Cris Watanabe, dona do Yume Ateliê, decidiu, em 2019, deixar o mundo corporativo tradicional para empreender. No começo, achou que os planos dariam errado: logo após a abertura do negócio, que não era destinado a animais, a pandemia colocou o mundo em quarentena e longe de eventos e festas. Foi nesse cenário que ela voltou o olhar aos companheiros que, mesmo no afastamento, estavam ao lado de seus cuidadores. “Os pets são parte essencial da nossa família, e a vida deles passa rápido demais. Só que muita gente ainda sentia vergonha de comemorar.”
No Yume, os serviços de celebração para os animais de estimação vão do mais simples, uma decoração pequena e um bolo, ao completo, que inclui toda a elaboração da decoração, contratação de fornecedores de alimentos e organização da festa e do ambiente. Cris afirma que monta a decoração a partir de um tema, mas sempre dentro do contexto da vida do pet. “Uma frente que tem crescido bastante é a de eventos com recreação e entretenimento. Aliamos a ambientação a gincanas e atividades focadas em enriquecimento ambiental, promovendo interação real entre tutores e cães”, detalha.
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Hoje, existem opções de bufê completo para os amigos de quatro patas. Cris comenta que a segurança alimentar dos bichos é fundamental e que busca sempre produtores especializados, inclusive em casos de restrição alimentar. “Além disso, diferente de uma festa infantil tradicional, a gente nunca deixa a comida exposta na mesa durante o evento.” Isso vale até para a mesa do bolo, que só é montada na hora de cantar parabéns — medida que Cris considera essencial para evitar que os animais comam algo sem supervisão e para prevenir confusões.
Os pais de pet também têm direito de aproveitar, e o cardápio prevê quitutes típicos de festa para todos celebrarem. “Em muitos casos, os eventos ocorrem em bares, cafeterias ou espaços pet friendly onde o próprio estabelecimento já oferece o cardápio da casa”, explica Cris. Quando a festa é em outro local, as pessoas contratam um bufê específico para os convidados humanos, além dos quitutes para os pets.
Adaptações
Apesar de partir do mesmo princípio, uma festa pet deve ser organizada de forma completamente diferente da destinada a humanos. Os animais não sabem que é uma celebração, eles estão apenas vivendo mais um dia, e isso precisa ser levado em consideração no planejamento.
Segundo a veterinária e coordenadora do curso de medicina veterinária da Estácio, Flaviane Teles, diversos aspectos da estrutura do evento devem ser adaptados. “O principal é colocar as necessidades comportamentais e fisiológicas do animal como prioridade”, aconselha. Ela recomenda pensar em um ambiente seguro, com água disponível e a possibilidade de o animal se afastar do tumulto, e lembra que não é indicado tocar música alta, para evitar o estresse.
De acordo com a professora de medicina veterinária do Ceub Thuany Cotta, as fotos não devem ser feitas com flash e os convidados precisam ser contados, já que mesmo um cão sociável pode ficar estressado se exposto a muitos estímulos e à atenção de muitas pessoas ao mesmo tempo.
Também é preciso atenção às fantasias de aniversário. Roupas, chapéus e sapatos podem causar calor, restringir o movimento e incomodar os bichos. “Só devem ser usados se ele já estiver habituado e se a peça não dificultar a respiração, a visão ou a locomoção”, aconselha Thuany.
A decoração é outro ponto importante. “Objetos pequenos ou qualquer material que possa ser ingerido e causar algum comprometimento à saúde dos animais” devem ser evitados. O mesmo cuidado vale para a alimentação. Thuany Cotta destaca que as comidas devem ser preparadas com ingredientes apropriados, de forma higiênica e em porções pequenas. “O nome ‘pet’ não garante segurança: é necessário conferir a composição e oferecer apenas como um agrado ocasional”, reforça.
