pele rejuvenescida, com aparência saudável, brilhante e hidratada. Além disso, ajudam no clareamento da pele, no brilho do cabelo e na melhora da textura dos tecidos do corpo.
Além dos peptídeos, a vitamina C toma conta da composição dos produtos faciais. Ela tem múltiplas funções, que vão muito além de simples cuidados estéticos. A ação antioxidante protege a pele dos danos ambientais, como poluição e radiação UV. Além disso, estimula a produção de colágeno, que é a proteína responsável por manter a pele firme e jovem. Suas propriedades inibem também a produção excessiva de melanina, sendo capaz de reduzir manchas escuras e uniformizar o tom da pele. A vitamina C contribui, ainda, para manter a pele hidratada, prevenindo ressecamentos e descamações.
As ceramidas são moléculas naturalmente produzidas pelo organismo. Elas compõem 40% da camada mais externa da pele e são primordiais para a manutenção da barreira da pele. Ou seja, são fundamentais para reter a umidade, aliviar a descamação e proteger o rosto contra micro-organismos e irritações.
Natureza como protagonistas
Se esses ativos revolucionaram a última década ao repor o que a pele perdia, a ciência mais recente começou a olhar para o futuro por meio da biotecnologia avançada. Octávio explica: "A busca por essas tecnologias muda o padrão de mercado. Se você olhar 20 anos atrás, nós tínhamos dermocosméticos que não eram reais, eram basicamente químicos que traziam um aroma diferente, um brilho maior para a pele. Agora, temos realmente dermocosméticos fundamentais que fazem com que a tecnologia seja levada ao limite."
O protagonismo no mercado agora também é na sustentabilidade das formulações. Ingredientes de origem vegetal e mineral têm tido mais destaque, quando comparados aos ativos oriundos de animais.
O bioretinol, derivado de algas, tem ação semelhante à dos retinoides, que são de origem animal. Essas moléculas ajudam a estimular o colágeno e a aumentar a renovação celular sem que a pele fique avermelhada, descascando ou irritada, efeitos frequentes ao seu semelhante. Além do rejuvenescimento, ajuda a diminuir linhas de expressão e rugas.
A malaquita é um mineral rico em cobre que tem propriedades de proteção da pele contra o envelhecimento. O composto age como um escudo de vitamina que bloqueia o desgaste devido ao contato da pele com o ar, com a poluição e com os raios UV, que oxidam os tecidos. Nesse sentido, suas características antioxidantes e detox auxiliam para o aspecto de uma pele limpa de impurezas, iluminada e descansada.
Já o bemotrizil, conhecido pelo nome comercial Tinosorb, revoluciona um produto muito comum: o filtro solar. Esse protetor é de amplo espectro — blinda a pele contra os raios UVA, responsáveis pelas manchas e pelo envelhecimento celular, e UVB, causadores de queimaduras. O grande destaque se dá pela eficiência do bemotrizinol frente aos filtros solares tradicionais em sua fotossensibilidade. Ele não degrada facilmente sob o sol, o que significa que mantém a efetividade de proteção por muito mais tempo, além de ajudar a estabilizar outros ingredientes menos resistentes da fórmula. Suas propriedades não penetram nas camadas mais profundas do organismo e não agridem os recifes de corais, por isso ele se tornou um ativo padrão-ouro nos protetores solares modernos.
De olho na formulação
A dermatologista Natalia Solon, explica que o consumidor não deve considerar somente o quão relevante o produto é, principalmente nas redes sociais, mas, sobretudo, prestar atenção nas formulações. "Uma das maiores confusões é acreditar que basta um ingrediente aparecer no rótulo para que ele seja eficaz. Na prática, o ativo representa apenas parte da história. O que realmente determina o resultado é a formulação: concentração, estabilidade, veículo, pH e tecnologia capaz de fazer esse ingrediente chegar ao local da pele onde precisa atuar. É por isso que dois produtos contendo o mesmo ativo podem apresentar resultados diferentes."
A médica comenta também que os dermatologistas buscam evidências, em estudos clínicos em humanos, publicados em revistas científicas, com metodologias diferentes e resultados semelhantes em reproduções feitas por diversos cientistas, para além do marketing feito pelas empresas. Ela aconselha que "o consumidor não escolha pelos ingredientes da moda, mas pela qualidade da formulação e pela credibilidade científica por trás de quem produz".
Natalia finaliza com dicas para quem quer iniciar no mundo da skincare. "Não existe tecnologia avançada capaz de compensar a ausência do básico. Se uma pessoa não usa protetor solar diariamente, não mantém uma boa hidratação e não tem uma rotina consistente, dificilmente um cosmético de última geração fará uma diferença significativa. Por outro lado, seria injusto dizer que toda inovação é apenas marketing. O importante é entender que inovação deve agregar resultado, e não apenas aumentar o preço."
Para a dermatologista, primeiro deve ser consolidada uma rotina básica de cuidados com eficácia comprovada e, quando houver indicação, incorporar tecnologias mais sofisticadas e personalizadas para cada pele.
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

Revista do Correio
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