Segundo a especialista, a alimentação durante a festa deve ser controlada o tempo todo por uma pessoa responsável, pois até os alimentos próprios para bichos podem causar complicações. “Como regra geral, os petiscos, incluindo o bolo, não devem ultrapassar 10% das calorias diárias do cão e precisam respeitar suas restrições alimentares.”
Socialização
Flaviane indica fazer apresentações graduais do aniversariante aos convidados, respeitando o comportamento de cada um. “Quando possível, o primeiro contato entre cães pode acontecer em um local calmo e antes de colocá-los diretamente no ambiente da celebração.” Durante a festa, as interações devem ocorrer naturalmente, sem forçar um cão a interagir com outro ou com pessoas.
Para estimular a convivência, podem ser propostas atividades recreativas, desde que sejam leves e conhecidas pelos animais participantes, como brincadeiras, brinquedos ou atividades de busca. “Dormir, descansar, observar o ambiente ou simplesmente ficar próximo do tutor também são comportamentos naturais em um ambiente com muitos estímulos; esse comportamento deve ser respeitado”, alerta Flaviane.
Para garantir a segurança de todos os presentes, Thuany recomenda pedir aos tutores de outros bichos a comprovação de que o animal está saudável. “É recomendável solicitar a vacinação atualizada e o controle de parasitas conforme a orientação do médico veterinário. A vermifugação deve seguir as necessidades de cada animal, e não ser feita apenas por causa da festa”, explica. Cães com sinais de doenças, como tosse, vômitos ou diarreia, não devem participar.
Os pets aproveitam?
Flaviane explica que as festas são positivas para os bichos, mas de forma diferente. A percepção que eles têm de celebrações desse tipo é distinta da humana, porque os animais não têm cultura e não associam uma festa ao aniversário. “O benefício está na experiência positiva, o pet pode associar o momento a experiências agradáveis, como receber atenção, brincar ou ganhar algo de que gosta, como um petisco.”
Mas a festa não pode ser feita apenas por capricho humano. É essencial que o animal se sinta confortável com os estímulos. “Alguns são naturalmente mais sociáveis e toleram bem ambientes movimentados, outros podem se sentir desconfortáveis com o estímulo e a interação”, ensina a veterinária. Uma festa adequada precisa permitir que o pet participe, mas também que possa se retirar caso se sinta desconfortável e descansar quando quiser. A aceitação ou não da celebração varia de acordo com o temperamento de cada animal.
Ao celebrar o aniversário de seus cães, Carolina Caramori, estudante de 24 anos, prefere algo reservado, apenas com a família e os pets, que não se relacionam bem com outros animais. “Faço questão de respeitar os limites deles e manter um ambiente tranquilo, sem muita gente ou barulho excessivo. Para mim, a comemoração precisa ser agradável para eles também”, comenta.
Carolina sempre fez festas para os cachorros. “Eu os considero meus filhos. Como sei a data em que eles nasceram, sempre fiz questão de comemorar”, diz. A celebração acontece duas vezes ao ano, uma para o yorkshire Tommy, de 12 anos, que faz aniversário em maio, e outra para a chihuahua Boo, que completa 7 anos em 14 de outubro. “Nessas datas, compro um bolinho próprio para eles e tiro algumas fotos. Virou uma tradição nossa e uma forma de marcar mais um ano da vida deles”, conta.
Para ela, comemorar a vida dos companheiros é uma forma de demonstrar carinho e gratidão. “É uma forma de tentar retribuir um pouquinho de todo o amor incondicional que eles me dão diariamente”, relata. Apesar de os cães não entenderem o conceito de aniversário, Carolina considera a data e a celebração muito especiais. “Bebês de um ou dois anos também não compreendem completamente o significado de uma festa de aniversário e, ainda assim, suas famílias celebram aquele momento”, compara.
A estudante já foi criticada por “humanizar” os animais ao fazer a festa, mas não se incomoda. “Entendo que nem todo mundo consegue compreender esse tipo de vínculo com os animais. Demonstrar carinho dessa forma não significa esquecer que eles são cachorros”, justifica.
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
